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Qual crise?

Estas são conversas de um país que, estando em crise, vive apesar dela. Neste espaço fala-se de um Portugal que ainda consegue ser belo, de um GoCar feito playboy e de uma viagem que sempre quis fazer.


Domingo, 25.11.12

Interlúdio

Tentei sair, mas a chuva era tanta que num quilómetro voltei para trás. Foi boa ideia porque ainda não parou de cair. Peço desculpa pela falta de texto de hoje. Com um tempo assim, nem dava para ver o que fosse. Amanhã dão melhoria. E volto à escrita.

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por Ricardo Braz Frade às 18:02

Sábado, 24.11.12

De Lamego a Viseu

Santuário da Nossa Senhora dos Remédios - Lamego

Com o senhor João, no escadório - Lamego

 

O Santuário à Nossa Senhora dos Remédios assemelha-se, a uma escala mais pequena, ao do Bom Jesus, mas aqui como parte integrante da cidade de Lamego, sendo o seu início num dos parques mais centrais da cidade, onde percorremos o tempo, literalmente, na estatuária alusiva às quatro estações do ano. Estão todas assinaladas mas chegaríamos lá sem a ajuda das letras: a da primavera tem ao pescoço o seu símbolo máximo, as flores, associadas às Maias; a do verão, ou no caso, o estio, tem presente uma foice, a indicar o período das colherias; a do outono está coberta de folhas de carvalho, a árvore mágica que perde a sua roupagem nesta altura do ano; e por fim o inverno, em que as duas figuras estão cobertas num manto, tapadas do frio. Depois de percorrermos o ano cíclico, e à medida que entramos no escadório, passamos para um espaço intemporal, de subida aos céus. Podemos fazer uma nítida comparação com o Bom Jesus, em que o sensorial se purifica para, com o ritual em crescendo da subida, se transformar em algo maior - no caso de Braga temos os cinco sentidos como sinónimo do que é terreno, em Lamego temos as quatro estações. Aqui, contudo, dedicam-se os passos do caminho à Nossa Senhora dos Remédios, uma das muitas invocações portuguesas a Maria, Mãe de Jesus. Trata-se portanto de um culto à Virgem, como bem se pode mirar nos magníficos azulejos que acompanham episódios da sua vida - e apercebemo-nos disso logo no primeiro, em que ela se encontra pousada numa lua e tem aos seus pés uma serpente, que a simbologia pagã, muito antes da cristã, adaptava às suas mensagens e imagens. 

Os lanços de escada têm uma decoração própria do barroco e diferem todos entre si, cada um com uma ornamentação própria. Quase no topo, antes do adro, temos um pátio com uma escultura estranha, em que uma figura, metade peixe, metade homem, toca um búzio, virado para o centro de Lamego, que parece fazer um chamamento. Estar-nos-à a chamar para assistirmos à coroação da Virgem, a Rainha dos Céus, que vemos no painel seguinte: Jesus, acompanhado por Deus-Pai, e o espírito santo por trás, na habitual forma de pomba. A Coroação de Maria é celebrada no dia 22 de Agosto e é de registar que neste data, ou pelo menos no fim de semana que mais se aproxima dela, há, em Lamego, as festas da Nossa Senhora dos Remédios, onde se organizam procissões até ao santuário. As coincidências têm quase sempre explicação.

 

O chamamento - Lamego

A coroação da Virgem - Lamego

 

O Parque de Nossa Senhora dos Remédios, que abriga o santuário e se estende nas laterais bem para lá dele, dando milhares de metros panorâmicos sobre Lamego e as serras do Douro, está também coberto de pequenos mistérios. Encontrei um senhor, João de nome, que me mostrou um coreto invulgar, montado em cimento e ferro e rede de arame, mas com um padrão que se confundia com madeira, não o sendo. É pena que esteja coberta de frases em que a Ana revela o seu amor pelo Sandro, escritas a caneta de feltro.

- A mocidade dá cabo disto tudo - disse ele enquanto encolhia os ombros, e achei giro ele ter escolhido a palavra mocidade

Depois seguiu caminho e levou-me com ele, até duas grutas esquisitas, uma chamada de São João, outra de Santo António. A de São João tem uma pequena escultura, já danificada na parte da cabeça, e suponho que seja do santo que lhe dá nome. A segunda é de mais difícil leitura. Conta com uma pia para a qual dois anjos forçam um animal, que não consigo decifrar qual seja, a deitar água da boca. Acho que qualquer uma delas foi alvo da cristianização de antigos pontos de culto, tal como a localização superior da igreja sugere.

 

As quatro estações (Estio ou Verão) - Lamego

Até Viseu - Mezio

 

Hoje vim até Viseu. É bom viajar com um GoCar. Há grupos de velhotes que largam as conversas que estão a ter e rodam o corpo todo na minha direcção. Há miúdos de mochila às costas que no intervalo do almoço, a caminho de casa, me vêem e berram correrias histéricas atrás de mim. Há carros em contramão que me vêem e sorriem para depois me levantarem o polegar. Há rapazes que me perguntam se estou mesmo a dar a volta ao país e me dão boa viagem com palmadas nas costas. Há grupos de mulheres com aventais que cochicham sobre a vida profana da vila e largam os mexericos para me dizerem adeus com os dois braços bem esticados acima da cabeça. Há adolescentes a rondar o carro e a discutirem a cilindrada enquanto entro numa café para comprar uma água. Há gente cansada que me pede boleia por uns metros e que se sente a subir às nuvens quando se sentam ao meu lado. Estou bem com o Dinis. Não o vou esquecer.

Viseu tem dom. Mais do que dar atenção aos monumentos a que o posto de turismo faz referência, há que não ter receio e percorrer a escuridão de certas ruas, e olhar a sério para a mistura de estilos que está à vista do interesse. As janelas, em várias ruas, como na Rua Escura ou na Praça de Dom Duarte, têm aquele toque snob tão rico e característico do Manuelino, diluídas no barroco e no empedrado bruto da arquitectura nortenha. Se dermos duas horas de passeio reconhecemos à cidade uma feição distinta, não confundível com umas da zona centro e nem com outras da zona norte. E se quiserem dar uso à expressão de férias turísticas, então é acabar o dia no Museu Grão Vasco, que por acaso é uma pérola no meio de tantos que se reproduzem pelo país sem qualquer assunto que o justifique, ou apanhar o lentíssimo funicular que nos leva da Sé até ao Campo de Viriato, onde está a célebre estátua do Lusitano.

