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Qual crise?

Estas são conversas de um país que, estando em crise, vive apesar dela. Neste espaço fala-se de um Portugal que ainda consegue ser belo, de um GoCar feito playboy e de uma viagem que sempre quis fazer.



Sábado, 10.11.12

De Freixo de Espada à Cinta a Mogadouro

Vista do Planalto - Lagoaça

Igreja Matriz - Mogadouro

 

- Aqui está bom, dá para estarmos só assim, de camisa. Lá para cima no planalto é que é pior.

Falava do tempo, um dos rapazes com quem conversei ontem, ao final da noite. Confirmei-lhe as palavras assim que saí, pela manhã, de Freixo de Espada à Cinta e galguei as subidas, sinuosas, até ao encanto eterno do planalto mirandês. Estou na parte sul, ainda antes de começarem as terras da língua mirandesa. A leste desse monte secular que é a Serra do Marão.

É um chavão que repeti muitas vezes pela vida fora, o tal que verseja que para lá do marão, mandam os que lá estão. Como qualquer cliché, é repetido até à exaustão, mas não fica menos verdade por causa disso. Acho-o uma expressão maravilhosa, uma ode ao feitio torcido e autónomo do transmontano. Resume a idiossincrasia desta gente, numa tradução leiga que pode ser a seguinte: ó tu que vens de fora, eu não te conheço e não preciso que me ensines a tomar conta de mim próprio. Trata-se de uma filosofia que lhes vem como um sinal de nascença, uma tatuagem que não sai. Uma espécie de condição não pensada mas colectivamente sentida. O homem de Trás-os-Montes tem de ser aceite nestes termos, porque se ele cede nisso então deixa de ser transmontano. A parte boa, é que se o fizermos, se lhe dermos com essa humildade, e eles merecem-na, vão ver que ele traz um exército de candura a sair-lhe do coração. 

 

Junto à Rua do Castelo - Mogadouro

Interior de Adega - Mogadouro

 

Estou em casa de uma família de um amigo daqui, a quem estou muito grato. Há uma coisa que se leva a mal numa casa mirandesa: que um tipo convidado não se sinta à vontade. Isso, parece-me, é dos poucos comportamentos a que se torce o nariz. Já trago presunto de porco de Sendim no bucho, com pão caseiro e azeitonas a acompanhar. E um óptimo vinho que sabia mesmo a uva. Isto não é redundância. Um vinho saber mesmo a uva tem de ser falado e gabado. Hoje ouço falar de vinhos com sabor a chocolate e a espargos e a frutos do bosque e a frutos exóticos e ao raio a quatro. No meio de tanto aroma, a uva entra num labirinto do paladar que me é difícil topá-la na língua. Este, repito, era vinho com todas as letras: sabia ao que tem mais de saber, a uva.

Entre castanhas e licores, falei muito sobre Mogadouro. Do castelo. Da judiaria e de uma cruz inquisitória numa pedra a indicar o preconceito: a casa de critãos-novos, os que se converteram à lei da bala. E da família dos Távoras, presente em moradias nobres da zona antiga. E do Convento de São Francisco. E da Capela de Santa Ana onde se fazem festas anuais de entrada exclusiva a solteiros. E de aldeias abandonadas ou quase, como Santo André, aqui ao lado. E das máscaras, símbolos de paganismos arcaicos que falarei mais tarde. E do Trindade Coelho, escritor mogadourense, que tem uma fraga na ponta da vila, que lhe aviva a memória e se diz ter sido por si usada como cadeira onde se sentava à caça de inspiração. E de recolhas musicais, divididas entre Mogadouro e Miranda do Douro, que competem entre si, num salutar campeonato do cancioneiro mirandês. E da língua mirandesa, que aqui, como disse, ainda não invade o léxico, mas um pouco mais adiante, em direcção à raia, já lhe tomamos o gosto. E do azeite, que é do melhor do mundo, talvez empatado com o da Grécia. E do , uma interjeição muito própria dos falares de Mogadouro, que pode servir como exclamação, como interrogação, como adjectivo, como vírgula e como ponto.

 

Castelo - Mogadouro

Eu, o Víctor e o Dinis - Mogadouro

Castanhas de São Martinho - Mogadouro

 

E dos gaiteiros. O Victor, que tão bem me recebeu, e que também toca, disse-me que antes, aqui no planalto, havia dois ou três gaiteiros, já velhos. 

- Agora - continuou ele -, um tipo dá um pontapé numa pedra e sai de lá um. Há gaiteiros em todo o lado.

- Melhor assim - disse eu -, melhor a mais que a menos.

É bom ver que há novo fulgor na música tradicional, e não falo só do nordeste português. Há cerca de vinte anos começaram a aparecer bandas de novas gerações que têm molhado de criatividade a contínua secura da tradição oral em Portugal. Aqui, a flauta de tamborileiro tem crescido e ganho uma vida que parecia em sentido único para a morte. A gaita-de-fole mirandesa resplandece novamente nos vilarejos, com as suas alvoradas e os seus redondos, tocadas nessa estridente e desafinada força da natureza. Sabe bem ver que as eiras voltam a ser palco de baile e folia a rodos, que também é para isso que a terra serve.

- No Verão, as gaitadas aparecem dia-sim-dia-sim - voltou o Víctor.

Óptimo. Só é pena que no Inverno ela fique a repousar. Amanhã é dia de festa. É o magusto. E vou correr mato à procura de uma gaitada que me mexa os membros sem que eu me aperceba.

Pus a tagarelice em dia no que toca a música. Ainda deu para conhecer uma banda que me transbordou as medidas: os Curinga. Já que estamos em sede própria, vou deixar a versão que fizeram dessa canção de guerra que é o Redondo. Mataremos um carneiro e os cornos são para vós. Bô!

