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Qual crise?

Estas são conversas de um país que, estando em crise, vive apesar dela. Neste espaço fala-se de um Portugal que ainda consegue ser belo, de um GoCar feito playboy e de uma viagem que sempre quis fazer.



Terça-feira, 20.11.12

De Guimarães a Braga

Aspecto de casas - Citânia de Briteiros

Casas recontruída - Citania de Briteiros

 

Fui à Citânia de Briteiros pela segunda vez, ali a meio caminho entre Guimarães e Braga. É dos nossos melhores exemplos, pelo menos no que toca à dimensão, da cultura castreja, que se vê repetidamente no nosso norte atlântico, e também em terras do extremo noroeste peninsular, na província galega, quando uma vez na história universal estas duas partes do planeta pertenceram à mesma região, a Gallaecia. O castro que existe em Briteiros encontra paralelo em muitos outros a norte do rio Minho, numa comunhão cultural reconhecível à distância. É daqui que vem este namoro do Entre-Douro-e-Minho com a Galiza, uma novela que não termina por muito que estejam hoje afastados por uma fronteira que gente com coroas de há muitos anos atrás quis aqui fazer. Nem é preciso entrar em polémicas políticas e identitárias. Nunca fui por aí e não vai ser hoje que o vou fazer. Basta que um tipo agarre no volante em Santiago de Compostela e o largue quando chegar ao Porto e percebe, desde que se deixe levar pela carga cultural que há do lado português e do lado galego. É que está lá, à vista mais que desarmada, a partilha da mesma sabedoria. 

A Citânia de Briteiros apresenta as ruínas de uma antiga aldeia que hoje, se calhar, por culpa do Uderzo e do Goscinny, associamos às bandas-desenhadas do Astérix. A verdade é que esta comparação está a léguas de ser disparatada. A aldeia desses livros situa-se na costa ocidental francesa, próxima da pequena península da Bretanha, hoje o último foco absolutamente celta - até na língua, britónica, similar à do País de Gales - da actual faixa oeste de França. Também aí podem ser encontrados testemunhos de antigos castros, tão resistentes à invasão romana como os de cá. E também aí se vivia num regime de comunidade agro-pastoril que já reportei neste espaço como ainda existente em Portugal. É nesta linha que se entende por que se fala, genericamente, nos dias de hoje, de um eixo atlântico, que, apesar das muitas diferenças, mantém uma ligação quase metafísica entre todas as suas partes. São elas Irlanda, Escócia, Gales, Bretanha, Astúrias, Galiza e Portugal.

 

Arcada - Braga

Largo de Santa Cruz - Braga

 

De Braga já se gastou muita tinta. Tem crescido muito, até ao limite da planície que lhe dá chão. É pesada, populosa, cinzenta. Nem os estudantes lhe tiram a sombra. E tão clerical. Deve ser este o sítio em que Portugal soma mais igrejas e capelas e santuários por metro quadrado. Fazendo contas devemos chegar a qualquer coisa como um ponto de oração por habitante. 

É impressionante como se tornou uma cidade à séria, e retomou o seu papel de Bracara Augusta, senhora do Minho, capital da Galécia do sul, dona do império castrejo. 

As mulheres são muito bonitas aqui. Contrastam o irrealizável verde brilhante que têm nos olhos com o esbate do granito triste na fachada das casas. O verdadeiro monumento de Braga é a mulher minhota, uma fantasia que se aproxima das nossas fábulas de moiras encantadas, de cabelo longo e olhos claros, de feiticeira, com um misto de candura e vingança espalmado na cara.

 

Via Sacra no Bom Jesus - Tenões

Escadório dos Cinco Sentidos e das Três Virtudes no Bom Jesus - Tenões

 

Ao Bom Jesus vai-se a pé. Não há cá motores. E se com isto pareço fundamentalista é porque estou mesmo a ser fundamentalista. Se alguém me disser que sim, que foi ao Bom Jesus, mas de carro e depois de elevador, porque estava muito cansado e as pernas pareciam varas, eu respondo-lhe que então não foi. Viu-o, talvez. Tirou-lhe uma sequência anormal de fotos como se de um par de noivos se tratasse, deu meia volta, e ala que já é tarde. Isso não é ir ao Bom Jesus. O Bom Jesus pressupõe um ritual, e começa cá de baixo, a subir estrada até à freguesia de Tenões, onde antes, com quase toda a certeza, já daqui se prestaria culto a outras divindades. Aí chegados, no seu início, é fazer ouvido mouco aos cabos do elevador e galgar cada degrau das escadas que nos está à frente. Todos eles têm o que contar. A riqueza do monumento está no seu todo e não em determinadas partes mais fotogénicas, e convém lembrar que ele começa no piso mais baixo, não a cem metros da igreja. É daí começamos a contar capelas. Cada uma a representar os passos da Via Sacra, da última ceia, à traição de Judas, até à crucificação. Seguimos todos esses episódios num passeio ziguezagueante que não deve ter sido feito assim por mero acaso. Tem muito de iniciático, o percurso, diria que se trata de uma simulação do calvário de Cristo, e escusado será dizer que isso se perde escolhendo a facilidade do ascensor. Uma vez lá em cima, chegamos ao Escadório dos Cinco Sentidos. Por cada dois lanços, damos com uma fonte alusiva aos sentidos - visão, audição, olfacto, paladar e tacto. Todas facilmente reconhecidas. Mais subtil é a mensagem de que se trata de purificar, pela água, aquilo que é sensorial, que é terreno. Porque depois disso chega o Escadório das Virtudes, separado do anterior por um pátio maior. Divide-se em três lanços: o da fé, o da esperança e o da caridade. Aqui, nós, caminhantes, atingimos a plenitude espiritual, que é a verdade absoluta, livre do que se vê, se cheira, se palpa, se saboreia ou se ouve. Chegados ao adro, purificados, estamos prontos a entrar na casa final, a igreja, o encontro com Deus.

Este é o sentido do Bom Jesus, esta ascensão teológica. E nem é preciso ter fé para o percorrer assim. É só ter o mínimo de vontade de o perceber na íntegra. Caso contrário não passa de uma igreja com escadaria para fazer exercício.

 

E agora, já que estamos numa de fé, vou procurar uma Casa do Benfica que passe o jogo de hoje.

 

Escadório dos Cinco Sentidos do Bom Jesus (audição) - Tenões

Escadório dos Cinco Sentidos no Bom Jesus (olfacto) - Tenões

Escadório das Três Virtudes no Bom Jesus (fé) - Tenões

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por Ricardo Braz Frade às 20:25

Segunda-feira, 19.11.12

De Vilarinho das Furnas a Guimarães

Castelo - Póvoa de Lanhoso

Santuário de São Bento - São Bento

 

A descer o Gerês rumo a norte, depois de Vieira do Minho e fugindo às nacionais perpendiculares que vão até Braga, vemos um monte arredondado, ornamentado por mão humana com um castelo no topo. No sopé anda quem lá vive, na Póvoa de Lanhoso, terra do ouro. Provavelmente uma herança da cultura castreja - amanhã tratarei de ir a este assunto -, o trabalho de joalharia dos lanhosenses faz-lhes o código genético. Aqui e em Gondomar está muito do nascer da filigrana, commumente vista no noroeste português, sobretudo como acompanhante dos trajes tradicionais da mulher vianense e nas suas massivas festas de Agosto à Senhora d'Agonia. Dizia-se um provérbio, até, em que para a missa se devia levar o que se pudesse, e para a festa tudo o que se tivesse. Daí que as meninas de Viana, e em geral do Alto-Minho, quando trajadas para a festa ou para o casamento, usem um museu ao peito. 

Esta relação do Minho com o ouro - o metal sublime, correspondente à última etapa da consumação espiritual - tem camadas de segredos em cima, e entra quase nos domínios da antropologia. Uma delas, mais óbvia, mas não menos interessante, é a da exibição de posses, a da hierarquização, tão enraizada na antiga sociedade minhota. Outra, menos convencional, é todo o valor simbólico que algumas formas lunares e solares dos amuletos de ouro carregam, ora à fertilidade, ora à fidelidade, ora à protecção do mal. Tome-se o exemplo dos brincos de ouro que, acreditava-se, protegiam o orifício do ouvido da entrada de maus olhados. É curioso notar que as correntes feitas neste material têm tradução em significados como a honra, a dignidade, o respeito e a riqueza. Todos eles valores altamente caros ao pensar do homem e da mulher do Minho.