 

Largo de São Teotónio - Viseu

Túnel da Rua Escura - Viseu

Funicular - Viseu

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por Ricardo Braz Frade às 20:08

Sexta-feira, 23.11.12

De Marco de Canavezes a Lamego

Miradouro - Gove

Socalcos - Santa Cruz do Douro

 

Ontem não cheguei a ir ver o Bond. A fita estava estragada de forma que tive de arranjar alternativa na outra sessão, a única que sobrava. Estava a rodar aquele filme em que os vampiros têm penteados de Cascais e os lobisomens vão ao ginásio para poderem usar camisas de algodão muito justas. Tinha tantas saudades de me sentar hora e meia no escuro só para ver malta a fingir-se passar por outra pessoa que até desculpei o facto do filme ser fraquito. 

Voltei ao Douro hoje, desta vez andei sempre com ele pela mão, de Santa Cruz do Douro até à Régua. Estes gigantes degraus escavados nas serras que apertam o rio são um trabalho de mestre, que nem certos oleiros conseguiriam fazer a moldar o barro. Aqui podemos ver o que significam realmente estes socalcos, um dos melhores casos que o mundo tem para dar de como o homem consegue mudar a paisagem, e, às vezes, como aqui, para melhor. Estas formas resultam quase sempre de uma necessidade humana, sendo este exemplo uma tentativa muito bem sucedida de tornar funcional um terreno que na origem não tinha nada mais para dar que não miradouros. Olhar para a escadaria imensa do Douro vinhateiro mostra como se pode forçar a terra a ser outra coisa que não o que a mandaram ser. Mostra uma vontade inesgotável do Homem em contrariar uma força que, à partida, seria maior que ele, a da natureza. E mostra, sobretudo, uma teimosia de criança em querer arar solos que os deuses quiseram áridos. 

O fascinante é que se conseguiu. Será difícil pensar no Douro na sua versão original e achar que ele seria mais belo antes do que é agora.

 

Vista para o Douro - Vila Jusã

Vista para o Douro - Barqueiros

 

Que curiosos são estes espigueiros em pedra, que sobressaem nos declives suicidas das serranias do vinho, feitos estátuas de gente célebre, a estenderem-se como túmulos, na horizontal, muitas vezes em grupos de dezenas, em eiras comunitárias. Estão a cada curva sinuosa, se nos dermos à atenção de os procurar. Hoje tidos como uma etiqueta do que é a pontuação paisagística do norte, já foram antes apenas um meio para um fim: pôr o milho a seco e livre de ser destruído. Sendo este solo húmido a estrada de muitos animais roedores, houve necessidade de se levantar este armário do chão - sobre pequenos pilares que o sustentam no ar -, cortar-lhe umas fissuras laterais, ora na pedra, ora na madeira, e deixá-lo parado a fazer esse serviço de armazenamento e de secagem. São quase sempre colocados em lugares de fortes bafejos, desabrigados a grande altitude, para acelerar o processo de enxugar o cereal.

Assim que passo a ponte na Régua deixo-os quase todos para trás.

A chula está a acabar.

 

Espigueiro - Pinheiro

Taberna - Lamego

 

Em Lamego aconteceu-me, pela primeira vez, ver recusada uma dormida num quartel de bombeiros que não por uma razão justificada. 

- As ordens que tenho é que não aceitamos ninguém - disse-me a mulher da secretaria -, desde que tivemos uma má experiência com um senhor que nos pediu o mesmo que o senhor está a pedir.

- A sério? Então?

- Então era um espanhol que roubou o carro ao comandante e foi até Espanha com ele. Tivemos de o ir lá buscar.

Comecei-me a rir.

- Mas ouça, por causa desse caso cortaram todos os outros? Também sei de muitos desconhecidos que me tentaram enganar e não é por isso que me deixo de dar com gente que não conheço. Já fiquei em dezenas de quartéis nesta viagem, pode telefonar para qualquer um deles e saber que não roubo nada a ninguém.

- Pois, desculpe, são as ordens que tenho.

Quando ouço esta frase, o meu ouvido faz soar o alarme mental que avisa para me ir embora. São as ordens que tenho, que numa linguagem futebolística corresponde a um, epá, tira a bola daqui pra fora, tem matéria suficiente para fazer um capítulo de portuguesismos. É semelhante àquelas empresas que invocam o sistema interno para não nos responderem às questões. Lá me sugeriram um albergue de peregrinos de Santiago, que estava fechado. Eu que hoje até fui bom samaritano e dei boleia a um senhor já de certa idade durante três ou quatro quilómetros e que ficou encantado com o GoCar. Caraças para esta treta de conversa sobre o karma.

Lamego, entretanto, continua como o conheci: bonito. Acho que disse que não voltava à província de Trás-os-Montes mas pelos vistos menti. O texto já vai grande. Amanhã falarei do que queria falar. Do altar da vila, o Santuário da Nossa Senhora dos Remédios. 

 

Moradia e Igreja de Santa Maria de Almacave - Lamego

Largo de Camões - Lamego

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por Ricardo Braz Frade às 20:37

Quinta-feira, 22.11.12

Do Porto a Marco de Canavezes

Ribeiro - Alvre

Requalificação urbana - Marco de Canavezes

 

Corri parte do Douro, em contracorrente. Que bonito que ele é, visto assim, de jusante até montante, a rodar um filme do final para o início. 

Conta-se que Deus definiu nascentes e marcou-lhes hora e minutos para que estas caminhassem até aos mares, deixando um rasto para trás a que hoje chamamos rios, e que a nascente do Douro adormeceu, à medida que todas as outras partiram, à data marcada, em direcção ao destino que lhes estava traçado. Quando acordou e viu o quão atrasada estava, pôs-se a caminho, desbravando tudo o que a natureza lhe deixou como intransponível. Furou rochas inultrapassáveis, atravessou vales inacessíveis, pulou montanhas, e enfim chegou ao oceano muito antes de todos os outros, que partiram antes e escolheram planuras de fácil transposição. É uma boa maneira de perceber como o norte estima a solidez deste rio, que nasce espanhol mas cresce português, até ganhar esplendor quando entalado entre Gaia e Porto, a metros de se transformar em Atlântico. 