 

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por Ricardo Braz Frade às 23:55

Sexta-feira, 09.11.12

De Almeida a Freixo de Espada À Cinta

Igreja Matriz - Figueira de Castelo Rodrigo

 

Adormeci num quartel de bombeiros antigo, sem ninguém, com três andares, torneiras que tremiam até verterem água castanha e portas que rangiam. O Carpenter, se o visse, gravava-lhe um filme de terror. Acabei por dormir bem, num colchão velho mas limpo, isolado a meio de uma sala fria e de paredes e tecto brancos, sem adornos. 

Deixei hoje a Beira-Alta, ou como alguns geeks do que é tradicional lhe chamam, a Beira Transmontana, dada a estreita afinidade que existe do que está para cá e para lá do rio. Há ainda quem trate este pedaço de vida do interior abaixo de Trás-os-Montes como a Beira Doura, ou a Beira Duriense, mais uma vez dando um nó às palavras de duas regiões que se sentam à mesa como mais que família. 

E apesar de tudo, aceitando o inegável elo entre elas, quando se vê a cavidade do Douro no meio das serras, profunda, cercada por penedos que rasgam limites e bloqueiam acessos, e se percebe o obstáculo que noutros tempos deve ter sido ultrapassá-la, compreende-se porque foi vista, desde sempre, como uma fronteira, ora tribal, ora cultural, ora política. Ainda hoje, quando o povo fala do que está acima ou abaixo deste rio, nota-se por baixo do tom das frases um certo bairrismo. 

Não que, quando fazemos um caminho semelhante ao que fiz hoje e deixamos as beiras para entrar no que é oficialmente considerado o norte, se descubra uma mudança de roupa. Não há nada radicalmente oposto. Talvez a pronunciação das letras, o dito sotaque nortenho, seja o mais evidente, mas não é abrupto. A Beira-Alta já tem, em vários casos, vícios da pronúncia do norte. Mas nem que seja psicológico, quando se transpõe o rio de ouro, pensa-se que agora sim, é a sério, estou no norte.

 

Antes do Douro - Parque Natural do Douro Internacional

Socalcos - Parque Natural do Douro Internacional

 

E o norte interior tem o gráfico nome de Trás-os-Montes. O Tejo, como está mais que visto, dá-nos uma ideia de transposição, de ir para lá de um caudal, de ir além de um rio, além do Tejo, além-tejo. Trás-os-Montes joga-se da mesma maneira. Há uma ideia de excesso, de ultrapassagem, para depois dos montes, para detrás dos montes, para trás-dos-montes. As terras transmontanas têm uma consciência espiritual única. Por nascerem naturalmente recolhidas do resto do país, muitas vezes indiferentes a este, aqui se conservaram tradições que se as chamarmos de ancestrais poderemos incorrer no erro de lhes estar a dar modernidade a mais. Vou deixar esses pormenores para outro texto, talvez o de amanhã. Mas faço questão de sublinhar isto: Trás-os-Montes mantém-se o reservatório do Portugal dos mistérios, do Portugal que não se lê em manuais da escola, ou teses académicas, ou sequer em testemunhos da Torre do Tombo. Nisso, ele continua incomparável, imbatível, recordista absoluto há anos a fio. Se me perguntarem qual a antiga província portuguesa que mais gosto, nem tenho de pensar. A resposta tem fracções de segundo. É esta, a que piso neste momento. Trás-os-Montes não é para visitar. Ou se vem disposto a destapar-lhe pedras secretas ou o melhor é encontrar um destino internacional qualquer que não dê que pensar.

 

Rio Douro - Barca D'Alva

Igreja Matriz - Escalhão

 

Freixo de Espada à Cinta está atafulhado com tradições que nos trocam as voltas. 

A começar num freixo, que existe de verdade, junto à Igreja Matriz, prezado pelos freixienses, que conta lendas de vários séculos mas quase sempre com o mesmo fim: uma espada acaba à cinta da árvore, dando o nome à terra. 

A altura da Páscoa, que, tal como o Carnaval, se trata de um período que comemora o abandono da aspereza invernal, só depois cristianizada pela data da morte de Cristo, é aqui vivida de forma pagã. O Rebentar do Judas é bom exemplo, num ritual onde se pendura um boneco feito de palha num tronco, colocando explosivos no seu interior, deixando que rebente quando a procissão o passa. O Judas é, originalmente, a representação da estação da morte, do inverno, que aqui é destruído e feito em pedaços, simbolizando assim a chegada da primavera, o abrir da natureza. Em muitos outros sítios se faz alusão ao Judas como uma actualização de actos pagãos - por vezes são chamados Queima do Judas -, um acrescento da igreja que ao ver que não conseguia pôr fim a determinados rituais de cariz pagão resolveu adoptá-los como seus e enviar mensagens através deles. A este respeito, a vila organiza ainda o Enterro do Entrudo, umas semanas antes, mais ou menos com a mesma finalidade subjacente. Mas de entrudos falarei depois.

Ainda na Páscoa é celebrada a procissão dos Sete Passos. Faz-se nas sete Sextas que há entre o Casnaval e a Páscoa. Dizem que vem de tempos medievais mas vou discordar e dizer que vem bem mais de trás. É feita totalmente às escuras, ou apenas com a luz da lua, se ela existir, e a partir da meia-noite. Não é de estranhar o número sete, o da ligação entro o humano e o divino, muitas vezes tido como a perfeição.

E reafirmando a importância da Páscoa novamente, acontece aqui um curioso e solene cortejo religioso que vai da Igreja da Misericórdia à Igreja Matriz. O que é estranho é que entre o ponto de partida e o ponto de chegada contam-se pouco mais de uma centena de passos e, contudo, o caminho leva cerca de duas horas a ser feito.

Há mais para contar, mas não quero estragar surpresas. Trás-os-Montes, como disse, não é chegar e ir embora. Até porque se o escutarmos, e não falo de audição, jamais queremos sair daqui.