É nestas coisas que o folclore português me põe a dar cambalhotas e a fazer o pino. Querer conhecê-lo bem é ir ao fundo do mar, sem medo, porque o que está à vista dos olhos é só iceberg. E se se derem a esse trabalho, perceberão o mesmo que eu, que acabaram de abrir um livro que é um page-turner sem igual.

 

Alameda de São Dâmaso - Guimarães

Largo do Toural - Guimarães

 

Vim o tempo inteiro do que restava da etapa de hoje a pensar num excelente restaurante que encontrei no centro histórico de Guimarães, no passado Verão. Lembro-me bem das carnes e peixes que lá comi, e dos vinhos que enrolavam o sabor dos pratos. Um dia perfeito também pode ser passado sentado, só a conjugar o verbo beber e comer, desde que haja companhia, nem que seja de um jornal. Estacionei o Dinis, que deu bem nas vistas no meio deste trânsito internacional que Guimarães se tornou este ano, como capital europeia da cultura. Dei com a porta fechada de um restaurante, com uma folha A4 colada à porta de entrada, a mostrar o protesto de dia 19 de Novembro com o aumento do IVA. O a seguir, encostado ao primeiro, idem, em protesto. Continuei. Todos os bares do Largo de Santiago, onde passei depois, fechados. Caminhei até ao que tinha em mente, à espera do pior, com a mesma lânguida esperança de sportinguista, e confirmou-se: fechado. Não pode, pensei, não pode pá, logo hoje, logo num dos únicos sítios em que fazia questão de lhe sentir os talheres. É azar, chegar ao centro cultural que 2012 entregou à cidade berço e levar com isto. Tenho esperança num bom tasco, à antiga, que me salve a noite. Caso contrário tenho esperança numa boa aguardente, velha, que ma faça esquecer.

 

Praça de São Tiago - Guimarães

Largo da Oliveira - Guimarães

 

Gosto muito da cidade de Guimarães. Deverá ser das minhas três favoritas do país. Lisboa e Porto são referências, por muito que sejam uma escolha fácil que qualquer leigo que tenha dado meia volta de três dias a Portugal se lembraria de dizer - é um pouco como apontar os Beatles como banda favorita, mas não há outra forma de fazer a coisa: os Beatles eram mesmo muito bons, e Lisboa e Porto também. O terceiro lugar estaria reservado a Guimarães ou Coimbra. Mas começo a pensar em Guimarães e nas vinhas do verde aqui ao redor, e em como não há nada como um bom vinho verde, gelado até ao limite do termómetro, a encher-me a língua de acidez gaseificada, como se estivessem a fazer fogo de artifício dentro da minha boca. Começo a pensar em Guimarães e nesta emoção irracional que têm com o clube da cidade, o Vitória, que é um caso de estudo, e que para mim deveria dar exemplo a qualquer outra pequena urbe. Começo a pensar em Guimarães e neste poço de bondade arquitectónica que é o seu centro, de casas esbeltas e a dar a volta ao cardápio das cores, e para lá delas o Paço dos Duques, impecável edifício monárquico, e para lá dele o castelo, tão limpo e maquilhado que poderia passar a palácio. Começo a pensar em Guimarães e nesta má vizinhança apaixonada que têm com a sua capital de distrito, arqui-rival de tempos infundados, que leva a que haja pessoas que me segredam ao ouvido que nasceram em Braga e que pedem logo de seguida que eu lhes faça o favor de não contar a ninguém. Começo a pensar em Guimarães e concluo que sim, pois então, é Guimarães. Não há outra igual. Não há outra sequer parecida. Há Guimarães.

 

Centro histórico - Guimarães

Paço dos Duques - Guimarães

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por Ricardo Braz Frade às 19:37

Domingo, 18.11.12

De Vieira do Minho a Vilarinho das Furnas

Rio Gerês - Vila do Gerês

Igreja - Vila do Gerês

Dinis a atravessar ribeiro - Parque Nacional da Peneda Gerês

 

O Gerês serve bem como paradigma do que distingue Trás-os-Montes do Minho. Sendo breve e claro, temos dois rapazes, filhos dos mesmos pais: um que gosta de andar de barba rija, tem músculo de campo e não de ginásio, anda de cabelo desgrenhado, calça o que lhe vem primeiro à mão e que quer despachar o assunto do casamento o mais rápido possível; outro que é loirinho, tem penteado organizado para o lado, um amor adulto à sua terra, veste-se com toque, aprecia o galanteio e gosta da límpida elegância do vinho verde. Ao primeiro, deu-se o nome abrutalhado de Trás-os-Montes. Ao segundo, apelidámos com a inocência reservada e aristocrática de Minho. 

Voltando ao exemplo do Gerês, que está enfiado entre parte de uma e de outra província, reconhecemos-lhe estas duas caras - a virada para o interior, da qual falei por alto ontem, mais fechada e tradicional, e a que aponta binóculos ao Atlântico, bafejada por ares cosmopolitas vindos de Braga, Viana ou Guimarães. Nesta segunda, percorrida hoje pelo parque adentro, vemos vilas de comércio tradicional a aportarem produto junto ao movimento da estrada principal, como acontece na Vila do Gerês, parques de campismo com tecnologia a dar um empurrão às necessidades, áreas definidas por decreto turístico para desportos de aventura e montanha, hotéis e residenciais e casas para aluguer de quartos em quantidades de linhas de montagem. No Minho, o Gerês é mais fácil de se estar, mas se calhar com menos Gerês para dar. 

 

Ribeiros - Parque Nacional da Peneda Gerês

Trilhos da Geira - Parque Nacional da Peneda Gerês

 

Não lhe tiro mérito. Nenhum destes modernismos lhe condena o encanto serrano do norte. Os montes parecem vagas de marés vivas, com espuma de fresco granito, prontas a rebentar e engolir e levar com elas tudo o que há de vida cá por baixo, junto aos vales. Olhamos em volta e sabemos, sem os ver, que haverá corços e lobos e corujas a vigiarem cada passo nosso. Os carvalhos, essa árvore mágica que os antigos amavam mais que a Deus, dão tons que se querem repetir com pincel e tinta numa obra-prima em tela. As casas são da cor do monte e o monte é da cor do céu. O Gerês minhoto continua belo, tanto como o outro.

As vistas tiram-nos as mãos da electricidade. Qualquer ponto da estrada, sacado ao acaso, é um miradouro em potência. É tão verde e tão fecundo que não nos quebra a razão acreditar que de um bloco de argamassa pode nascer um pinheiro-bravo. As chuvas outonais fazem as encostas a pique jorrar lágrimas de água pura. Tornam-se cascatas quando perdem o suporte da pedra nos desfiladeiros, e caem em lagoas mais geladas que o gelo. Há rios e riachos e ribeiros a fazerem um barulhinho que podia entrar numa melodia celta.

Faz-me pensar por que raio nos vendem o céu depois da morte, se tudo o que é feérico esconderam aqui.

Ter este magnífico esplendor à nossa frente, como acontece quando vamos à antiga aldeia de Vilarinho das Furnas, é ver a Terra a dar um milagre a Deus. 