Parece de propósito que o Douro seja uma das melhores analogias aos adjectivos nortenhos: brutal, cheio de si, enlameado e esforçado, invicto, a cheirar à humidade da terra que arranca das margens. O Tejo abranda velocidade e faz uma pausa quando chega às lezírias do ribatejo, ao ponto de nem sabermos, junto ao Mar da Palha, encostado a Alverca, o que é que dali é rio e o que é que dali é mar. O Guadiana, no extremo sul, parece andar em biquinhos dos pés que mal damos por ele ao passar Vila Real de Santo António. Já o Douro, esse fluxo portentoso que tem a pujança da água bombeada de uma mangueira, segue sem medo de se dar à morte da foz. Sabemos como começa e como acaba. É abrupto. Como o norte.

 

Cruzeiro - Marco de Canavezes

Solar dos Mourões - Marco de Canavezes

 

Marco de Canaveses não tem nada de bucólico. Tem betão e prédios com mais de cinco andares. A artéria principal, que vem do vale até ao cimo do monte, está com obras em metade do seu percurso, numa requalificação urbana que não sei quanto mais tempo demorará a terminar. É como subir às nuvens, medir o corpo inteiro de uma cidade, e perceber depois que lhe estão a engendrar uma operação à coluna vertebral. Vê-se uma exibição de um rolo compressor a alisar o cimento e ouvem-se uma colecção de barulhos industriais de escavadeiras a bater na pedra e carregadeiras a pegar na terra. À volta estão praticamente todas as marcas de cadeias de hipermercados que passam em formato comercial na televisão. De histórico, no cume, pouco há para ver. Deram-me conversas de que o bonito em Marco de Canavezes não é o concelho, mas sim algumas das freguesias e outros marcos paisagísticos, quase sempre juntos ao rio Tâmega, que vai daqui para sul até dar um abraço ao Douro, ou à Serra do Marão, a tal para lá da qual mandam os que lá estão. As barragens que construíram por cá, uma no Douro e outra no Tâmega, transformaram zonas ribeirinhas em centros de desportos aquáticos e deram oportunidade para que se aproveitassem uns espaços sem uso em praias fluviais. Cheguei tarde, a uma hora da noite, e não consegui picar todas essas recomendações, sobretudo porque a rapidez com que teria de as ver faria de mim um estafeta e não um interessado. 

 

Casario - Marco de Canavezes

Câmara Municipal - Marco de Canavezes

 

Mas destaco a imponência branca da Igreja de Santa Maria, com pouco mais de quinze anos, projectada por Siza Vieira, muito estranha e abstracta na forma. Obra polémica à data da construção, pois claro, em que não devem ter faltado vozes populares a implicarem com o modelo aplicado e com os custos que devem ter assustado qualquer orçamento. Pelo que consegui falar com os locais, e seleccionei os mais velhos que têm maior tendência para a recusa da novidade, senti que apesar de tudo havia um orgulho bairrista marcoense em por cá terem um feito do Siza. Sendo honesto, nunca assimilei estas reformas que têm sido feitas para dar nova cara à arte sacra. Fogem-me do meu conservadorismo habitual, que se acostumou a ver a planta em cruz, com a nave e os assentos a fazerem as pernas, os coros à esquerda e à direita a darem os braços, e o altar a finalizar a parte da cabeça. Esta, vista de cima, tem também a forma de um corpo, mas sem membros e acéfalo, já que acaba no pescoço. A entrada é megalómana, faz uns cinco de mim, e pelo que percebi apenas se abre em ocasiões que o justifiquem. Tem escalas ambíguas, ora com essa portada que se não medir dez metros pouco lhe faltará, ora com outras, laterais, que não devem chegar aos dois e meio. Na parede do lado da estrada principal corre uma janela, que se alinha sem interrupções durante todo esse muro, dando-lhe uma luminosidade interior invulgar para um espaço que se quer recolher numa fé isolacionista. Tenho uma má relação com alguma arquitectura moderna porque não a consigo classificar na minha escala de gosto pessoal. Admiro a coragem de romper convenções e vincar novos padrões mas saí dali sem ter a mínima noção se achava ou não piada à extravagância pálida de tal objecto. 

Pela primeira vez desde a minha partida, e a fazer jus às forças urbanas de Marco de Canavezes, vou ao cinema. O novo Bond passa à meia-noite. Li boas críticas e ouvi ainda melhores opiniões. Tirando as do Público, para não variar, em que o Vasco Câmara continua a estourar uma e duas estrelas em quase tudo o que é filme. Nem sei o que é que o gajo vai lá fazer, sinceramente. Se não gosta de nada, fique então por casa a escrever, que eu já percebi que a coisa que mais o fascina é o aparato dos seus próprios textos.

 

Igreja de Santa Maria - Marco de Canavezes

Eu na portada da Igreja de Santa Maria - Marco de Canavezes

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por Ricardo Braz Frade às 20:23

Quarta-feira, 21.11.12

De Braga ao Porto

Putos num GoCar - Porto

Casas na Ribeira - Porto

 

Porto.

Levas-me a um céu em que os deuses são cabrões e desobedecem e dizem palavrões.

Dás-me o frio de um cubo de gelo nas costas de uma t-shirt e bombas-me de calor até explodir o coração. De emoção.

Talvez um dia se entenda o alvoroço desse teu licor de singeverga que me ateia até ao osso. Talvez um dia se descubra melhor mania catraia que o de fazer um brinde a ti desde as caves de Gaia.

Trazes-me a excitação de um miúdo a dormir mal numa véspera de Natal.
Quero-te comprar tudo. Quero-te comprar todo. Escrever-te má prosa e poesia rançosa. Cantar-te o Veloso no "A gente não lê" e ler-te de trás para a frente os versos do Tê. Começar-te na foz, e misturar o mar com minha a voz. Terminar-te na ribeira, e ver o Douro a desfazer-se ali à beira. Pulsar-te a noite, à noite, com álcool e sem norte. És tão curto e tão torto, meu Porto, e mesmo assim não te vejo o fim.

Transformas um gajo como não conseguem drogas pesadas com viço. Ainda hoje troquei os vês pelos bês e nem sequer dei por isso. Pões-me a rezar a santos da pesca do povo da Afurada. Que religião davas se te desses à maçada.

Como é que há peregrinos do norte a passarem aqui e seguirem para Fátima? Que crentes são estes que não crêem no que é belo?

Já eu não repouso sem te atar as pontas todas. Não me tapo sem te decorar os cantos e o mistério do que em ti não se vê, que tão depressa me faz esquecer o fêcêpê.

Que te trovem em sol maior numa fábula duriense que nenhum sonho teria mãos para desenhar.