 

Convento de São Filipe Néri - Freixo de Espada à Cinta

Padaria - Freixo de Espada à Cinta

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por Ricardo Braz Frade às 17:32

Quinta-feira, 08.11.12

Da Guarda a Almeida

Junto ao adro - Pínzio

Com o Dinis - Arrifana

 

Já percebi que não consigo sair à noite. Não há timing. O corpo cansa-se mais rápido do que a noite e pelas onze começo a pensar em lençóis e almofadas. Andei por bares da Rua Dom Dinis, duas paralelas abaixo da Sé. A ideia era ver o jogo numa taverna e depois ir beber um copo a qualquer lado. A chuva era tanta que não saí dali. A Guarda não morre quando fica escura. O politécnico dá-lhe gente nova que espicaça as ruelas que circundam, de dentro para fora, o largo da Sé. Mas ali, naquela taverna com um par de metros quadrados, era só eu e o dono. Ele pôs a rodar um álbum qualquer dos Dire Straits ao vivo, para puxar ainda mais à solidão. Pedi-lhe um papel e uma caneta e comecei a escrever. Ainda lhe disse que se ele queria meter o ambiente ainda mais em baixo podia escolher um Tom Waits, que é melhor e sempre não tenta disfarçar a amargura. Ele não ligou. Pela cara pareceu-me não conhecer, o que é de lamentar, porque as vezes em que sinto que escrevo bem é quando ouço Tom Waits. Acho que o texto se esticou tanto como o tal disco-concerto que saía das colunas. Não sei por que raio, mas a seguir aos Dire Straits o homem resolveu puxar de uma obra dos Scorpions com uma orquestra qualquer e foi aí, quando chegou o refrão do "You & I", que percebi a caricatura de toda a situação e decidi sair. Deixar um bar ao som de Scorpions é muito kitsch. Ainda bem que a água caía que nem cascata lá fora e ninguém me viu. 

Queria parar por algumas aldeias e vilas, hoje, e se calhar foi melhor assim. 

 

Cruzeiro - Rio Côa

Ponte Grande - Rio Côa

 

Por aqui a televisão é dividida entre canais nacionais e espanhóis. Apanhei, no barbeiro, dois homens a discutir onde era melhor ver a meteorologia. Um dizia guiar-se pelos telejornais de cá, e alinha-se sempre pelo tempo da Guarda. O outro atirava que isso é um disparate, que o ideal é ouvir o que Espanha prevê para Cáceres porque a Guarda é muito lá em cima do monte.

- Nem sequer é Salamanca, é Cáceres. Salamanca falha muita vez. 

Os cafés só nos servem quando uma novela qualquer pára para intervalo. Um tipo bem tenta fazer mímica de quem está à espera. As mulheres olham, percebem, e não dão troco.

- Queria uma tosta de presunto e queijo - insisto eu.

- Já lha faço - e torna a virar-se para o ecrã. 

São terras diferentes. A Arrifana, que me fez o corte à gadelha - e ainda sinto os meus cabelos salpicados com os do homem que foi à tesoura antes de mim -, enfia-se logo depois da Gare da Guarda, e já tem o desvio rústico e independente de aldeola. Granja e Gonçalo Bocas lembraram-me Monsanto no aproveitar da pedra bruta para desenrascar paredes e telhados de casas. E Pínzio, com casas de uma velhice terna e bucólica. Tudo antes de Almeida.

 

Baluarte de Santo António - Almeida

Entrada pelo Revelim da Cruz - Almeida

 

Os árabes chamavam-lhe A Mesa, Al-Mêda, presumo que pela natural plataforma que lhe oferece uma vantajosa vista sobre o que gira à sua volta. Qualquer planalto faz as delícias da estratégia militar e de quem procura uma torre de vigia. Sejamos claros, Almeida existe porque os conflitos existem. É uma parada militar, uma máquina de guerra, um circuito fortificado segundo as melhores engenharias de defesa do século XVII. Já era um fortificado antes, mas foi depois dos três Filipes de Espanha, os tais que cá governaram durante sessenta anos, que se sentiu necessidade de o engordar em muralha e actualizá-lo em design. Foram buscar os esboços de Antoine DeVille, onde as paredes defensivas têm, vistas de cima, uma forma estrelar. Imagine-se um hexágono em que cada vértice anexa uma espécie de losango. E agora volte-se a imaginar que cada aresta da planta é seguida por um triângulo que sai para fora. Aos primeiros chamam-se baluartes, aos segundos revelins. Daí haver normalmente duas portas de entrada no forte: uma nos ditos triângulos exteriores, outra nas tais arestas do hexágono interior. Eu sei que em palavras não deve ser fácil pensá-lo mas vou complicar. Do lado de fora, seguindo o perímetro dos revelins, escava-se um fosso, que servia como protecção e como depósito de drenagens. Mais: para cada ângulo dos baluartes, junta-se uma guarita. É uma forma complexa mas aparentemente eficaz de acordo com os cânones da arquitectura bélica da altura.

Serviu para a guerra dos sete anos, contra Espanha, e para as invasões napoleónicas, contra França. Na primeira, foi tomada pelo país do lado, e recuperada mais tarde. Na segunda, foi parcialmente destruída, do lado de dentro, com a explosão de um dos revelins, o do Paiol.

Já não há infantaria, nem cavalaria, nem nada que meta espingarda e chumbo. Almeida é um quartel de coisa nenhuma e hoje guarda apenas a casa de poucas pessoas, prováveis descendentes dos resistentes de outros anos.

Parece tão só que apurou o sarcasmo de quem se deixou de importar. Lêem-se por cima dos portões de ferro do cemitério, junto à Torre do Relógio, versos dos mortos: ó tu quem quer que és, repara como eu estou, eu já fui como tu és, e tu serás como eu sou. Simpático.