 

Vista para o Parque - Barragem de Vilarinho das Furnas

Fronteira com a Galiza - Portela do Homem

 

E a propósito de Vilarinho das Furnas. Repararam com certeza no título. Vilarinho das Furnas não é exactamente onde hoje durmo porque Vilarinho das Furnas já não existe. Mas estava aqui perto, e dei-lhe o nome como homenagem a essa aldeia submersa, à qual nunca cheguei a apertar a mão, mas que prova como uma coisa que nunca vi se pode tornar inesquecível. Era um dos outros pólos de vida comunitária portuguesa. Esta dinâmica colectiva de organizar o trabalho deve remontar a alturas em que os romanos ainda nem sonhavam sair de Roma, à ibéria tribal, talvez anterior à própria invasão celta da península. É giro ver que depois da Reconquista, em plena época medieval, muitas povoações retornaram à organização social comunitária, o que parece indicar a existência de uma imortal semente regeneradora que, regada, pode germinar a qualquer hora, independente dos sinais dos tempos. Vilarinho das Furnas funcionava assim, num compadrio da labora, em que se lavrava para o todo. Caso uma cabeça de gado morresse do infortúnio, os aldeões chegavam-se à frente, pagando cada um a sua parte da carne ao pastor, e comiam-na em conjunto. Organizavam-se segundo uma Junta, onde participavam os Vizinhos, os Seis e o Zelador. Os Vizinhos, de quem faziam parte os chefes de família da aldeia - homens, quase sempre, e mulheres, quando os homens estavam mortos ou emigrados -, elegiam o Zelador por um período não superior a seis meses. Escolhiam ainda os Seis, outros representantes que aprovavam determinadas soluções apresentadas pelo Zelador. Às Quintas-Feiras, pelo toque grave de um búzio ou de um corno, o Zelador despertava a aldeia e anunciava a reunião da Junta, onde todos deveriam garantir presença, sob pena de sanções aplicadas pelos Seis e pelo Zelador. Neste dia, tratavam-se dos assuntos da terra, ouviam-se os aldeões, discutiam-se conclusões, enumeravam-se queixas, desfaziam-se inimizades, acabavam-se confusões, aplicavam-se castigos. Calendarizavam os acertos de caminhos, a construção de muros, o arranjo de telhados. Os vizinhos falavam, o Zelador propunha, os Seis votavam. O molde era este. Diz-se que eram congressos de acesa zaragata, no limite da agressão, que no final nunca chegava a acontecer. Quem passasse o limite do aceitável era punido severamente, desde que os Seis votassem a esse favor, ou sendo expulso de Vizinho, ou ficando de fora do trabalho comunitário deixando de ter proveito deste, ou excluindo o gado do infractor de pastar nos terrenos do burgo. O castigo da comunidade era deixar um homem entregue a si próprio. Acontecia, por vezes, o rebelde ter de abandonar a gente que o viu crescer e procurar abrigo noutro lado, num caminho da vergonha que nenhuma prisão de hoje consegue replicar.

Em 1968, a evolução destruiu a aldeia de Vilarinho das Furnas. Converteu-a em lago. Uma enorme onda de lucro tapou-a com água. É agora uma barragem, de cimento imperial. Apagaram-na com o desprazer de quem usa uma borracha. Calaram o seu povo com uma saqueta de indemnizações que seriam ofensivas até para um mendigo. Talvez acreditassem que o progresso deveria acabar com Vilarinho das Furnas porque Vilarinho das Furnas já não era progresso. Esta marcha para o tempo moderno tem qualquer coisa de rebanho de ovelhas guiadas por pastor cego. O nome ficou, agora dado à gigante parede que a derrotou, a Barragem de Vilarinho das Furnas. Há ironias do caraças.

 

Porta de casa - Assento

Cascata de Leonte - Parque Nacional da Peneda Gerês

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por Ricardo Braz Frade às 22:32

Sábado, 17.11.12

De Montalegre a Vieira do Minho

Saudações - Parque Nacional da Peneda Gerês

Gado - Sirvozelo

 

Ontem não falei tudo o que quis sobre este Montalegre. Mesmo com o que vou dizer hoje, continuo sem falar tudo o que queria sobre este Montalegre. Há uma pequena tradição na vila que tem reunido adeptos e ganho viço com os anos. Está ligada à horrífica Sexta-Feira 13, no seu lado supersticioso, associado ao azar, e no seu lado lendário, referente a maus olhados e bruxarias tão em voga no concelho. É comum, pelo menos na cultura ocidental, referirmos a coincidência do 13 e da Sexta-Feira como uma data maldita. Há quem diga que esta crença tem barbas de velhice, e que vem desde o tempo em que antigas feiticeiras foram descriminadas como bruxas no início do cristianismo e que se passaram a encontrar às Sextas para preparar vinganças no destino dos que as condenaram. Montalegre crê que é na ponte de Misarela que esta reunião acontece, e trata esta data como se de um Halloween se tratasse. No centro histórico perguntei se ainda haveria este ano alguma Sexta-Feira 13 que pudesse vir cá fotografar:

- Este ano não. Só para o ano e é em Setembro e Dezembro. Até lá, nada. Tivemos uma em Junho.

E continuou. Falou-me do que se conta por aí, de que a sétima filha de um casal é sempre bruxa, e que se sair rapaz então é lobisomem. Disse-me ainda como, nessas Sextas em que o 13 nos mete medo, se afogam os maus espíritos com a queimada galega, uma bebida típica da Galiza que se instalou também no norte de Portugal, feita à base de aguardente e na qual se podem juntar casca de limão e maçã, grãos de café, açúcar, e enfim, o que o seu inventor quiser para lhe apurar o gosto. A queimada, contudo, não se faz só do verbo beber. Obedece a um ritual que envolve mais do que isso. Depois de a atearmos e a vermos arder mais alta que fogueiras, mas antes da tentação de a mandarmos goela abaixo, é solto um esconjuro que afasta os maus prenúncios e a bruxaria. Quando a sentimos chegar ao estômago, o líquido deverá purificar o corpo e proteger-nos de qualquer mal que nos possa vir a cumprimentar.

Montalegre é este eterno argumento de filme de terror de série b, e com isto faço-lhe um enorme elogio. A vida não é só razão e estando aqui percebemos - e queremos - esta vivência de celestial fantasia pagã.

Quando acordei, durante a manhã, pensei na tal ponte de Misarela que me tinham falado, um altar místico onde os montalegrinos crêem que as bruxas se juntam a conspirar. Não sei como, mas hei-de lá ir hoje. E sentei-me no Dinis.

 

Vista da aldeia - Sirvozelo

Rua e espigueiro - Sirvozelo

 

Até à ponte de Misarela passamos pelo esplendor do lado leste do Gerês, o que ainda tem transmontano no nome. O Gerês é uma explosão de beleza que Trás-os-Montes e Minho pariram da terra, em comunhão, de mãos dadas e olhos postos na Galiza. Não há centímetro que não mereça ser apreciado. Deverei aqui passear amanhã, novamente, e guardarei parágrafos para essa altura. Neste momento vou voltar a umas palavras ali de trás. Às da ponte de Misarela, que é tão bela. Daí se recita mais uma lenda. Era o Diabo que controlava aquela passagem sobre o rio Rabagão e apenas dava a ponte a quem lhe vendesse a alma em troca. Isto durou até ao dia em que um padre a exorcizou com água benta, e daí se cristalizou, tendo o Diabo feito malas e desaparecido. Faz sentido que, existindo esta tradição oral em relação à ponte, os locais de Montalegre a vejam como um assento de bruxaria. Aparte disso, não será o imaginário que o povo faz dela que lhe tira a formosura. À medida que descemos um trilho pedestre íngreme, apoiados a qualquer rocha segura que haja à boca da mão para não sermos enganados no musgo escorregadio, sentimo-la a engrandecer. E quando vem aos nossos pés, e estamos sós, nós e ela, dá vontade de a aplaudir. Faz-se numa peça de perfeito encaixe, de estética meio gótica, a arquear sobre um ordem de pedra e água. Damos-lhe cinco minutos de atenção e sentimos um comprimido calmante a fazer efeito. E é deixar adormecer.

 

Capela de Santa Luzia - Cela

Ponte de Misarela - Misarela

 

Deu-me a despedida que precisava, Misarela. Não tarda, daqui a poucos metros, acaba o concelho de Montalegre e acabam as terras transmontanas. Viro-me para trás e lá está ele bem maior do que aquilo que vejo. Aqui vai uma vénia, Trás-os-Montes, e um profundo profundíssimo obrigado. Tens um tamanho que não cabe no mundo.

Deixei-me inundar destas chuvas, destes saberes e destas gentes. Saio daqui a achar-me um deles. Nascido transmontano. 

Venha o Minho.