Mereces um coro de falsetes e barítonos que do Douro te peça para namorar.

Sabes lá das saudades com que me deixas em casa.

Só não te digo perfeito porque perdias toda a graça.

E ver-te agora, a fazer-me a folha, de noite fechada, é ter a braseira da pele da mulher que amamos, à nossa encostada.

 

Gaia do Porto - Porto

Porto de Gaia - Gaia

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por Ricardo Braz Frade às 22:13

Terça-feira, 20.11.12

De Guimarães a Braga

Aspecto de casas - Citânia de Briteiros

Casas recontruída - Citania de Briteiros

 

Fui à Citânia de Briteiros pela segunda vez, ali a meio caminho entre Guimarães e Braga. É dos nossos melhores exemplos, pelo menos no que toca à dimensão, da cultura castreja, que se vê repetidamente no nosso norte atlântico, e também em terras do extremo noroeste peninsular, na província galega, quando uma vez na história universal estas duas partes do planeta pertenceram à mesma região, a Gallaecia. O castro que existe em Briteiros encontra paralelo em muitos outros a norte do rio Minho, numa comunhão cultural reconhecível à distância. É daqui que vem este namoro do Entre-Douro-e-Minho com a Galiza, uma novela que não termina por muito que estejam hoje afastados por uma fronteira que gente com coroas de há muitos anos atrás quis aqui fazer. Nem é preciso entrar em polémicas políticas e identitárias. Nunca fui por aí e não vai ser hoje que o vou fazer. Basta que um tipo agarre no volante em Santiago de Compostela e o largue quando chegar ao Porto e percebe, desde que se deixe levar pela carga cultural que há do lado português e do lado galego. É que está lá, à vista mais que desarmada, a partilha da mesma sabedoria. 

A Citânia de Briteiros apresenta as ruínas de uma antiga aldeia que hoje, se calhar, por culpa do Uderzo e do Goscinny, associamos às bandas-desenhadas do Astérix. A verdade é que esta comparação está a léguas de ser disparatada. A aldeia desses livros situa-se na costa ocidental francesa, próxima da pequena península da Bretanha, hoje o último foco absolutamente celta - até na língua, britónica, similar à do País de Gales - da actual faixa oeste de França. Também aí podem ser encontrados testemunhos de antigos castros, tão resistentes à invasão romana como os de cá. E também aí se vivia num regime de comunidade agro-pastoril que já reportei neste espaço como ainda existente em Portugal. É nesta linha que se entende por que se fala, genericamente, nos dias de hoje, de um eixo atlântico, que, apesar das muitas diferenças, mantém uma ligação quase metafísica entre todas as suas partes. São elas Irlanda, Escócia, Gales, Bretanha, Astúrias, Galiza e Portugal.

 

Arcada - Braga

Largo de Santa Cruz - Braga

 

De Braga já se gastou muita tinta. Tem crescido muito, até ao limite da planície que lhe dá chão. É pesada, populosa, cinzenta. Nem os estudantes lhe tiram a sombra. E tão clerical. Deve ser este o sítio em que Portugal soma mais igrejas e capelas e santuários por metro quadrado. Fazendo contas devemos chegar a qualquer coisa como um ponto de oração por habitante. 

É impressionante como se tornou uma cidade à séria, e retomou o seu papel de Bracara Augusta, senhora do Minho, capital da Galécia do sul, dona do império castrejo. 

As mulheres são muito bonitas aqui. Contrastam o irrealizável verde brilhante que têm nos olhos com o esbate do granito triste na fachada das casas. O verdadeiro monumento de Braga é a mulher minhota, uma fantasia que se aproxima das nossas fábulas de moiras encantadas, de cabelo longo e olhos claros, de feiticeira, com um misto de candura e vingança espalmado na cara.

 

Via Sacra no Bom Jesus - Tenões

Escadório dos Cinco Sentidos e das Três Virtudes no Bom Jesus - Tenões

 

Ao Bom Jesus vai-se a pé. Não há cá motores. E se com isto pareço fundamentalista é porque estou mesmo a ser fundamentalista. Se alguém me disser que sim, que foi ao Bom Jesus, mas de carro e depois de elevador, porque estava muito cansado e as pernas pareciam varas, eu respondo-lhe que então não foi. Viu-o, talvez. Tirou-lhe uma sequência anormal de fotos como se de um par de noivos se tratasse, deu meia volta, e ala que já é tarde. Isso não é ir ao Bom Jesus. O Bom Jesus pressupõe um ritual, e começa cá de baixo, a subir estrada até à freguesia de Tenões, onde antes, com quase toda a certeza, já daqui se prestaria culto a outras divindades. Aí chegados, no seu início, é fazer ouvido mouco aos cabos do elevador e galgar cada degrau das escadas que nos está à frente. Todos eles têm o que contar. A riqueza do monumento está no seu todo e não em determinadas partes mais fotogénicas, e convém lembrar que ele começa no piso mais baixo, não a cem metros da igreja. É daí começamos a contar capelas. Cada uma a representar os passos da Via Sacra, da última ceia, à traição de Judas, até à crucificação. Seguimos todos esses episódios num passeio ziguezagueante que não deve ter sido feito assim por mero acaso. Tem muito de iniciático, o percurso, diria que se trata de uma simulação do calvário de Cristo, e escusado será dizer que isso se perde escolhendo a facilidade do ascensor. Uma vez lá em cima, chegamos ao Escadório dos Cinco Sentidos. Por cada dois lanços, damos com uma fonte alusiva aos sentidos - visão, audição, olfacto, paladar e tacto. Todas facilmente reconhecidas. Mais subtil é a mensagem de que se trata de purificar, pela água, aquilo que é sensorial, que é terreno. Porque depois disso chega o Escadório das Virtudes, separado do anterior por um pátio maior. Divide-se em três lanços: o da fé, o da esperança e o da caridade. Aqui, nós, caminhantes, atingimos a plenitude espiritual, que é a verdade absoluta, livre do que se vê, se cheira, se palpa, se saboreia ou se ouve. Chegados ao adro, purificados, estamos prontos a entrar na casa final, a igreja, o encontro com Deus.

Este é o sentido do Bom Jesus, esta ascensão teológica. E nem é preciso ter fé para o percorrer assim. É só ter o mínimo de vontade de o perceber na íntegra. Caso contrário não passa de uma igreja com escadaria para fazer exercício.