 

Fechada de casa - Almeida

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por Ricardo Braz Frade às 20:46

Quarta-feira, 07.11.12

De Celorico da Beira à Guarda

Até à Guarda - Chãos

 

Uma boa forma de distinguir as terras do sul das terras do norte é o tempo de demora que vai desde que deixamos uma vila e encontramos outra. Abaixo do Tejo, e ainda mais abaixo do Sado, podemos estar quarenta quilómetros sem encontrar vivalma. São os latifúndios que tomam conta da paisagem. Um conjunto de planos que podiam ter sido gamados a uma produtora de filmes western de Los Angeles. Por vezes, e eu bem o senti no moinho que me alimenta a criatividade, o difícil é arranjar sobre o que escrever. Quando o GPS se aproxima da Galiza - para que conste, eu não uso GPS, é só uma forma de relatar a coisa -, as aldeias encostam-se, ou confundem-se em certos casos, e de uma paragem a outra vão cinco minutos. O norte é apertado, em montanhas acanhadas e casarios que se encaixam como podem. O sul é amplo e disperso, um largo tabuleiro sem pressa de impedir o que quer que seja. 

De Celorico até à Guarda é começar pelos dedos de uma mão e acabar com os da outra: Ratoeira, Lajeosa, Porto da Carne, Cavadoude, Ramalhosa, Faia vê-se ao longe abrigada num monte, Pêro Soares, Chãos, Prado, Cubo. Num espaço de vinte e sete quilómetros, a Beira-Alta deu-me mais terras do que eu tive entre Almodôvar e Portalegre.

 

Igreja da Misericórdia - Guarda

Sé - Guarda

 

A Guarda a partir de Outubro é um frigorífico que pode, dependendo dos desígnios dos céus, virar congelador. Estavam zero graus na zona velha, e a temperatura que sentimos a bater na pele, que é a que realmente conta, ia aos quatro negativos. Até a chuva vinha gelada, e voava em vez de cair, já entre o aguaceiro e o nevãozinho. O nevoeiro era tão espesso que no adro nem dei pela Sé, que é gigante, enorme, ocupa-lhe o espaço todo. A Torre de Menagem vai acima dos mil metros e só a fisgamos se nos dermos ao trabalho de desfazer umas dezenas de nuvens até lá. Mas ainda bem. Na Guarda, assim como está, ainda bem

A Guarda anda ao revés da natureza. É a partir do Outono que floresce, e no Inverno entra em esplendor, carregada de cinzento até quase virar preto. Ninguém a quer solarenga. Quem olha para a catedral, gótica até à medula, rija de pedra, robusta que nem um castelo, violenta até, a atirar demónios medonhos e corpulentos das paredes para fora, não pode deixar de sentir um arrepio místico a correr-lhe as costas. E se não o sente é porque não sente, realmente. 

Mais escondida do que as habituais gárgulas que saem da parede norte e da parede sul, está uma que lhe é particular: o Cu da Guarda. Está bem coberto, e sobretudo com bruma é difícil dar-se com ele. Tive de perguntar:

- Desculpe, sabe-me dizer onde está esculpido o… - e hesito -, bem, um rabo que funcion…

- O Cu da Guarda?

- Sim, exacto, o Cu da Guarda.

- Venha comigo.

Passei para o outro lado, a sul e apontou-me para umas escadas de ferro que sobem até ao telhado.

- Vê as escadas?

- Vejo, sim.

- Quase no cimo, ali ao canto, não vê?

Vi. Assim que o topamos uma vez não dá para não lhe pôr os olhos em cima sempre que repetimos a passagem.

É um cu, de verdade, ou se preferirem, um rabo, ao léu, que serve os mesmo propósitos das gárgulas convencionais: escoar as águas das chuvas. Mas aqui, em vez de sair pela boca do mostrengo, como acontece quase sempre, sai por um ânus, por um furo feito entre duas nádegas lá esculpidas. O Cu da Guarda tem dois sentidos possíveis. Um é comum a várias teses sobre o fenómeno das gárgulas na europa medieval que visa contrastar o belo religioso que se encontra dentro das igrejas, com o feio e demoníaco que vive cá fora. O outro é a função pedagógica ou, neste caso, provocante, já que o dito cu, ou rabo, está a apontar para Espanha, numa atitude que tem um pouco de desafiante e muito de escárnio. Mais um sinal, a juntar ao que falei em Monsanto, do quanto esta gente raiana gosta de picar o vizinho.

 

Praça Velha - Guarda

Zona velha - Guarda

 

Esta é a semana do caloiro. Capas negras a pairarem como asas de corvo ficam bem no negrume do bairro antigo e da praça velha. No túnel da Torre dos Ferreiros, abrigados de parte da chuva, já vejo estudantes a conversarem sobre onde ir. Junto à Judiaria há mais uns quantos. Procuram cerveja, acho, que lhes aqueça a noite. Alinho no mesmo. Provavelmente vou à aguardente, que me queima o avesso da pele. Já me convidaram para uma festa universitária qualquer. Que calorosos ficam os rapazes da Guarda quando a Guarda os põe a tremer de frio.

 

O Cu da Guarda, ou o que o nevoeiro permite ver dele - Guarda

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por Ricardo Braz Frade às 19:17

Terça-feira, 06.11.12

De Gouveia a Celorico da Beira

Fonte com Viriato à esquerda e Nun'Álvares Pereira à direita - Folgosinho

  

Folgosinho, com Linhares e com Celorico, formam um triângulo de castelos de defesa junto ao vale do rio Mondego, dos poucos grandes rios que é absolutamente português. Serviram recentemente contra Castela e, antes disso, no taco a taco que houve na zona centro contra os Mouros. A lenda da origem do castelo de Folgosinho vem bem mais de trás, dos hoje tidos como Lusitanos e do seu caudilho, o eterno Viriato. Fala-se que nasceu aqui. Os locais não têm dúvidas, foi cá, e ai de quem contrariar. Loriga, sobre a qual já escrevi, também reivindica Viriato como homem da terra, nascido e criado. Do lado espanhol, junto à província de Salamanca, são também muitos os que o querem original de lá. Os grandes caudilhos da história antiga portuguesa, elevados quase sempre a heróis nacionais, armam barafunda entre municípios em relação ao nascimento de cada um. Basta experimentar dizer a um vimaranense que Dom Afonso Henriques pode não ter nascido em Guimarães - e pode, de facto, de acordo com muito bom saber -, que ver mais ou menos como um homem pode ficar perigosamente próximo de um toiro bravo. É preciso um pouco mais do que o que há hoje para ter certezas quanto ao berço real de Viriato. Parece verosímil que as invulgares muralhas que coroam a vila foram montadas sobre dois antigos castros de datas pré-romanas, o que leva a crer que sim, que aqui houve linhas defensivas lusitanas. Daí a acertar-se num poiso de um parto que tem mais de dois mil anos, vai uma certa distância, e a essa distância chama-se mito, que, como já defendi, é essencial ao viver de Portugal.