 

Rio Cabril - Cabril

Na estrada - Parque Nacional da Peneda Gerês

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por Ricardo Braz Frade às 20:55

Sexta-feira, 16.11.12

De Chaves a Montalegre

Eu e um bosque de carvalhos - Meixide

Dinis escondido na fonte - Vilar de Perdizes

 

Sair do Concelho de Chaves para entrar no de Montalegre é mudar de religião. Estamos, a partir de Meixide, fechados nas frondosas florestas de carvalhos das terras barrosãs, nesta atmosfera de antigos Deuses pagãos. É este o chão que se eleva antes da Galiza, no Gerês, a noroeste, e no Larouco, a norte. Neste solo vem o acarinhado Padro Fontes, estranhamente católico, apadrinhar algumas das festividades cíclicas anuais que são aqui celebradas como em nenhum outro ponto do país.

A começar por Vilar de Perdizes, hoje famosa pela organização das reuniões de medicina popular, que alguma malta gosta de insultar como herege ou pagã ou bruxaria, e que o povo transmontano responde como sempre tem feito: desde que não me chateies podes dizer o que bem entenderes. A medicina popular que Vilar de Perdizes homenageia em congresso não é mais do que uma exposição de saberes antigos e tradicionais em torno de ervas e chás e licores e infusões que, segundo a herança do boca a boca e a transmissão de conhecimentos entre gerações, nos limpam o corpo e a alma de maleitas. Há, claro, uma razão para ser Trás-os-Montes o sítio onde estes puritanismos se mantiveram parte do quotidiano. O difícil acesso a sistemas de medicina mais avançados, fez com que as aldeias barrosãs procurassem solução em si próprias e em fusões de ervas que elas conseguissem fazer. Em casos mais graves, procurava-se ajuda em padres locais que as orientassem - e convém dizer que eram eles que detinham parte do conhecimento médico na idade média -, ou em bruxas que lhes fabricassem um comezinho em jeito de poção mágica que lhes atenuasse as dores. 

Querer acabar com o congresso de medicina popular não é querer acabar com a feitiçaria, mas sim com uma parte, se calhar a mais importante, do folclore do Barroso. Que se defenda o progresso é uma coisa, e eu estou nesse barco. Mas nunca ouvi dizer que ele só existe se anularmos a exibição de ideias antigas, estejam ou não desactualizadas. 

 

Escadaria de musgo - Vilar de Perdizes

Cruzes a formar uma cruz - Vilar de Perdizes

 

Ainda em Vilar de Perdizes, é favor não passar pela Igreja Matriz de socapa. Deve ser vista a sério. Está ali uma adivinha em pedra para a qual não tenho resposta. Olhei-a de frente e senti o susto da incompreensão. Junto à portada, por cima, há uma pequena escultura que inicialmente me pareceu figurar um índio. Andei às voltas à procura de alguém que me tivesse qualquer coisa para me contar sobre tal objecto, sem sucesso. Estive ainda durante o final da tarde à procura de documentação sobre o monumento, mas nada mais do que datas de construção e afins. Descobri, por fim, com a ajuda da avó internet, que Vilar de Perdizes tem o nome alternativo de São Miguel. Poderá então ser uma representação do arcanjo Miguel, ou de São Miguel se preferirem, a liderar o seu exército contra Satanás na guerra do Apocalipse. Faz sentido porque olhando com atenção vemo-lo armado de escudo e espada, e por baixo dele deita-se derrotada uma criatura meio disforme, animalesca, que poderá facilmente ser tida como o Diabo. Se olharmos para o quadro de Guido Reni e de seguida para a pequena estátua ali picada, percebemos a ligação. O que me continua a fazer espécie são  aquelas três barras que tem acima da cabeça. Parecem mesmo penas. Parece mesmo um índio. E não sei por quê, nem para quê.

Fora de misticismos está o episódio caricato do relógio da igreja, que deu uma notícia ao país aqui há uns anos atrás, quando paroquianos quiseram calar definitivamente o bater das horas durante a noite - soava de quinze em quinze minutos -, e boa parte do povo se opôs, porque certos homens e mulheres ainda se guiavam pelos seus toques na sua vida diária e nocturna. 

 

Escultura de São Miguel - Vilar de Perdizes

São Miguel - Quadro de Guido Reni

 

E em estradas que são beldades chuvosas, sempre em direcção a poente, com o Minho a chegar quase ao tacto, paramos em Montalegre. Onde o toiro não é tido como um simples mamífero mas como uma encarnação divina, símbolo superior da fertilidade. Esta posição endeusada do boi nem sequer é exclusiva à península ibérica. É conhecida a imagem da deusa Europa sentada num touro branco, que não é mais do que Zeus transformado em animal. Isto é, na mitologia grega, o próprio Zeus, pai dos Deuses, assumiu a forma de um toiro. Somos levados a entender que o continente europeu já há muito que vê o boi de uma forma diferente. Mas é nesta plataforma ocidental, na jangada de pedra de Saramago, que ele se eleva a expoente.

Já falei dele, na altura em que apanhei a achega de Tó. Esta crença do touro como símbolo maior, pagão, que remonta a acreditares pré-cristãos, não é endémica aqui de Trás-os-Montes - podemos apanhar resquícios dela em qualquer ponto do país, das achegas nortenhas, às largadas alentejanas, às touradas a cavalo e às pegas de forcados tão apreciadas nas lezírias ribatejanas, ao forcão característico das capeias raianas de Ribacôa na Beira-Alta, ou à tourada de corda de além-mar vivida nas gentes açorianas. É inegável que o homem português, e generalizando, ibérico, tem uma relação com o touro que ultrapassa a admiração. Algures entre a polémica e a tradição, encontra-se um fervor em relação ao touro que é um misto de mistério e de fascínio e de respeito, e é esse ponto de equilíbrio que pode ser achado em Montalegre, se cá chegarmos sem um pré conceito que nos apague a emoção. São aqui organizadas feiras de gado que premeiam a superioridade de um animal a outro. Existe um inabalável crer de que os terrenos lavrados com a ajuda de touros são mais férteis. O forno com que se faz o pão é nestas aldeias tapado com excrementos de boi, noutro sinal de fé e de boa fortuna deixado a este animal. E por fim as achegas, provas de força em eiras a descoberto, em que cada aldeia leva o seu boi, chamado precisamente boi do povo, depositando nele a esperança de vitória na competição.

Ouçam Torga, nesta reza que fez ao boi transmontano, e que apetece repetir com um terço à mão: "Atrai-me esta amplidão pagã, sinto-me bem a pisar um chão em que o deus vivo de ricos e pobres, de alfabetos e analfabetos, é o toiro do povo. Um deus de cornos e testículos, que, depois de cada chega e de cada vitória, a gratidão dos fiéis cobre de palmas, de flores, de cordões de oiro e de ternura. Um deus que a devoção adora sem pedir outros milagres que não sejam os de força e da fecundidade, provados à vista da infância, da juventude e da velhice. Um deus a quem se dão gemadas e cervejas para que possa inundar as vacas de sémen, as moças de esperança, os moços de certeza e a senilidade de gratas recordações. Um deus eternamente viril, num paraíso sem pecado original."

Apetece dizer isto com um terço na mão. Amén.

 

Castelo - Montalegre

Quadro da Europa sentada num touro no Museu do Barroso - Montalegre

Dentro de um carvalho - Montalegre

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por Ricardo Braz Frade às 21:59

Quinta-feira, 15.11.12

De Vinhais a Chaves

Castanheiros e castanhas - Algures na Nacional 103

Perto da barragem - Rio Rabaçal

 

Saí de Vinhais e nos cerca de trinta quilómetros seguintes andei a tomar o pequeno-almoço pelo caminho. Foram as castanhas que ia apanhando que me preencheram a fome, perto do rio Rabaçal. Parava ali e acolá para abrir os ouriços e sacá-las de lá com o cuidado certo para não me picar. As castanhas cruas têm uma textura estranha, de esferovite, e um sabor esquisito mas que se aprende a gostar com a repetição das provas. Num desses momentos aproveitei para deixar o Dinis encostado a um calhau à beira da estrada e resolvi desapertar-me para fazer aquela necessidade elementar que o homem faz de pé e a mulher sentada. O GoCar em estradas de declive mais acentuado, que é o mesmo que dizer em quase todas as do centro e do norte, precisa de um apoio físico relativamente pesado para não começar a descair sozinho rampa abaixo. Provavelmente o problema, digo eu, foi essa parte do relativamente pesado. Tudo o que é relativo está sujeito a interpretação, e a minha deve ter sido a errada porque a pedra que usei como travão da roda de trás não teve arcaboiço suficiente para o peitoral do Dinis. Quando estava a meio do acto que falei acima, vi o Dinis passar por mim, a descer, só por ele, sem ninguém ao volante. Não sei se o meu cérebro conseguiu avisar a minha bexiga para parar o que estava a fazer. Não sei mesmo. O que sei é que nunca corri tão depressa com a minha zona da vergonha completamente nua. No final de umas cinco ou seis pernadas lá o consegui agarrar, como um forcado rabejador faz a um toiro, e inclinei as minhas costelas todas para trás até o contrapeso o obrigar a parar. Só aí, depois do sossego de o ter quieto ao meu lado, dei um aperto ao botão e fechei a braguilha. Ouvi umas risadas ao longe, de gente nova, uns putos de dez ou onze anos. Agi como se o fenómeno fosse perfeitamente normal. Até encenei um bocejo. 