 

E agora, já que estamos numa de fé, vou procurar uma Casa do Benfica que passe o jogo de hoje.

 

Escadório dos Cinco Sentidos do Bom Jesus (audição) - Tenões

Escadório dos Cinco Sentidos no Bom Jesus (olfacto) - Tenões

Escadório das Três Virtudes no Bom Jesus (fé) - Tenões

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por Ricardo Braz Frade às 20:25

Segunda-feira, 19.11.12

De Vilarinho das Furnas a Guimarães

Castelo - Póvoa de Lanhoso

Santuário de São Bento - São Bento

 

A descer o Gerês rumo a norte, depois de Vieira do Minho e fugindo às nacionais perpendiculares que vão até Braga, vemos um monte arredondado, ornamentado por mão humana com um castelo no topo. No sopé anda quem lá vive, na Póvoa de Lanhoso, terra do ouro. Provavelmente uma herança da cultura castreja - amanhã tratarei de ir a este assunto -, o trabalho de joalharia dos lanhosenses faz-lhes o código genético. Aqui e em Gondomar está muito do nascer da filigrana, commumente vista no noroeste português, sobretudo como acompanhante dos trajes tradicionais da mulher vianense e nas suas massivas festas de Agosto à Senhora d'Agonia. Dizia-se um provérbio, até, em que para a missa se devia levar o que se pudesse, e para a festa tudo o que se tivesse. Daí que as meninas de Viana, e em geral do Alto-Minho, quando trajadas para a festa ou para o casamento, usem um museu ao peito. 

Esta relação do Minho com o ouro - o metal sublime, correspondente à última etapa da consumação espiritual - tem camadas de segredos em cima, e entra quase nos domínios da antropologia. Uma delas, mais óbvia, mas não menos interessante, é a da exibição de posses, a da hierarquização, tão enraizada na antiga sociedade minhota. Outra, menos convencional, é todo o valor simbólico que algumas formas lunares e solares dos amuletos de ouro carregam, ora à fertilidade, ora à fidelidade, ora à protecção do mal. Tome-se o exemplo dos brincos de ouro que, acreditava-se, protegiam o orifício do ouvido da entrada de maus olhados. É curioso notar que as correntes feitas neste material têm tradução em significados como a honra, a dignidade, o respeito e a riqueza. Todos eles valores altamente caros ao pensar do homem e da mulher do Minho.

É nestas coisas que o folclore português me põe a dar cambalhotas e a fazer o pino. Querer conhecê-lo bem é ir ao fundo do mar, sem medo, porque o que está à vista dos olhos é só iceberg. E se se derem a esse trabalho, perceberão o mesmo que eu, que acabaram de abrir um livro que é um page-turner sem igual.

 

Alameda de São Dâmaso - Guimarães

Largo do Toural - Guimarães

 

Vim o tempo inteiro do que restava da etapa de hoje a pensar num excelente restaurante que encontrei no centro histórico de Guimarães, no passado Verão. Lembro-me bem das carnes e peixes que lá comi, e dos vinhos que enrolavam o sabor dos pratos. Um dia perfeito também pode ser passado sentado, só a conjugar o verbo beber e comer, desde que haja companhia, nem que seja de um jornal. Estacionei o Dinis, que deu bem nas vistas no meio deste trânsito internacional que Guimarães se tornou este ano, como capital europeia da cultura. Dei com a porta fechada de um restaurante, com uma folha A4 colada à porta de entrada, a mostrar o protesto de dia 19 de Novembro com o aumento do IVA. O a seguir, encostado ao primeiro, idem, em protesto. Continuei. Todos os bares do Largo de Santiago, onde passei depois, fechados. Caminhei até ao que tinha em mente, à espera do pior, com a mesma lânguida esperança de sportinguista, e confirmou-se: fechado. Não pode, pensei, não pode pá, logo hoje, logo num dos únicos sítios em que fazia questão de lhe sentir os talheres. É azar, chegar ao centro cultural que 2012 entregou à cidade berço e levar com isto. Tenho esperança num bom tasco, à antiga, que me salve a noite. Caso contrário tenho esperança numa boa aguardente, velha, que ma faça esquecer.

 

Praça de São Tiago - Guimarães

Largo da Oliveira - Guimarães

 

Gosto muito da cidade de Guimarães. Deverá ser das minhas três favoritas do país. Lisboa e Porto são referências, por muito que sejam uma escolha fácil que qualquer leigo que tenha dado meia volta de três dias a Portugal se lembraria de dizer - é um pouco como apontar os Beatles como banda favorita, mas não há outra forma de fazer a coisa: os Beatles eram mesmo muito bons, e Lisboa e Porto também. O terceiro lugar estaria reservado a Guimarães ou Coimbra. Mas começo a pensar em Guimarães e nas vinhas do verde aqui ao redor, e em como não há nada como um bom vinho verde, gelado até ao limite do termómetro, a encher-me a língua de acidez gaseificada, como se estivessem a fazer fogo de artifício dentro da minha boca. Começo a pensar em Guimarães e nesta emoção irracional que têm com o clube da cidade, o Vitória, que é um caso de estudo, e que para mim deveria dar exemplo a qualquer outra pequena urbe. Começo a pensar em Guimarães e neste poço de bondade arquitectónica que é o seu centro, de casas esbeltas e a dar a volta ao cardápio das cores, e para lá delas o Paço dos Duques, impecável edifício monárquico, e para lá dele o castelo, tão limpo e maquilhado que poderia passar a palácio. Começo a pensar em Guimarães e nesta má vizinhança apaixonada que têm com a sua capital de distrito, arqui-rival de tempos infundados, que leva a que haja pessoas que me segredam ao ouvido que nasceram em Braga e que pedem logo de seguida que eu lhes faça o favor de não contar a ninguém. Começo a pensar em Guimarães e concluo que sim, pois então, é Guimarães. Não há outra igual. Não há outra sequer parecida. Há Guimarães.

 

Centro histórico - Guimarães

Paço dos Duques - Guimarães

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por Ricardo Braz Frade às 19:37

Domingo, 18.11.12

De Vieira do Minho a Vilarinho das Furnas

Rio Gerês - Vila do Gerês

Igreja - Vila do Gerês

Dinis a atravessar ribeiro - Parque Nacional da Peneda Gerês

 

O Gerês serve bem como paradigma do que distingue Trás-os-Montes do Minho. Sendo breve e claro, temos dois rapazes, filhos dos mesmos pais: um que gosta de andar de barba rija, tem músculo de campo e não de ginásio, anda de cabelo desgrenhado, calça o que lhe vem primeiro à mão e que quer despachar o assunto do casamento o mais rápido possível; outro que é loirinho, tem penteado organizado para o lado, um amor adulto à sua terra, veste-se com toque, aprecia o galanteio e gosta da límpida elegância do vinho verde. Ao primeiro, deu-se o nome abrutalhado de Trás-os-Montes. Ao segundo, apelidámos com a inocência reservada e aristocrática de Minho. 