 

Ruela - Folgosinho

Castelo e Serra da Estrela - Folgosinho

 

Certa também é esta individualidade bélica de Folgosinho. Cinco minutos por cá e já a fisgámos. Os padrões de azulejos ilustram heróis de batalhas. Numa delas está o chefe dos lusitanos, de um lado, e Nuno Álvares Pereira, de outro, ambos num misto de espiritualidade e pose de combate. Os poemas escritos nos monumentos de maior dimensão falam de baluartes impenetráveis e inultrapassáveis. Outros, vão buscar a poesia épica de Camões e dos Lusíadas. Vêem-se fontes que versam água da serra, soldado p'ra guerra. Atenta-se na parede lateral da igreja matriz e há mais palavras a puxar à luta: nós somos da fronteira as sentinelas. Mesmo o brasão, com uma mão direita pintada em ouro no centro do seu escudo, simboliza uma certa austeridade, que pode ser só coincidência mas que se enquadra bem no agressivo carácter da vila. E a lenda que lhe dá o nome, não a posso esquecer, que mete Viriato e Afonso Henriques encadeados nos mesmos parágrafos, fazendo ponte sobre os mais de mil anos que os separam. Por todo o lado Folgosinho faz questão de venerar as vitórias militares. E por todo o lado há lembranças de tempos em que Folgosinho queria andar constantemente à procura de pancadaria. Tudo em bruto, no peso conciso do granito. 

Dali pus-me definitivamente fora da Estrela.

Faltou-me Linhares, aldeia do século XII, para completar o circuito de defesas armadas na encosta norte da serra. Fui directo a Celorico. Linhares ficou-me no canto do olho até desaparecer, para trás, para o monte.

 

Igreja Matriz - Freixo

Dinis em Celorico - Celorico da Beira

 

Celorico da Beira tem ruas e ruelas que dão para falar sem parar. O burgo antigo, na freguesia de Santa Maria, contrasta casas afáveis e medievais com a outra parte da vila, a que cerca o monte acastelado e que mostra um lado citadino que está na dianteira de cidades reputadas que já visitei. As conversas de café estão cá em baixo, e vale a pena ouvi-las. Já dei com um tipo a garantir que tem no quintal uma perdiz com um quilo e meio.

- Não acreditas, vais lá ver a casa que tenho-a lá…

O outro nem respondia. Este é outro cenário comum nos adros e praças centrais. Há os homens que falam e os homens que ouvem. Os que falam tomam conta das horas. Os que ouvem de vez em quando arriscam uma exclamação, baixinha, a sibilar, mas só para valorizar os tais que passam o dia sem cerrar a boca. Celorico tem genica. Não se fica pela exposição de obra antiga para onde, infelizmente, algumas aldeias beirãs se viraram, com uma desertificação da qual, muitas vezes, não têm culpa nenhuma.

Vale a pena referir um caminho pedestre, o de São Gens. Vai até à necrópole, um mausoléu medieval, que dista uns três quilómetros do centro da vila. Só isso basta. Mas ver, a meio caminho, o Mondego a zarpar daqui até Coimbra, dá-lhe a aura que faltava.

 

Castelo - Celorico da Beira

Trilho de São Gens - Celorico da Beira

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por Ricardo Braz Frade às 19:06

Segunda-feira, 05.11.12

De Loriga a Gouveia

Igreja e vale - Valezim

Pequena cascata - Lapa dos Dinheiros

 

Loriga deixa-nos a ver as grandes altitudes pelo retrovisor. Daqui a Seia é distância curta, e praticamente a descer. O coração da Estrela fica à direita. Quando a serra nos dá uma vaga de relevo suficientemente alta, à esquerda consegue-se ver o outro grande monte Beirão, o Caramulo. 

Já tinha lido sobre isto, mas pus a leitura em experiência nestes últimos dias: há um detalhe na Estrela que se revela mais do que isso se aprofundarmos a questão, e que tem a ver com as várias faces da Estrela, dando origem a uma múltipla personalidade que à primeira vista não se revela. A encosta sul vive praticamente de costas para a encosta norte. Enquanto mais abaixo os vilarejos preferem olhar para cidades meridionais, como a Covilhã ou mesmo Castelo Branco, mais acima as aldeolas procuram pé em cidades setentrionais. A monstruosidade da serra e o trabalho que dá atravessá-la de um ponto cardeal ao seu oposto, é a mais provável justificação. Mas nem só de norte-sul vive a ambiguidade da Estrela. Também de leste a oeste damos com ela. O lado ocidental, pelo qual resolvi vir, deixa-me virado para o poente, para a fronteira atlântica, abafada pela gigantesca silhueta da Serra do Caramulo. Do outro lado, a oriente, em direcção a Belmonte, roçamos a outra raia, a Espanhola, ou a Castelhana se forem de especificações. Entre uma e outra há marcadas diferenças, dos trajes, às expressões, às gentes. Mas neste momento, dada a escolha, só poderei falar daqui, de onde estou, de Valezim e da Lapa dos Dinheiros.

 

Miradouro - Lapa dos Dinheiros


 

Casa de Dom Dinis - Lapa dos Dinheiros

 

Os ribeiros vão pautando o asfalto e as curvas dão-lhes umas vírgulas apertadas. Valezim encontra-se sem se procurar. Pareceu-me viver da pastorícia, como tantas outras daqui, muitas delas amortecidas pelo declínio industrial, normalmente associado ao têxtil. Cantam-se mais ovelhas que cabras e contam-se mais cabras que homens. Dão juntos a matéria para aquela pérola gastronómica que qualquer gente de bom gosto se baba ao comer, chamada queijo de Seia. As transumâncias dos pastores passam certamente por aqui, quando a neve do Inverno brinda as terras altas e dificulta a alimentação do gado.