 

Com o Dinis - Algures na Nacional 103

Vista para Oeste - Pedome

 

É injusto não se falar mais da riqueza cultural de Chaves. Das termas, milenares, mais velhas que o calendário, e que os romanos viram como bom começo para a fixação. Dos castros, testemunhos tribais de um passado celta ou pré-celta. Do centro histórico onde passam peregrinos que aqui pernoitam antes de se fazerem, no dia seguinte, ao Caminho de Santiago, o do interior português, neste caso. Dos prédios, que são extraordinários e têm das melhores combinações que vi com o granito que os segura na base. Do largo Caetano Ferreira, que é uma preciosidade a trezentos e sessenta graus, com ponto alto na Igreja Matriz e na Santa Casa da Misericórdia. Dos fortes de São Neutel e de São Francisco, ambos em estrela, circunscritos por canhões, que disputam o apelido de protector mor. Da Rua de Santa Maria, com bares de paredes tortas e cheiro a bafos de drogas leves. De alguns terraços das casas periféricas com aromas de uva não colhida a tempo da vindima. Do encontro com o Jardim do Bacalhau, com essa escultura particular, que homenageia as mães. E vou parar com a enumeração porque quero falar disto. Quando procurava a dita perguntei onde poderia encontrar uma estátua em que uma mulher segura dois bebés ao colo. Respondeu-me um senhor já nos seus sessenta que essa estátua é a de Maria Mantela. A verdade é que oficialmente não é esse o nome dela, mas foi assim que o irrefutável saber do povo a viu. E percebo por que o fazem. E depois de vos contar a Lenda de Maria Mantela, espero que vocês me dêem razão.

 

Largo Caetano Ferreira - Chaves

Torre Romana - Lampaça

Junto à Praça de Camões - Chaves

 

Maria Mantela era a mulher de Fernão Gralho, família abastada deste extremo norte transmontano. Ela engravidou e foi nessa fase que, num dia de passeio com o marido, viu uma pedinte com dois gémeos abraçados ao seu pescoço. Maria Mantela troçou dela por acreditar em antigas superstições que diabolizavam as mães de gémeos, defendendo que quem dava à luz um par de bebés de seguida teria tido comportamentos desonestos. A pobre mulher sentiu a sua honra ofendida e amaldiçoou a gravidez de Maria Mantela, que a partir daí se sentiu mais e mais angustiada à medida que via a sua barriga crescer. Pois tal foi o azar que no dia do parto lhe saíram sete filhos seguidos do corpo. Fernão Gralho não se encontrava presente e Maria Mantela, num acto de desespero, pediu à ama que guardasse um dos rebentos e se desfizesse dos restantes seis e os lançasse ao rio Tâmega. A ama teve de obedecer, e deixando um, carregou os restantes seis, enrolados num pano, até à margem do rio. No caminho encontrou Fernão Gralho, que lhe perguntou o que levava nos braços. A ama respondeu aflitiva que se tratavam de cachorros que teria de deitar ao rio mas Fernão Gralho não se acreditou e destapou o pano, vendo então seis dos seus filhos. A ama acabou por contar o que se tinha passado e Fernão ordenou-a que voltasse para casa e dissesse que tinha cumprido a ordem que lhe fora dada. Assim aconteceu, enquanto Fernão Gralho se deslocou a seis povoados próximos de Chaves e entregou a cada um deles uma das crianças. Anos passaram, sem que Maria Mantela soubesse do que se tinha passado, vivendo assim em eterno arrependimento. Até que no primeiro dia de certo ano, Fernão Gralho resolve dizer à sua mulher que preparasse a noite porque seis convidados viriam jantar. Tal foi feito. À hora combinada chegou Maria Mantela à mesa da refeição e deparou com sete rapazes, cada um mais parecido com o do lado, tão idênticos que Maria não conseguiu apontar qual deles era o filho que criou. Fernão contou-lhe tudo sobre o que se passara, anos atrás, tirando a angústia com que Maria vivera durante tanto tempo. Os sete gémeos viraram padres em adultos, à frente de paróquias bem próximas da cidade de Chaves. Diz-se que na Igreja de Santa Maria Maior se podia antes ler: aqui jaz Maria Mantela, com seus filhos à roda dela

Que o povo tenha dado um nome diferente à estátua do Jardim do Bacalhau é um óptimo sinal de como ele não se desfaz dessas alegorias da história que são as lendas. 

E não consigo dissociar dela a magia do número sete no folclore português. Em Lisboa, temos a Lenda dos Sete Ais. Em Aljubarrota, conhece-se a Lenda da Padeira que dá cabo de sete soldados espanhóis. Nos Açores, a Lenda das Sete Cidades. Monsanto escreve a Lenda da Bezerra, com os seus sete anos de cerco. Tavira lembra a Lenda dos Sete Cavaleiros. Mogadouro vira-se para a Lenda das Sete Senhoras. Mora vai à Lenda dos Sete Irmãos. E há mais, muitas mais. Só é coincidência para quem não se está para chatear.

 

Maria Mantela - Chaves

Ponte do Trajano vista da Alameda - Chaves

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por Ricardo Braz Frade às 21:34

Quarta-feira, 14.11.12

De Bragança a Vinhais

Decoração de bar - Varge

Serras - Parque Natural de Montesinho

Num banco de xisto - Rio de Onor

 

Ontem saltitei entre bares escondidos no castelo de Bragança e um outro escancarado na Avenida Sá Carneiro. Os que ficam intramuros são giros, em pedra e madeira. Aí, há o "Celta", na ladeira principal, que tem a caricata ficha de informação de horários no vidro da porta - diz ela que o bar abre quando o dono chega e fecha quando ele se for embora. Há ainda o "Duque", no final de uma rua estreita, que se destapa para o cliente ao toque de uma campainha. Os da Avenida, por estarem na artéria principal da cidade, tinham mais gente. Um deles, o "Cheers", contava até com maior número de mulheres que de homens, um verdadeiro feito num país destes, em que leio constantemente que elas são numericamente superiores a eles e essa demografia é completamente defraudada da meia-noite para a frente, seja lá qual a cidade em que esteja. Voltei à Pousada tarde, com o álcool a fazer de casaco, e fui ver se estava tudo bem com o Dinis. Faço-o regularmente, antes de ir dormir. Vi-o coberto por uma carapaça de gelo, a reluzir dos brilhantes da geada que se formou a partir das dez. Estavam zero graus, li eu no termómetro da farmácia. Na altura pensei como o mercúrio deveria estar a indicar números negativos lá para cima, para o Parque Natural do Montesinho. Lá andei hoje. Com mais calor. Fui seguindo placas que me levavam à Sanábria, mas não houve necessidade de chegar tão longe. Parei antes disso. E vi a terra que me convenceria a fazer as malas e mudar-me para o campo. Rio de Onor. A inesquecível aldeia de Rio de Onor.