Voltando ao exemplo do Gerês, que está enfiado entre parte de uma e de outra província, reconhecemos-lhe estas duas caras - a virada para o interior, da qual falei por alto ontem, mais fechada e tradicional, e a que aponta binóculos ao Atlântico, bafejada por ares cosmopolitas vindos de Braga, Viana ou Guimarães. Nesta segunda, percorrida hoje pelo parque adentro, vemos vilas de comércio tradicional a aportarem produto junto ao movimento da estrada principal, como acontece na Vila do Gerês, parques de campismo com tecnologia a dar um empurrão às necessidades, áreas definidas por decreto turístico para desportos de aventura e montanha, hotéis e residenciais e casas para aluguer de quartos em quantidades de linhas de montagem. No Minho, o Gerês é mais fácil de se estar, mas se calhar com menos Gerês para dar. 

 

Ribeiros - Parque Nacional da Peneda Gerês

Trilhos da Geira - Parque Nacional da Peneda Gerês

 

Não lhe tiro mérito. Nenhum destes modernismos lhe condena o encanto serrano do norte. Os montes parecem vagas de marés vivas, com espuma de fresco granito, prontas a rebentar e engolir e levar com elas tudo o que há de vida cá por baixo, junto aos vales. Olhamos em volta e sabemos, sem os ver, que haverá corços e lobos e corujas a vigiarem cada passo nosso. Os carvalhos, essa árvore mágica que os antigos amavam mais que a Deus, dão tons que se querem repetir com pincel e tinta numa obra-prima em tela. As casas são da cor do monte e o monte é da cor do céu. O Gerês minhoto continua belo, tanto como o outro.

As vistas tiram-nos as mãos da electricidade. Qualquer ponto da estrada, sacado ao acaso, é um miradouro em potência. É tão verde e tão fecundo que não nos quebra a razão acreditar que de um bloco de argamassa pode nascer um pinheiro-bravo. As chuvas outonais fazem as encostas a pique jorrar lágrimas de água pura. Tornam-se cascatas quando perdem o suporte da pedra nos desfiladeiros, e caem em lagoas mais geladas que o gelo. Há rios e riachos e ribeiros a fazerem um barulhinho que podia entrar numa melodia celta.

Faz-me pensar por que raio nos vendem o céu depois da morte, se tudo o que é feérico esconderam aqui.

Ter este magnífico esplendor à nossa frente, como acontece quando vamos à antiga aldeia de Vilarinho das Furnas, é ver a Terra a dar um milagre a Deus. 

 

Vista para o Parque - Barragem de Vilarinho das Furnas

Fronteira com a Galiza - Portela do Homem

 

E a propósito de Vilarinho das Furnas. Repararam com certeza no título. Vilarinho das Furnas não é exactamente onde hoje durmo porque Vilarinho das Furnas já não existe. Mas estava aqui perto, e dei-lhe o nome como homenagem a essa aldeia submersa, à qual nunca cheguei a apertar a mão, mas que prova como uma coisa que nunca vi se pode tornar inesquecível. Era um dos outros pólos de vida comunitária portuguesa. Esta dinâmica colectiva de organizar o trabalho deve remontar a alturas em que os romanos ainda nem sonhavam sair de Roma, à ibéria tribal, talvez anterior à própria invasão celta da península. É giro ver que depois da Reconquista, em plena época medieval, muitas povoações retornaram à organização social comunitária, o que parece indicar a existência de uma imortal semente regeneradora que, regada, pode germinar a qualquer hora, independente dos sinais dos tempos. Vilarinho das Furnas funcionava assim, num compadrio da labora, em que se lavrava para o todo. Caso uma cabeça de gado morresse do infortúnio, os aldeões chegavam-se à frente, pagando cada um a sua parte da carne ao pastor, e comiam-na em conjunto. Organizavam-se segundo uma Junta, onde participavam os Vizinhos, os Seis e o Zelador. Os Vizinhos, de quem faziam parte os chefes de família da aldeia - homens, quase sempre, e mulheres, quando os homens estavam mortos ou emigrados -, elegiam o Zelador por um período não superior a seis meses. Escolhiam ainda os Seis, outros representantes que aprovavam determinadas soluções apresentadas pelo Zelador. Às Quintas-Feiras, pelo toque grave de um búzio ou de um corno, o Zelador despertava a aldeia e anunciava a reunião da Junta, onde todos deveriam garantir presença, sob pena de sanções aplicadas pelos Seis e pelo Zelador. Neste dia, tratavam-se dos assuntos da terra, ouviam-se os aldeões, discutiam-se conclusões, enumeravam-se queixas, desfaziam-se inimizades, acabavam-se confusões, aplicavam-se castigos. Calendarizavam os acertos de caminhos, a construção de muros, o arranjo de telhados. Os vizinhos falavam, o Zelador propunha, os Seis votavam. O molde era este. Diz-se que eram congressos de acesa zaragata, no limite da agressão, que no final nunca chegava a acontecer. Quem passasse o limite do aceitável era punido severamente, desde que os Seis votassem a esse favor, ou sendo expulso de Vizinho, ou ficando de fora do trabalho comunitário deixando de ter proveito deste, ou excluindo o gado do infractor de pastar nos terrenos do burgo. O castigo da comunidade era deixar um homem entregue a si próprio. Acontecia, por vezes, o rebelde ter de abandonar a gente que o viu crescer e procurar abrigo noutro lado, num caminho da vergonha que nenhuma prisão de hoje consegue replicar.

Em 1968, a evolução destruiu a aldeia de Vilarinho das Furnas. Converteu-a em lago. Uma enorme onda de lucro tapou-a com água. É agora uma barragem, de cimento imperial. Apagaram-na com o desprazer de quem usa uma borracha. Calaram o seu povo com uma saqueta de indemnizações que seriam ofensivas até para um mendigo. Talvez acreditassem que o progresso deveria acabar com Vilarinho das Furnas porque Vilarinho das Furnas já não era progresso. Esta marcha para o tempo moderno tem qualquer coisa de rebanho de ovelhas guiadas por pastor cego. O nome ficou, agora dado à gigante parede que a derrotou, a Barragem de Vilarinho das Furnas. Há ironias do caraças.