Mais à frente, e aqui sim fui obrigado a um pequeno desvio, vem Lapa dos Dinheiros. Que bons anfitriões tem a vila. Ofereceram-me uma mão cheia de castanhas e um cacho de uvas. Quase à força. 

- Coma menino, coma-as - e se viam que me esquecia delas enquanto procurava indicações, voltavam a lembrar, com mais afinco -, coma as uvas menino, coma as uvas, porra.

A vila ganha nova perspectiva quando lhe ouvimos a lenda que lhe deu nome. Baseia-se em D. Dinis, que cá vinha caçar - há um padrão de azulejos que mostra isso mesmo -, e que numa noite ficou aqui preso por causa de um nevão inesperado. Os aldeões abrigaram-no numa casa que ainda hoje é conhecida como casa da Lapa, ou casa de D. Dinis. O rei foi recebido que nem um rei, com festa grossa e um jantar de bezerro. Sem presunção, fui também hoje aceite como monarca. Fiquei com a ideia que se puxasse por eles davam-me cama, água quente e pequeno-almoço.

No cimo da Lapa e a finalizar um miradouro, para quem tiver pernas, há uma miniatura do Cristo Rei, de braços abertos a envolver a povoação toda, tal e qual como em Lisboa. Parece abençoar a vila. Até agora tem resultado.

 

Capela da Nossa Senhora do Amparo - Lapa dos Dinheiros

Estrada principal - São Romão

 

Depois de São Romão e Seia, encostados ombro a ombro, lavados de urbanismo, uns vinte quilómetros para norte, há Gouveia. É-me complicado falar de Gouveia. Uma costela que o meu Pai me deu é de lá. Visitei raízes, e tantas. Foi preciso vê-las para que as reactivasse na memória. Uma antiga quinta de avós e bisavós meus, de um avô bem lembrado pela terra e de uma avó que me cora quando ouço gouveienses a jurarem que era a mulher mais bonita da Beira. Lembro-me de passar aqui noites, nesta casa, em pretéritos que vão longe e que me recordam das primeiras vezes que toquei na imaculada cor da neve, com quatro ou cinco anos. De um trenó encarnado, com duas alavancas de plástico preto, uma à esquerda e outra à direita, que fincavam a neve e faziam-no virar para o lado contrário àquele em que mexia. Desde aí que o vício se colou ao corpo e um ano mau é um ano sem mirar um nevão. Se ele não vier ter comigo, tento sempre ser eu a ir ter com ele. 

Como qualquer lisboeta que se preze, não tenho passado alfacinha. Metade do meu viveu aqui, neste centro-norte português, que já é norte no sangue. Porque o norte começa abaixo do que o norte realmente começa. Ao contrário do que essa secretária burocrática que é a geografia manda, o norte cheira-se no ar, não se vinca num mapa. A Beira-Alta onde estou é norte. Já se começa a dizer fino em vez de imperial, por isso é-o com todas as letras, venham-me lá com as cartografias que quiserem.

E Gouveia para mim é isto, que é tão à frente do lugar que ela deixou na história. Não consigo falar dela sem ser comigo lá. Lamento.

Acabei a tarde com o senhor que me abriu os portões da quinta, com umas chaves que a minha tia avó lhe deu. Eu a falar-lhe do que não esqueci daqui, ele a dizer-me como tem cuidado, como pode, da casa, a par com o meu tio que cá vive. Vê-la assim, a ganhar o tom da chuva, entristece. Entristece-me. E mesmo assim houve uma acendalha a arder quando voltei a pisar a madeira do corredor que me leva à sala, e a ver a fotografia do casamento dos meus avós, por cima da lareira. Que bonita que ela era, a avó. Faz corar.

 

Recordações - Gouveia

Igreja Matriz - Gouveia

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por Ricardo Braz Frade às 21:49

Domingo, 04.11.12

Do Fundão à Covilhã e da Covilhã a Loriga

Igreja de Santa Maria - Covilhã

Início da Serra - Covilhã

 

Castelo Branco, Fundão e Covilhã. São estas as trigémeas da baixa Beira que se alinham até à encosta sul da Serra da Estrela. Da primeira para a segunda o caminho faz-se conforme a ondulação dos montes. Da segunda para a terceira os relevos dão lugar às rotundas. Do Fundão à Covilhã contei umas boas quinze ou dezasseis, o que resulta na improvável média de nos aparecer quase uma por quilómetro. Depois de tanto contorno e de tanto pisca, ficamos-lhe na base. É que a Covilhã faz-se em elevação. As partes em que ela se divide são andares. De uma para a outra vamos em estrada que mais parece elevador. E lá no sótão está a zona velha, a das igrejas e dos municípios a expelir o seu poder no centro das praças centrais. Convém dizer: a Covilhã, não sendo distrito, tem hoje mais pose disso do que Castelo Branco. É efervescente. À noite, mesmo quando o tempo não ajuda, saltam os estudantes para os bares do bairro antigo. Vêem-se manadas deles, e ainda bem. O interior vive do passado mas precisa do gás da gente nova. Há o motor de tudo isto, que é a universidade, a electrizar ruas cinzentas, em que a cor das paredes é, às vezes, indistinta da bruma que a inunda.

Quando a abandonei, voltei a subir andares. Agora é a Estrela. Piso zero.