 

Dinis à chegada de Rio de Onor - Rio de Onor

Ao trabalho - Rio de Onor

Igreja de São João Baptista na outra marge - Rio de Onor

 

A aldeia não está encostada a Espanha porque parte dela já o é. Oficialmente, separaram-na na actual Rio de Onor, a parte portuguesa, e Rihonor de Castilla, a parte leonesa. Isto são só tretas que secretarias de governo fazem de regra e esquadro, porque no fundo dividir este pedaço de terra é como tentar cortar um coração em dois e esperar que ele continue a bater. Os aldeões, quer de um lado, quer do outro, não dizem que vão a Rihonor de Castilla ou a Rio de Onor. Dizem que vão lá acima ou lá abaixo, sendo o primeiro Espanha e o segundo Portugal. É curioso notar que mesmo assim, sabendo que este é um caso de excepção, o Estado espanhol resolveu colocar uma placa a sinalizar Espanha mesmo no meio do povoado. Do lado português não se vê qualquer informação nesse sentido o que mostra que se calhar, apesar de tudo, temos mais sentido do ridículo do que o companheiro aqui do lado. E bem se lixaram eles, porque um pouco mais à frente, num outro quadro onde se lê "Junta de Castilla y León", alguém riscou o castilla e observou por baixo, em pintura, "País Lionés". Ora bem.

A língua da aldeia é uma mixórdia de castelhano, leonês, asturiano e português, que, tudo somado e subtraído e multiplicado e dividido dá um resultado que apelidaram de rionorês. Falei com pessoas que tanto usavam conjugações lusas como no segundo seguinte referiam um objecto com acentuação espanhola como logo depois aventuravam híbridos de três ou quatro línguas engalfinhadas. Anda um tipo a colher quilómetros fronteiriços, do Algarve a Trás-os-Montes, a apreciar castelos de cintura fortificada, esses guardadores de raias com séculos de história, e depois damos com este monumento à paz, um povoado de pouco mais que uma centena de pessoas, a partilhar sangue, trabalho e vida com o outro lado da fronteira. Não há nada que não se goste nesta quieta cova cercada por três serras, a leste pela de Guadramil, a oeste pela de Montesinho que dá nome ao Parque, e a norte pela imponente Sanábria. A sul as paredes abrem-se até à cidade de Bragança. Mantém um quotidiano ancestral, dos antigos povos comunitários. Em Rio de Onor, apesar de alguns modernismos que, diga-se, só lhe tiram a graça, trabalha-se para a aldeia e não para si próprio. As ovelhas e cabras são de todos, a horta é de todos, os tanques de roupa são de todos, o forno é de todos. É uma ínfima mancha de colectivismo numa europa - e num mundo - que anda desde há mais de cem anos a viver a filosofia do eu

 

Cascata - Rio de Onor

Tanques comunitários - Rio de Onor

Carroça e bois - Rio de Onor

 

Andar pelas ruas e olhar para as casas que ainda funcionam como tipicamente transmontanas - piso térreo para guardar o gado, primeiro piso para as famílias - é um longo e incessante arrepio na espinha. Apetece parar de conhecer a aldeia para se começar a viver nela. Pensei em, por uns dias, entregar toda a pinga de suor que tenho a esta velha ordem comunitária. Trabalhar com eles, para a aldeia, e receber com eles, da aldeia.

A crise financeira não chega aqui. Nestas casas, crise é ter menos cabeças de gado ou má sorte nas chuvas ou a morte de alguém. Falei com um senhor já velhote, que transportava uma carroça puxada por dois bois, de uma contundência que é a marca de água do norte:

- E malta nova por aqui, não há? - perguntei eu.

- Malta nova por aqui não há. Emigram. Ou então estudam. Os novos agora não querem trabalhar, só querem estudar.

- Pois… eu também estudei.

- É. E agora vêm-se queixar da crise. Esquecem-se que é a terra que nos dá o que comer. Agora está tudo desempregado e, olhem, comam o computador.

Soltei uma gargalhada. Ele olhou para mim com um jeito no lábio de quem viu que fez rir alguém. Por cá, desemprego é outro conceito meio vago de que se ouve falar no telejornal das oito. Não sei como está agora, mas aqui, antes, vivia-se o pleno emprego, um sonho de fraca concretização à escala nacional. Não tenho nenhuma reclamação a fazer em relação à tal sociedade de consumo que é tão criticada nestes tempos. Vivo-a diariamente, sem me queixar. Essa, sabemos, não vai desaparecer tão depressa. Mas esta, que é o seu oposto, deve manter-se tão forte quanto for possível à vontade do Homem, e será uma grande perda vê-la a acompanhar um dinamismo que, já se viu, nem sempre dá bom resultado. Que Rio de Onor se mantenha assim não é só um bom sinal para o país. É para a humanidade. Porque não há terra mais humana que esta.

Cheguei tarde a Vinhais e dei poucos passos por cá. Em todos, não pensei noutra coisa. De como a felicidade pode ser tão barata. Ainda penso em ti, Rio de Onor.

 

Rio Sabor - França

Vista do Parque - Vinhais

Anoitecer - Parque Natural do Montesinho

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por Ricardo Braz Frade às 21:43

Terça-feira, 13.11.12

De Vimioso a Bragança

Dinis a caminho de Bragança - Vimioso

Rio Malara - Gimonde

 

Bragança encanta. Tem portadas e ventanas a abrirem para o recorte montanhoso que o Parque do Montesinho faz no céu. Mostra um dos castelos mais bonitos do país. Conta com boa vizinhança, com um Gimonde pitoresco, colado ao rio Malara, a oferecer óptimas postas em restaurantes fotogénicos. Chora uma igreja que desposou o impossível, ao casar D. Pedro com a bela galega Inês de Castro. Tem um centro histórico vibrante e que não nos deixa estar parados. Mas não vou falar dela hoje. Talvez amanhã dedique mais palavras a esta cidade que está bem classificada na minha tabela de preferências. Hoje não. Ou antes, não falarei da cidade em si, mas sim da generalidade do distrito, que tem um sótão de antiguidades enigmáticas. Significa isto que optei por espetar uma valente estucha nos leitores e mostrar-lhes os mistérios da máscara transmontana.

Guardei tudo o que tinha a dizer sobre o assunto para este dia por duas razões. Em primeiro lugar, os rituais que serão abordados são um fenómeno regional, que abarca maioritariamente Bragança e arredores mas também uma parte da Beira-Alta, e como tal, o ideal seria dar-lhes conteúdo numa terra que os representasse a todos o mais possível. Em segundo lugar, é em Bragança que se encontra o Museu da Máscara Ibérica, dentro das muralhas, que vem bem a calhar para ponto de partida do que se segue.

Ainda para mais, os tempos mágicos do início do inverno e do solstício que tem o mesmo nome, já não andam longe. É nessa altura que o nordeste português se transforma e entra num outro universo, flamejante, demoníaco, e hipnótico. Porque é dessas energias que vos vou encher de letras nestes próximos minutos.

 

Intramuros - Bragança

Jardim e muralhas - Bragança

 

São muitos os lugares que se agarram a tradições que remontam a alturas em que Cristo ainda não tinha visto o mundo. Só no distrito de Bragança, dou-vos estas: Rio de Onor, Aveleda, Verga, Baçal, Vila Boa de Ousilhão, Vinhais, Tó, Ousilhão, Constantim, Podence, Bemposta, Bruçó, entre muitas outras. 

Não vou reportar todas. Escolherei apenas três e começo por falar de Tó, terra sobre a qual já gastei tinta e que me ficou feita perfume no cheiro da roupa que uso.