 

Porta de casa - Assento

Cascata de Leonte - Parque Nacional da Peneda Gerês

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por Ricardo Braz Frade às 22:32

Sábado, 17.11.12

De Montalegre a Vieira do Minho

Saudações - Parque Nacional da Peneda Gerês

Gado - Sirvozelo

 

Ontem não falei tudo o que quis sobre este Montalegre. Mesmo com o que vou dizer hoje, continuo sem falar tudo o que queria sobre este Montalegre. Há uma pequena tradição na vila que tem reunido adeptos e ganho viço com os anos. Está ligada à horrífica Sexta-Feira 13, no seu lado supersticioso, associado ao azar, e no seu lado lendário, referente a maus olhados e bruxarias tão em voga no concelho. É comum, pelo menos na cultura ocidental, referirmos a coincidência do 13 e da Sexta-Feira como uma data maldita. Há quem diga que esta crença tem barbas de velhice, e que vem desde o tempo em que antigas feiticeiras foram descriminadas como bruxas no início do cristianismo e que se passaram a encontrar às Sextas para preparar vinganças no destino dos que as condenaram. Montalegre crê que é na ponte de Misarela que esta reunião acontece, e trata esta data como se de um Halloween se tratasse. No centro histórico perguntei se ainda haveria este ano alguma Sexta-Feira 13 que pudesse vir cá fotografar:

- Este ano não. Só para o ano e é em Setembro e Dezembro. Até lá, nada. Tivemos uma em Junho.

E continuou. Falou-me do que se conta por aí, de que a sétima filha de um casal é sempre bruxa, e que se sair rapaz então é lobisomem. Disse-me ainda como, nessas Sextas em que o 13 nos mete medo, se afogam os maus espíritos com a queimada galega, uma bebida típica da Galiza que se instalou também no norte de Portugal, feita à base de aguardente e na qual se podem juntar casca de limão e maçã, grãos de café, açúcar, e enfim, o que o seu inventor quiser para lhe apurar o gosto. A queimada, contudo, não se faz só do verbo beber. Obedece a um ritual que envolve mais do que isso. Depois de a atearmos e a vermos arder mais alta que fogueiras, mas antes da tentação de a mandarmos goela abaixo, é solto um esconjuro que afasta os maus prenúncios e a bruxaria. Quando a sentimos chegar ao estômago, o líquido deverá purificar o corpo e proteger-nos de qualquer mal que nos possa vir a cumprimentar.

Montalegre é este eterno argumento de filme de terror de série b, e com isto faço-lhe um enorme elogio. A vida não é só razão e estando aqui percebemos - e queremos - esta vivência de celestial fantasia pagã.

Quando acordei, durante a manhã, pensei na tal ponte de Misarela que me tinham falado, um altar místico onde os montalegrinos crêem que as bruxas se juntam a conspirar. Não sei como, mas hei-de lá ir hoje. E sentei-me no Dinis.

 

Vista da aldeia - Sirvozelo

Rua e espigueiro - Sirvozelo

 

Até à ponte de Misarela passamos pelo esplendor do lado leste do Gerês, o que ainda tem transmontano no nome. O Gerês é uma explosão de beleza que Trás-os-Montes e Minho pariram da terra, em comunhão, de mãos dadas e olhos postos na Galiza. Não há centímetro que não mereça ser apreciado. Deverei aqui passear amanhã, novamente, e guardarei parágrafos para essa altura. Neste momento vou voltar a umas palavras ali de trás. Às da ponte de Misarela, que é tão bela. Daí se recita mais uma lenda. Era o Diabo que controlava aquela passagem sobre o rio Rabagão e apenas dava a ponte a quem lhe vendesse a alma em troca. Isto durou até ao dia em que um padre a exorcizou com água benta, e daí se cristalizou, tendo o Diabo feito malas e desaparecido. Faz sentido que, existindo esta tradição oral em relação à ponte, os locais de Montalegre a vejam como um assento de bruxaria. Aparte disso, não será o imaginário que o povo faz dela que lhe tira a formosura. À medida que descemos um trilho pedestre íngreme, apoiados a qualquer rocha segura que haja à boca da mão para não sermos enganados no musgo escorregadio, sentimo-la a engrandecer. E quando vem aos nossos pés, e estamos sós, nós e ela, dá vontade de a aplaudir. Faz-se numa peça de perfeito encaixe, de estética meio gótica, a arquear sobre um ordem de pedra e água. Damos-lhe cinco minutos de atenção e sentimos um comprimido calmante a fazer efeito. E é deixar adormecer.

 

Capela de Santa Luzia - Cela

Ponte de Misarela - Misarela

 

Deu-me a despedida que precisava, Misarela. Não tarda, daqui a poucos metros, acaba o concelho de Montalegre e acabam as terras transmontanas. Viro-me para trás e lá está ele bem maior do que aquilo que vejo. Aqui vai uma vénia, Trás-os-Montes, e um profundo profundíssimo obrigado. Tens um tamanho que não cabe no mundo.

Deixei-me inundar destas chuvas, destes saberes e destas gentes. Saio daqui a achar-me um deles. Nascido transmontano. 

Venha o Minho.

 

Rio Cabril - Cabril

Na estrada - Parque Nacional da Peneda Gerês

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por Ricardo Braz Frade às 20:55

Sexta-feira, 16.11.12

De Chaves a Montalegre

Eu e um bosque de carvalhos - Meixide

Dinis escondido na fonte - Vilar de Perdizes

 

Sair do Concelho de Chaves para entrar no de Montalegre é mudar de religião. Estamos, a partir de Meixide, fechados nas frondosas florestas de carvalhos das terras barrosãs, nesta atmosfera de antigos Deuses pagãos. É este o chão que se eleva antes da Galiza, no Gerês, a noroeste, e no Larouco, a norte. Neste solo vem o acarinhado Padro Fontes, estranhamente católico, apadrinhar algumas das festividades cíclicas anuais que são aqui celebradas como em nenhum outro ponto do país.