 

Dinis e a Torre, nos dois mil metros - Serra da Estrela

Bruma a apanhar o monte - Serra da Estrela 

 

Nevoeiro antes da subida - Serra da Estrela

 

Até ao pico. Até à Torre. Até ao topo desse telhado esférico que dá os palmos que faltam à serra para ir aos dois mil metros. Aos dois quilómetros, só em altitude. A Estrela é tenebrosa. Na minha pequenez, meteu-me medo, estar ali, caído no colo de um monstro rochoso, feito Adamastor saído da terra em bloco de sólido granito. A cada centímetro que subia os dedos gelavam mais. Ia-lhes mandando bafo quente, boca fora. Mais uns centímetros acima e isso já não chegava. Comecei a pôr os dedos na boca, um a um, para os ir aquecendo. Vinham as placas em intervalos de tempo de vinte minutos: altitude 1200, altitude 1400, altitude 1600. A trezentos do fim pus a hipótese de não subir mais. O nevoeiro era cerrado e levava-me a perguntar se conseguiria sequer tirar uma foto que tivesse o mínimo valor visual. Foi a matemática que me fez seguir caminho - voltar para trás seria certamente pior em distância, e mais valia arriscar o frio. Já nos 1800 metros, deixei de tocar no algodão das nuvens que me envolviam. Passei acima delas, sentado no céu, um Deus do mundo a vê-las inferiores a mim, como espumas de onda batida na barra da costa, levadas com um vento que deixou de me picar. Aos 1930 há placa para a esquerda: é ela, a Torre, o fim. Podemos continuar e não lhe dar crédito. Eu virei. E esfriei. E gelei. E cheguei. 

O Dinis, que se saiba e até me mostrarem o contrário, foi o primeiro GoCar a ir tão alto. Em altitude, sim, claro, mas falo de ambição. 

Um abraço aos que disseram que o carro não subia sequer a Rua das Pretas em Lisboa. Isto podia ser um chapada de luva branca mas é antes um sopapo de soqueira preta. Encontramo-nos aí por baixo, e falaremos então de outro desafio que me queiram dar.

 

Rua de Viriato - Loriga


O vale - Loriga

 

Pastor e gado nas transumâncias da Estrela - Loriga

 

O caminho desce pelo lado norte até, entretanto, se poder virar para oeste, em direcção a Loriga. Se antes a preocupação foi o défice de velocidade, agora é o excesso, com o declive das descidas a embalar carros que dependem do motor e não do pedal para travarem em condições. Descer a Estrela depois de a subir é uma longa expiração depois de minutos a inspirar. Parece fácil, o que torna a obra difícil. Voltamos à densidade branca da neblina. Parece um manto de caxemira a cair à nossa frente. Muito de vez em quando vemos uma nesga de luz. Não é uma nesga de sol. É uma nesga de luz, uma claridade amarelada que nos lembra que ele deve andar mais ou menos por ali, mas que não se quer moer mais que isso.

A meio caminho, situada num outeiro, se a bruma nos der uma folga, avista-se Loriga. Vê-se de longe. Parece bonita dali. Atravessam-se ribeiras e quedas de água e fica ainda melhor à chegada. A parte nova é gira. A velha, com o bairro de São Ginês a dar o mote, é obrigatória. Mas magnífica é quando ela vem mais abaixo, ao poço do vale, onde encontramos pastores a gritar palavras de ordem ao gado que encaminham por trilhos de pedra e musgo, uma roda de mosaicos de cores montanhosas, pontes mal dotadas a disporem-se como travessas de correntes fortes e água mais transparente que o ar. Se nos calarmos ouvimos o eco de aboios, ovelhas a chocalhar o passo apressado que tomam, e o namoro das ribeiras com as rochas. Mais nada. O silêncio devia ser isto e não aquela cena inofensiva que é. Daqui vale a pena levantar o pescoço e olhar com tempo. Estamos nos Alpes Suíços. Mas mais baratos. E sem suíços. Só coisas boas.

 

Vista para Loriga, ao fundo - Serra da Estrela

Socalcos - Loriga

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por Ricardo Braz Frade às 21:00

Sábado, 03.11.12

Interlúdio

Calha bem esta pausa, que vem no dia em que faço um mês de viagem, e a um Sábado, que abarca normalmente as horas da semana com menos desejo de leitura.

 

Hoje descanso. Das fotos e dos textos.

 

Amanhã vamos ao segundo mês.

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por Ricardo Braz Frade às 16:56

Sexta-feira, 02.11.12

De Castelo Branco ao Fundão

Vista do Castelo - Castelo Novo

 

Castelo Branco é a urbe onde a Beira-Baixa vem às compras. Matei as saudades de bebidas que não encontro em sítios com menos de duas ou três mil pessoas: whiskies americanos, cervejas alemãs e belgas, marcas de gins que fogem às escolhas óbvias. Foi diferente. Na minha rotina lisboeta, seria uma noite como outras, mas na vida que levo há quase um mês, foi diferente. Fez-me voltar às madrugadas de Lisboa por umas horas, com menos gente e mais frio. Depois de rumar, por dois dias, para sul, hoje voltei a essa escalada do gelo que são as viagens para norte, com sol nas costas e os vales das serras a atirarem vento gélido contra mim.

 

Rua Parque do Alardo - Castelo Novo

Chafariz e Pelourinho - Castelo Novo

 

Até ao Fundão, há duas paragens a fazer. 

Uma em Castelo Novo, aldeia típica encerrada no meio da serra, antiquada e bem tratada, com o paladar dos mistérios Templários a darem espírito à bonita forma que tem. Já foi concelho o que lhe comprova o passado histórico. Deixou de o ser, mas mantém-se conselho, uma recomendação que não será frustrada para quem a vá descobrir com mais do que um par de olhos.

Mais à frente, junto à Serra da Gardunha, vem Alpedrinha, maior que a vizinha, e interessante no percurso que se faz na estrada principal, que a rasga ao meio. Apanhar os miúdos a saírem da escola enquanto estou sentado ao volante do Dinis, como hoje aconteceu por lá, é um impressionante fenómeno de estrela rock, com dezenas de putos a aplaudirem-me e a correrem atrás do carro. Mando-lhes um adeus porque não dá para mais. Não posso parar sempre que querem saber sobre a viagem ou sobre o Dinis. Não faria eu outra coisa.

