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Qual crise?

Estas são conversas de um país que, estando em crise, vive apesar dela. Neste espaço fala-se de um Portugal que ainda consegue ser belo, de um GoCar feito playboy e de uma viagem que sempre quis fazer.



Quarta-feira, 28.11.12

De Arganil à Lousã

Dinis nas aldeias do xisto - Comareira

Fonte dos namorados (à esquerda) - Aigra Nova

 

Eu acho que eles não sabem. Os de cá, destas aldeias artesãs, cozidas em xisto, não percebem o fascínio que me dão quando divago pelas serras onde se deixaram afogar. Este novo conceito do Roteiro das Aldeias do Xisto, que desbrava caminhos pedestres, muito provavelmente os mesmos que outrora alguns pastores usaram nas transumâncias e outros moleiros trilharam para fazerem suar moinhos, veio destapar gente que andava escondida nas paredes montanhosas do Trevim e da Lousã, e que, não desfazendo, têm mais para me contar que um bairro inteiro de Lisboa.

No concelho de Góis podemos conhecer quatro destas aldeias de seguida. Um bom imprevisto fez com que apenas tenha parado em três: Comareira, Aigra Nova e Aigra Velha. Faltou-me a Pena, acedida por uma estrada empedrada.

A primeira aparece quase nem se dar por ela. É a Comareira, a seguir a uma curva de cotovelo que guarda uma casa que parece um brinquedo de exposição e um riacho.

Mais acima, vem Aigra Nova, a pedir um descanso numa tábua de pedra. Tenho uma máscara de entrudo que é original daqui. Antes, nas aldeias de Góis, aproveitavam-se as árvores e os seus cascos para camuflar a cara, e improvisavam-se uns trapos para cobrir o corpo. Não só por uma questão de fundo de maneio, obviamente muito mais em conta do que comprar uma fantasia qualquer numa loja de esquina, mas sobretudo porque ligava esta fase do ano àquilo que importava, a natureza. Era depois feito um circuito entre as várias povoações sendo que a regra era sempre a mesma: não haveria ética nem moral a pesar na consciência de ninguém e tudo era mais que válido. É com base nestas tradições que vejo com amargura a nossa aproximação ao carnaval brasileiro, sobretudo em zonas mais urbanas, em que as pessoas não fazem ideia do quão perto do ridículo estão quando expõem pernas e umbigo, ao léu, a meio do Inverno.

 

Máscaras do carnaval de Góis - Aigra Nova

Até Aigra Velha - Roteiro das Aldeias do Xisto

 

Foi em Aigra Velha, depois de umas curvas que vão subindo no sentido do Trevim, que passa em muito os mil e duzentos metros de altitude, que encontrei o inesperado. Aigra Velha está meio abandonada e não me pareceu que, mesmo noutros tempos, tenha tido muito mais movimento do que aquele que hoje mal se vê. Escreve-se num placar à entrada da vila que as casas tinham ligações interiores entre si e que havia apenas uma rua na aldeia. Esta era fechada ao exterior porque, vou citar, por aqui andaram lobos. Digo eu que essa disposição foi a forma que arranjaram de proteger o gado da boca desses carnívoros que agora só se conseguem achar mais a norte. Esta relação vingativa entre pastor e lobo ibérico é bem observável a norte do Douro, onde assisti a grupos de pessoas queixarem-se das ovelhas e carneiros que já tinham sido abocanhados por ataques furtivos de lobos. Mas continuando que o Douro já lá vai. Tentava procurar o início e fim da tal ruela única de Aigra Velha e avistei um senhor de cabelo branco, com a pêra mais saliente que o resto da barba, camisa axadrezada, mangas arregaçadas, a transportar lenha e erva num carrinho de mão, daqueles com roda destacada na frente. Vive ali sozinho com a mulher mas ela estava fora. Têm a aldeia inteira para eles.

- Faço hoje um mês desde a última vez que saí daqui para ir à Lousã - disse-me ele.

Queria conversa, claro. Ouvi-o antes a falar com a cadela, a Patusca, e a pedir às galinhas que saíssem da frente. Nessa altura, ainda não se tinha apercebido de mim. Foi quando me viu a pisar uma pequena descida com rede de arame à esquerda e à direita, a separar terrenos aráveis de terra batida, que o vi sorrir. Gente, deve ter ele pensado no aceno que me deu. 

Fiquei umas boas duas horas à conversa. Chegar a Pena tornou-se impossível. Que se lixe. Valeu a pena.

 

Eu e o Dinis - Roteiro das Aldeias do Xisto

Rua dos Carvalhos - Aigra Nova

 

- Então mas sempre viveu cá?

- O meu cunhado sim. Entretanto ele morreu. E vim para cá com a minha mulher. Tinha umas terras ali para a Lousã, mas regar aquilo ficava muito caro. Há lá batatas que nunca viram água. Aqui é de borla ou quase. Tenho a horte e trouxe o gado todo para cá.

Mostrou-me a casa, parcialmente reconstruída.

- Está a ver ali, aquele tejadilho novo?

- Estou, estou.

- É aí. Vivemos na sala porque o quarto ainda não está em condições. Recuperámos a sala e a cozinha.

Era, das casas centrais, a única que parecia habitável. 

Conversámos como se faz em mesas de café a jogar à moeda. Eu sobre a viagem, ele sobre o que era viver ali.

- A minha mulher foi a Góis e pedi-lhe para comprar lâminas de barbear. Trouxe-me cinco daquelas descartáveis que não dão para nada. Os pelos enfiam-se ali no meio… Usei duas para o lado esquerdo e duas para o lado direito. Percebi que já não dava para o resto e deixei a pêra.

Depois contou-me uma pequena história de uma pessoa que conhecia de Gouveia, quando lhe falei que o meu lado paterno era de lá.

- Não sei se o senhor conhece. Era um gajo que se ia matando num acidente de carro. Devia estar numa mudança alta, e não o conseguiu agarrar numa curva. Espetou-se numa árvore. Safou-se dessa. Uns dias depois estava no cimo de um poste de electricidade, deve ter trocado lá uns fios, apanhou um choque e morreu. 

Começou-se a rir e eu fui com ele. É saudável um tipo rir-se de coisas sérias.

- Isto quando um gajo tem de morrer, não há volta a dar.

Durou muito mais tempo. Até quase ver que o céu estava a mudar de cor. E só aí lhe perguntei o nome.

- Coriolano.

- Ricardo - respondi eu a esticar a mão -, e da próxima vez que cá vier falamos novamente.

- Sim, não há como não dar comigo.

 

A Lousã veio tarde. Amanhã dou-lhe uma achega.

 

Com o Senhor Anselmo - Aigra Velha

Senhor Anselmo a falar da aldeia - Aigra Velha

Praça Cândido dos Reis - Lousã

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por Ricardo Braz Frade às 21:06


2 comentários

De helena a 29.11.2012 às 14:30

Antes de ler o texto vi as fotos e pensei, "o Dinis ali sozinho no meio da estrada corre perigo de ser abalrroado", agora sei que não.

Bonitas fotos.

Um abraço

De Ricardo Braz Frade a 29.11.2012 às 21:52

Não se via ninguém na estrada Helena. Em 20 kms apanhei uma mota.

Um abraço.

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