A começar por Vilar de Perdizes, hoje famosa pela organização das reuniões de medicina popular, que alguma malta gosta de insultar como herege ou pagã ou bruxaria, e que o povo transmontano responde como sempre tem feito: desde que não me chateies podes dizer o que bem entenderes. A medicina popular que Vilar de Perdizes homenageia em congresso não é mais do que uma exposição de saberes antigos e tradicionais em torno de ervas e chás e licores e infusões que, segundo a herança do boca a boca e a transmissão de conhecimentos entre gerações, nos limpam o corpo e a alma de maleitas. Há, claro, uma razão para ser Trás-os-Montes o sítio onde estes puritanismos se mantiveram parte do quotidiano. O difícil acesso a sistemas de medicina mais avançados, fez com que as aldeias barrosãs procurassem solução em si próprias e em fusões de ervas que elas conseguissem fazer. Em casos mais graves, procurava-se ajuda em padres locais que as orientassem - e convém dizer que eram eles que detinham parte do conhecimento médico na idade média -, ou em bruxas que lhes fabricassem um comezinho em jeito de poção mágica que lhes atenuasse as dores. 

Querer acabar com o congresso de medicina popular não é querer acabar com a feitiçaria, mas sim com uma parte, se calhar a mais importante, do folclore do Barroso. Que se defenda o progresso é uma coisa, e eu estou nesse barco. Mas nunca ouvi dizer que ele só existe se anularmos a exibição de ideias antigas, estejam ou não desactualizadas. 

 

Escadaria de musgo - Vilar de Perdizes

Cruzes a formar uma cruz - Vilar de Perdizes

 

Ainda em Vilar de Perdizes, é favor não passar pela Igreja Matriz de socapa. Deve ser vista a sério. Está ali uma adivinha em pedra para a qual não tenho resposta. Olhei-a de frente e senti o susto da incompreensão. Junto à portada, por cima, há uma pequena escultura que inicialmente me pareceu figurar um índio. Andei às voltas à procura de alguém que me tivesse qualquer coisa para me contar sobre tal objecto, sem sucesso. Estive ainda durante o final da tarde à procura de documentação sobre o monumento, mas nada mais do que datas de construção e afins. Descobri, por fim, com a ajuda da avó internet, que Vilar de Perdizes tem o nome alternativo de São Miguel. Poderá então ser uma representação do arcanjo Miguel, ou de São Miguel se preferirem, a liderar o seu exército contra Satanás na guerra do Apocalipse. Faz sentido porque olhando com atenção vemo-lo armado de escudo e espada, e por baixo dele deita-se derrotada uma criatura meio disforme, animalesca, que poderá facilmente ser tida como o Diabo. Se olharmos para o quadro de Guido Reni e de seguida para a pequena estátua ali picada, percebemos a ligação. O que me continua a fazer espécie são  aquelas três barras que tem acima da cabeça. Parecem mesmo penas. Parece mesmo um índio. E não sei por quê, nem para quê.

Fora de misticismos está o episódio caricato do relógio da igreja, que deu uma notícia ao país aqui há uns anos atrás, quando paroquianos quiseram calar definitivamente o bater das horas durante a noite - soava de quinze em quinze minutos -, e boa parte do povo se opôs, porque certos homens e mulheres ainda se guiavam pelos seus toques na sua vida diária e nocturna. 

 

Escultura de São Miguel - Vilar de Perdizes

São Miguel - Quadro de Guido Reni

 

E em estradas que são beldades chuvosas, sempre em direcção a poente, com o Minho a chegar quase ao tacto, paramos em Montalegre. Onde o toiro não é tido como um simples mamífero mas como uma encarnação divina, símbolo superior da fertilidade. Esta posição endeusada do boi nem sequer é exclusiva à península ibérica. É conhecida a imagem da deusa Europa sentada num touro branco, que não é mais do que Zeus transformado em animal. Isto é, na mitologia grega, o próprio Zeus, pai dos Deuses, assumiu a forma de um toiro. Somos levados a entender que o continente europeu já há muito que vê o boi de uma forma diferente. Mas é nesta plataforma ocidental, na jangada de pedra de Saramago, que ele se eleva a expoente.

Já falei dele, na altura em que apanhei a achega de Tó. Esta crença do touro como símbolo maior, pagão, que remonta a acreditares pré-cristãos, não é endémica aqui de Trás-os-Montes - podemos apanhar resquícios dela em qualquer ponto do país, das achegas nortenhas, às largadas alentejanas, às touradas a cavalo e às pegas de forcados tão apreciadas nas lezírias ribatejanas, ao forcão característico das capeias raianas de Ribacôa na Beira-Alta, ou à tourada de corda de além-mar vivida nas gentes açorianas. É inegável que o homem português, e generalizando, ibérico, tem uma relação com o touro que ultrapassa a admiração. Algures entre a polémica e a tradição, encontra-se um fervor em relação ao touro que é um misto de mistério e de fascínio e de respeito, e é esse ponto de equilíbrio que pode ser achado em Montalegre, se cá chegarmos sem um pré conceito que nos apague a emoção. São aqui organizadas feiras de gado que premeiam a superioridade de um animal a outro. Existe um inabalável crer de que os terrenos lavrados com a ajuda de touros são mais férteis. O forno com que se faz o pão é nestas aldeias tapado com excrementos de boi, noutro sinal de fé e de boa fortuna deixado a este animal. E por fim as achegas, provas de força em eiras a descoberto, em que cada aldeia leva o seu boi, chamado precisamente boi do povo, depositando nele a esperança de vitória na competição.

Ouçam Torga, nesta reza que fez ao boi transmontano, e que apetece repetir com um terço à mão: "Atrai-me esta amplidão pagã, sinto-me bem a pisar um chão em que o deus vivo de ricos e pobres, de alfabetos e analfabetos, é o toiro do povo. Um deus de cornos e testículos, que, depois de cada chega e de cada vitória, a gratidão dos fiéis cobre de palmas, de flores, de cordões de oiro e de ternura. Um deus que a devoção adora sem pedir outros milagres que não sejam os de força e da fecundidade, provados à vista da infância, da juventude e da velhice. Um deus a quem se dão gemadas e cervejas para que possa inundar as vacas de sémen, as moças de esperança, os moços de certeza e a senilidade de gratas recordações. Um deus eternamente viril, num paraíso sem pecado original."

Apetece dizer isto com um terço na mão. Amén.

 

Castelo - Montalegre

Quadro da Europa sentada num touro no Museu do Barroso - Montalegre

Dentro de um carvalho - Montalegre

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por Ricardo Braz Frade às 21:59


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