Na altura do natal, em muitas vilas e aldeias dos quatro cantos do país celebra-se a missa do galo, e na mesma noite, antes ou depois da missa, é acendida uma gigante fogueira. Quem vai ao campo passar a quadra, sabe do que falo. E em Tó isso também acontece. Até ver, nada de mais. A diferença é que aqui a fogueira mantém-se acesa durante uma semana, até ao dia de ano novo. Aí, no primeiro dia do ano, logo pela manhã, quatro personagens, mascarados conforme a regra, fazem um peditório a toda a aldeia, na companhia de gaitas e de caixas de percussão: são eles o moço, de fato e gravata; o farandulo, com uma coroa de cartão preto e cara pintada a carvão; a sécia, um rapaz vestido de mulher com um véu de renda na cabeça; e o mordomo. Dá-se então um teatro simbólico: o farandulo tenta uma espécie de violação à sécia, e o moço, em defesa da mulher, simula uma luta com o farandulo, saindo o moço vencedor. Estas personagens criadas e interpretadas pelos aldeões, parecem, sem especular muito, uma representação das estações do ano. O farandulo, de aspecto temeroso, é a encarnação dos tempos escuros, das trevas, ou do inverno, que tenta quebrar a sécia, representante da luz, e sai derrotado. E sai derrotado por que razão? Porque é nesta altura, no solstício de inverno, que o sol retorna e recupera o tempo à noite, isto é, a partir daí, no hemisfério norte, as noites vão minguando até à sua data oposta: o solstício de verão, em junho. Não é por acaso que se chama à missa do dia 25 de Dezembro a missa do galo. O galo é um animal de forte simbologia, que canta quando o sol dá de si. Não é também por acaso que o Natal se chama Natal, o nascer, porque se trata do renascimento dessa estrela que antes foi tida como um Deus, o Sol, mais tarde substituído por uma outra luz, a do nascimento de Jesus Cristo, que nem eu nem ninguém sabe ao certo quando nasceu realmente. 

Vamos agora dar uma vista de olhos a Bemposta. Tem ela o chocalheiro de Bemposta, um ser que mete medo só ao olhar. Não choca dizer que podia ser o carniceiro de um filme de terror. A máscara do chocalheiro inquieta e está carregada de símbolos ligados à fecundidade, onde, mais uma vez, é conivente com a retoma do poder do sol. Ele aparece no dia 25 de Dezembro e no dia 1 de Janeiro, precisamente os dias que mais intensamente se vivem em Tó. Neste caso pode-se até discutir o carácter de demónio que está patente na máscara, um possível catalisador entre o mundo dos mortos e o mundo dos vivos que, crê-se, se encontram por esta altura do ano. A sublinhar a parecença do chocalheiro com o diabo está a aversão que a igreja mostra a este - está proibido de entrar na missa, tendo de esperar que esta acabe cá fora.

 

Farandulo e Sécia - Bragança

Farandulo, à frente, e Sécia, ao fundo  - Tó (fonte: Câmara Municipal de Bragança)

Chocalheiro de Bemposta - Bemposta (fonte: Câmara Municipal de Bragança)

 

Por fim, afastando-me do período natalício, temos os célebres caretos de Podence, que saem às ruas no Carnaval, no Domingo e na Terça-Feira, mais precisamente. Nesses dias, estas criaturas infernais, sempre masculinas, procuram mulheres que, agarrando-as, deverão chocalhar, isto é, num jogo de cintura, atingirem-nas com os chocalhos que têm pendurados no cinto. Na noite de Domingo os caretos podem até perseguir as raparigas, sem qualquer impedimento ou constrangimento moral que os perturbe - e esta é a noite que mais merece a visita, já que a de Terça-Feira começa a sofrer de algumas perturbações turísticas que deturpam a intenção original do rito. Não é preciso estudar muito para nos apercebermos de que se trata de um ritual de fertilidade, coincidente com a fase em que a terra se começa a tornar fértil. Os fatos usados pelos caretos são de linhas paralelas e cores muito fortes, numa alusão ao despertar de um novo ciclo agrícola, de uma entrada - um entrudo - numa nova natureza, a primavera. Este êxtase que se vive pelo regresso ao crescer é visto como uma altura para maximizar os excessos, ou até eliminá-los do mapa. O careto é o exemplo sumo desta realidade sem leis, que conhecemos como Carnaval, já que a eles se dá liberdade total para ultrapassarem qualquer norma social que noutra altura do ano seria severamente punida. Ainda me lembro de, em Lisboa, no festival da máscara ibérica, um apresentador de televisão ficar de trombas com um careto por este ter abandonado a entrevista e resolvido ir tomar banho à fonte do Rossio. Em directo para a televisão, encharcado em água, o careto respondeu à indignação do apresentador: 

- Eu sou um careto e faço o que eu quiser. 

Ora nem mais. Não será Lisboa a fazer a diferença.

 

Careto de Podence - Bragança

Careto de Podence - Podence (Fonte: Câmara Municipal de Bragança)

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por Ricardo Braz Frade às 19:58

Segunda-feira, 12.11.12

De Miranda de l Douro a Vimioso

No Café Rodrigues com o Dinis - Fonte D'Aldeia

 

Voltei atrás, até Fonte D'Aldeia, onde ontem passei de raspão. Está entre Sendim e Miranda do Douro. Falaram-me de uma cerveja artesanal que por lá é feita, numa das várias associações locais. Tive sorte. Encontrei um dos senhores que a faz à beira da estrada que vai para Mogadouro, junto ao Café Rodrigues. Chamava-se Vito e contou-me como andava lixado com a Mercedes por lhe ter gamado as honras do nome. Depois respondeu às minhas intenções de consumo:

- Ela agora está a fermentar, mas tenho lá umas de há dois meses para o senhor provar.

Perguntei se me fazia esse jeito, e para ajudar mostrei-lhe o quanto gostava de uma boa cerveja ao enunciar todas as marcas internacionais que me vieram à cabeça. Funcionou e fui atrás dele, até à fábrica, numa furgoneta. Era uma moradia simples, comprida, de construção relativamente recente. As divisões que vi tinham cada uma a sua função no processo de produção da birra - que se chama Sarti, a propósito -, uma para a fermentação com temperatura nitidamente mais alta, outra com o frigorífico onde está guardado o lúpulo e os frascos de malte por cima dele, uma terceira para o engarrafamento, e finalmente a última com os panfletos promocionais de onde salta o cerbeija artesana em língua mirandesa. Fazem-na de várias formas, preta e ruiva e uma que parecia weiss. Usam vários tipos de malte: trigo, torrado, aromático, chocolate e outros que não decorei.

- Não as podemos vender comercialmente, mas quando há feiras levamo-las. Se calhar vamos começar a tê-la cá pela aldeia nos dias de fim de semana. Isto ainda só tem um ano de vida.

Deu-me a provar de dois tipos - a de cor arruivada, meio turva, boa, e a mais escura, ligeiramente adocicada e a lembrar as maravilhas que os belgas se lembram de fazer com cevada, tão boa que me levou a comprá-la em versão de meio litro.

Despedi-me a dizer que regressava, provavelmente no Verão do próximo ano, e que não me esquecerei de aqui tornar, se calhar já com outras gamas prontas a entornarem-me o estômago.

 

Com o Senhor Vito (primeiro do lado direito) - Fonte D'Aldeia

Cerveja Sarti - Fonte D'Aldeia

 

Fonte D'Aldeia, disseram-me lá, é berço de três dos quatro galanduns. Assim os trato por fazerem parte dos Galandum Galundaina, aquela que é, para mim, a par com os Gaiteiros de Lisboa, a melhor banda nacional. Acreditem que não tenho nada a ganhar com isto e que dou a recomendação pela mais pura magnanimidade: o álbum "Senhor Galandum", o último de estúdio lançado por estes quatro mirandeses, é uma inquestionável obra-prima. Fiquem-se com esta. De resto, vou poupar críticas musicais para outros fazeres.

Quis comer uma posta ao almoço. A ilustre posta do planalto raiano, a posta à mirandesa. Há em quase todos os restaurantes. Em Sendim, onde andei ontem, está aquele que será talvez o mais conhecido: A Gabriela. Era gerido por uma senhora, Gabriela de nome, está claro, que segundo se diz, era o paradigma da mulher do norte, sem papas na língua nem vergonha de mandar qualquer cliente à merda. Ouvi até que Salazar chegou a ir lá comer e a Gabriela não tinha o mínimo problema em mandá-lo à merda também, que ele não era mais que qualquer outro freguês. São as Marias da Fonte que o pedaço do Minho e de Trás-os-Montes fazem nascer. Agora quem lá paira é a sua descendência, sobretudo a neta. Dizem-me que já não é a mesma coisa, que a posta da avó era bem melhor. Não sei. Não tenho a comparação. A actual é deliciosa, gorda, com óptima batata e salada de pimentos a acompanhar, e um molho que escorre sobre ela com uma cadência que ao escrever isto me sinto como o cão de Pavlov. Desta vez deixei a neta da Gabriela em paz. Comi onde estou e onde durmo, em Vimioso. Epicentro do azeite e seus lagares.