 

Junto à Serra da Gardunha - Alpedrinha

 

E finalmente o Fundão, a terra das cerejas, que tem a tão bonita Serra da Gardunha a olhar para ele, frutuosa nos vários tons de verde que exibe, dos mais claros aos mais escuros, dos castanheiros aos carvalhos. É cidade, mas não tem o movimento de uma. A vida do Fundão teve, como qualquer vida humana, altos e baixos. Começou a crescer com a comunidade judaica que escapou aos Reis Católicos em Espanha, fluxo muito como comum, como já aqui escrevi, nas zonas da raia mais a norte. Caiu, muito, quando a Inquisição se instalou e as perseguições começaram, retirando-lhe todo o dinamismo comercial. Voltou à carga por alturas da governação Pombalina. Tornou à queda com as invasões Napoleónicas e a guerra civil. Agora parece viver numa espécie de paz acomodada, à espera de um abanão que lhe devolva o arrepique dos sinos. Vive entre dois grandes: Castelo Branco, em baixo, e a Covilhã, em cima. É um irmão do meio que saiu com baixa estatura.

 

Igreja da Misericórdia - Fundão

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por Ricardo Braz Frade às 19:03

Quinta-feira, 01.11.12

De Monsanto a Castelo Branco

Castelo - Monsanto

Vista do castelo para a vila - Monsanto

 

Fiquei numa casa amiga.

Ontem, no Pestiscos e Granitos, restaurante de bom garfo, quase a chegar ao chapéu de Monsanto, disseram-me que a família Buescu muito tinha feito pela vila, e que os monsantinos lhe estavam gratos, ao contrário do que pensavam de outras famílias, segundo eles, mais ou menos feudais. Quem mo disse foi um rapaz da terra, viajado. Fiz peito ao ouvi-lo. Tenho um orgulho granítico em ter dormido, hoje, na casa dos Buescus, no quarto do meu grande e velho e apertado amigo Saramago, mesmo em frente a uma fonte que me disseram ser o chafariz dos namorados, onde a água aconchega na roda das estações, e é fria no verão e é quente no inverno. 

Andei de casa em casa até às duas e meia da manhã. Conheci gente que veio da cidade para começar aqui negócio e conheci gente que começou aqui negócio e não quis ir para a cidade. Pelas duas, fui parar a uma loja que abre portas hoje, com o nome de Monsabores, na rua mais comercial da vila, uma espécie de Avenida, que tem o Petiscos, e a Taverna Lusitana, lá bem para cima, antes de se avistar o castelo. Foi por lá que ouvi jovens combinarem a ida à matança do porco. Eu, que conheci um guardado junto a uma cerca em pedra, perguntei:

- Não me digam que é o porco com quem hoje estive na galhofa…

- Pois pá, provavelmente é esse mesmo.

Houve desgosto. Eu como porco. E como porco em matanças do porco. Não escondo o falso moralismo ao exibir um sentimento amargo em relação a este em especial, mas também não esqueço umas palavras que se não me engano são atribuídas a Churchill, e que explicam qualquer coisa como o dever de um homem se recusar a comer um animal com quem tenha convivido socialmente.

 

No castelo - Monsanto

Um amigo - Monsanto

 

Comprei uma marafona. As velhinhas vendem-nas para ampliarem a parca mensalidade que lhes chega ao bolso. São as bonecas da terra, armadas em cruz de madeira, enroladas em trapos e vestidas com trajes típicos. Têm um ligação autêntica a antigos ritos de fertilidade. No dia 3 de Maio, ou no Domingo que lhe segue, as monsantinas dançam com elas junto ao castelo lançando depois vasos de barro com flores do monte abaixo. Não é por acaso que esta expressão ocorre em Maio, o florido mês da Deusa Maia, e do esplendor fecundo da natureza. A juntar, diz-se ainda que as mulher as colocam debaixo da cama no dia do casamento para que o casal seja abençoado com fértil sorte. As marafonas foram também contextualizadas historicamente quando, numa das vezes em que o castelo foi cercado, a povoação intramuros usou marafonas nas ameias pondo-as a dançar, dando a imagem de que dentro da muralha o povo vivia feliz e indiferente ao cerco.

 

Ruas da vila - Monsanto

Telhado - Monsanto

 

São de Monsanto as adufeiras que mais me habituei a ouvir. Soube de uma chamada Catarina Chitas, a Ti Chitas, como era conhecida, que segundo locais terá morrido muito velha, com cento e catorze anos disse-me um rapaz, e que em nova terá sido atingida por um raio. Tem uma história muito engraçada, a senhora. Gosto pouco de transcrever texto, mas acho que aqui é justificado, e, mais, é merecido: Fui criada no campo, a guardar gado, a guardar tudo, a guardar cabras, e porcos, e vacas. E a trabalhar, a ceifar, a sachar o trigo, a arrancar o mato, a fazer tudo. A minha sabedoria é essa. Agora, de então para cá, já fui cozinheira, já fui padeira, já fui tecedeira, já passou tudo pelas minhas mãos. Só estudos da escola é que nunca tive. Uma citação poderosa, que põe tanta coisa em perspectiva. A Ti Chitas foi gravada por muitos estudiosos portugueses, entre os quais Ernesto Veiga de Oliveira e Giacometti. Uma das recolhas que ouvi, composta pela própria, é uma terna e intemporal homenagem à sua vida de campo. 

 

Toda a vida fui pastora, e sou muito de vontade

Eu nasci pra camponesa, não foi pra ir à cidade

E a brincar com os chibinhos, é uma vida que é modesta

Ó la lai lari ló lela, não há vida como esta

 

A verdade, verdadinha, é que não há. Para o mal e para o bem, não há. É preciso vir, e vir para sentir, não é vir para passear uns mergulhos na piscina. E aí, quando falamos com esta camaradagem que não nos quer largar da conversa, percebemos-lhe a vibração. Saio com um obrigado. O país devia ter também um agradecimento profundo a um monte que se quis português. Meu santo Monsanto, é para voltar.

 

Castelo Branco entrou na rota. Lá chegarei.

 

Potro - Proença-a-Velha

Largo da Praça - Proença-a-Velha

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por Ricardo Braz Frade às 15:59

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