 

Praça Eduardo Coelho - Vimoso

Caminho até ao Santuário de Santo Antão - Vimioso

 

Certa paisagem mirandesa faz lembrar a secura alentejana. É um intervalo amarelo torrado num espaço que já há muito tinha ficado na constante do verde, mais ou menos do Fundão para cima. A oliveira, ícone sagrado do mediterrâneo, começa a aferrar-se à moldura natural do nordeste fronteiriço. Estarão aqui, em breve, aldeões com varas e panais, para a apanha da azeitona, que aqui, tal como a da castanha, se faz mais para o final do mês de Novembro. São colheitas tardias, as da azeitona. Das mais tardias que há. Depois dessas, entra-se praticamente no rigoroso e mortiço inverno, que adormece a terra e fecha novos e velhos em casa, deixando-os a viver do que armazenaram para a época. Nas cidades do litoral, a diferença entre o Verão e o Inverno, se exceptuarmos as idas à praia e o volume da roupagem, são pouco mais que pó. Aqui, no interior, quer norte quer sul, anda-se dentro da roda das estações. Vivem-se os ciclos. As pessoas não dizem que é Outono, mas que estão no Outono, porque o Outono faz-lhes mudar os movimentos. O Outono sai com elas de casa e dorme com elas na cama. Faz-lhes os horários, escreve-lhes os deveres e castiga-os à reguada se houver desrespeito. É outra forma de vida. Não me vou armar em moralista e dizer que deveria ser assim em todo o lado. Mas dá-me uma certa inveja não ter esta relação de ódio e de amor com os tiques e enguiços da terra-mãe.

Do miradouro da Atalaia, à entrada sul de Vimioso, vê-se um monte ao fundo, a norte, coberto de neve. Não percebi se eram os tectos do Montesinho, ou se estava mais ao longe, para lá deles, já em território espanhol. Seja como for, os próximos dois dias são naquela direcção, à neve. Há neve.

 

Miradouro da Torre da Atalaia - Vimioso

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por Ricardo Braz Frade às 21:43

Domingo, 11.11.12

De Mogadouro a Miranda de l Douro

Igreja Matriz - Tó

Antes de almoço - Tó

 

São Martinho foi porreiro no tempo que deu ao magusto. A aldeia de Tó festejava a data na Casa Grande, uma moradia aberta e restaurada que deve contar muita história se as paredes falarem. Parece um antigo palacete e deve sê-lo. Hoje é, e bem, a casa do povo. Houve matança do porco logo pela manhã, que eu não vi por lhe desconhecer a existência. Mas fui a tempo de o ter no prato, num salão de mesas estendidas a todo o comprimento e mais umas que iam chegando mais tarde para dar banco à procura.

- Isto vai ter lugar para toda a gente? - perguntei eu depois de me sentar e perceber que havia gente ainda em pé -, é que se não tiverem eu levanto-me.

- Deixe-se é estar aqui sentado ou ainda perde o lugar - disseram-me do lado esquerdo.

Eu fiquei. Estava com malta porreira, que falava sem medo e sem palpar terreno. Do lado direito, um senhor já mais de idade avisou:

- Olhe que não sai daqui sem comer esse porco todo, hã? - e apontou com a lâmina da faca para o meu prato.

Disse que sim, que comia tudo e só não podia comer o resto porque era osso. Ele voltou a puxar da faca, agora para comprovar se eu o aldrabava ou não. Bateu no porco, num som seco, e disse:

- Pois, isto é só osso, foderam-no bem.

O transmontano não pede licença nas palavras. Ao contrário do alentejano, que é comedido e cuidadoso no que lhe sai da boca, o nortenho tem o palavrão como forma de pontuação. Se existe, é para se usar. Têm toda a razão. Quer escrito, quer dito, dá expressividade. É quase uma arte.

E continuou, sobre Tó:

- Acredite no que lhe digo, pode passar cinco ou seis dias aqui na aldeia que não gasta um cêntimo. Fica aqui connosco que damos casa e pão.

Retomou a conversa o senhor da minha esquerda:

- É. Aqui o único problema é a água, há pouca - depois olhou para o vinho e terminou -, mas também nós quase não a bebemos...

Agradeci e expliquei que não podia ser. Contei-lhes da volta que estava a fazer e que hoje já estava atrasado para ir até Miranda do Douro.

 

O Dinis e os miúdos - Tó

Preparação do porco - Tó

 

Concerto de concertina e cavaquinho - Tó

 

No final do repasto, na eira, esse palanque de espectáculos da vida do campo, deu para ver uma curta achega de bois, que não é mais do que um combate bovino sem homem a meter o bedelho, feito por tradição em terras mais a norte do país, onde talvez a mais conhecida seja a de Montalegre que faz campeonato disso, com playoffs e tudo. Se não me engano, neste caso, eram seis e juntam-nos aos pares para lutarem entre si. Marram e malham um no outro, num cornudo braço de ferro, até que um vire a cara para trás e desista. A primeira foi mansa. Não posso dizer que tenha sido empate porque nem sequer dei conta de uma marrada que fosse. A segunda, a última que assisti antes de partir até Miranda, melhorou. Foi viril. Deu encosto de cornos à séria, e ouviu-se de longe, até, quando chocaram chifre com chifre.

Estas achegas eram, noutros tempos, mais do que uma disputa animal arranjada pela mão do homem. Eram uma bulha de municípios. Cada um tinha o seu boi, criado e alimentado pelo seu povo, e que era depois levado como representante da vila ou da aldeia. O boi, em batalha, carregava mais do que o seu porte. Carregava o peso de todo o vilarejo que representava. O que ganhava dava uma desculpa aos aldeões para que se fizesse festança na terra de onde era original. É fácil fazermos uma analogia com o que acontece presentemente no futebol, em que escolhemos dois ou três tipos com quem contamos para salvarem a honra do convento. No caso da actual selecção nacional, fazemos isso só com um, que vocês sabem quem é, evitando-me o inconveniente de lhe dizer o nome. Podemos dizer que ele, esse tal que estão a pensar, é o nosso boi, porque o vimos crescer e agora queremos que ele não nos deixe ficar mal.

 

Boi para a achega - Tó

Museu da Terra de Miranda - Miranda do Douro

 

Achega de bois - Tó

 

Em Fonte d'Aldeia consegui avistar junto á estrada nacional três burros mirandeses, uma raça autóctone de bom trato, com mais pelo do que o que habitualmente se vê noutros asnos. Corre algum risco de extinção. Têm-se visto umas actividades recentes que tentam salvar esta subespécie de cair num passado irrecuperável. Uma delas é levada em braços por gente como os Galandum Galundaina, uma enorme banda que canta a música tradicional de Miranda e arredores, organizadora de um festival que é também uma caminhada - chama-se, em mirandês, "L burro i l gueiteiro" -, e que percorre caminhos campestres das terras do planalto durante quatro dias. Estou há três anos a tentar combinar fazer estes trilhos. Este ano foi quase, por uma unha negra. Não passa do próximo.

Ando finalmente por burgos onde se diz tenemos em vez de temos. É a língua mirandesa, oficializada há não muito tempo, essa fatia que o Reino de Leão deixou dentro do nosso país e que não de dissolveu nos séculos que passaram desde aí. E pela primeira vez abdico da minha língua-mãe para me aventurar numa descrição fora das minhas capacidades. Desculpem-me se falhar nalguma palavra, e irei, com certeza, falhar.

Miranda i l sou cunceilho bibe sin squecer l sou lado leonés, de l'outra borda de l riu. Ye ua tierra armana, que la frunteira separou an política mas nun cunseguiu an cultura. Qu'estas tierras nunca larguen la sue mimória i la cunten a mimórias feturas. Que ls mius nietos ouçan las buossas gaitas. Que Pertual screba la buossa léngua. I que l praino dure para siempre. Buoltarei.

 

A língua mirandesa - Fonte D'Aldeia ou Fuônte Aldé

 

Burro Mirandês - Fonte D'Aldeia

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por Ricardo Braz Frade às 20:03



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