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Qual crise?

Estas são conversas de um país que, estando em crise, vive apesar dela. Neste espaço fala-se de um Portugal que ainda consegue ser belo, de um GoCar feito playboy e de uma viagem que sempre quis fazer.



Terça-feira, 30.10.12

De Idanha-a-Nova a Penamacor

Ermida da Nossa Senhora do Almurtão - Senhora do Almurtão

 

Antes do envelhecimento até Idanha-a-Velha há um corte que se pode fazer à direita para visitar o cabeço da Senhora do Almurtão, sítio de romarias e devoções apaixonantes, especialmente por alturas da Páscoa, com uma ermida ao fundo de um terreiro calcetado. É epicentro de várias lendas de aparições da Virgem, transversais a todo o país, e normalmente com o mesmo desfecho, onde a sua imagem é encontrada e levada do ponto onde foi achada para outro qualquer, e na noite seguinte, sem razão aparente, regressa ao sítio de origem. 

É também, e aqui há novidades, motivo para uma canção pegada por vários artistas portugueses. Lembro-me de achar a música no primeiro álbum a solo da Teresa Salgueiro, disco em que a vocalista vai ao fundo da terra, e pensar que já a tinha ouvido algures. Soube nessa altura que era um tema do cancioneiro tradicional da Beira Baixa. Tem uma toada patriótica muito forte, até invulgarmente forte, mas ainda assim típica de algumas canções raianas, que existem também nos montes transmontanos - quando lá puser pé, vou a essas -, e canta versos contra a hegemonia castelhana: Senhora do Almurtão, ó minha linda raiana, virai costas a Castela, não queirais ser castelhana. Temos versões da "Senhora do Almurtão" em vozes de referência da música popular, como a do Zeca ou a da Dulce Pontes. Mas para levar o assunto a sério, o melhor é ouvi-la das bocas de onde nasceu, dos agudos estridentes das adufeiras, esses cantos femininos do além abafados pela gravidade do som rítmico dos adufes. 

Estando lá, defronte da ermida, vi que a imagem da Senhora está realmente a virar costas a Castela. Pespineta, a menina. 

 

Vivendas - Idanha-a-Velha

Forno Comunitário - Idanha-a-Velha

Pelourinho - Idanha-a-Velha

 

Idanha-a-Velha é velha. É velha em tudo. Na cara, no corpo e na alma. Pena que uma aldeia destas, uma semente romana onde quase toda a pedra tem uma boa novela por contar, não arranje sítio onde um tipo possa adormecer. Nem um café em que se possa fazer umas vontades ao bucho. O forno comunitário também não funcionou, que, pelo que falei com uma senhora no largo principal, só abre ao fim de semana. Se capta visitantes - que capta, eu bem os vi hoje, e estamos numa Terça-Feira de final de Outubro -, dá-me uma comichãozinha irritante não haver quem os receba. Aproveito esta Idanha para falar de uma outra viagem que se pode fazer e que cruza a aldeia. Desconhecia um trilho transeuropeu que vai da Torre de Belém, em Lisboa, até Constanza, na Roménia. Fiz-lhe uns metros hoje, e pensei num futuro que uma viagem destas me poderia reservar. A ver.

Deixei a aldeia. Não tive outro remédio. Passei por Medelim, de casas com alpendres e portas ao cimo de escadas, bonita e sem barulho. Medelim fez-me sorrir, quando a dona do restaurante me disse que não tinha internet mas que a filha tinha, como se isso me ajudasse. Depois a Aldeia de João Pires e a seguir a Aldeia do Bispo, qualquer uma delas a merecer dezenas de fotografias se arriscarmos direitas para lá fora estrada nacional e formos ao pulmão das povoações. E mais à frente a vila de Penamacor, uma Monsanto menos talhada, bela, tão bela que dava para casar e fazer-lhe promessas de eternidade. Cá moro, de momento, numa casa que tem o cheiro do cavaco queimado em salamandra. Escreve-se. Está bom, o frio. É quase Inverno.

 

Túnel de árvores - Aldeia de João Pires

Cristianização de rocha à Nossa Senhora do Bom Caminho - Aldeia de João Pires

 

Amanhã não sei se vou ter tempo para falar da noite de 31 de Outubro. Vou-me adiantar um dia e dar-lhe umas achegas hoje, porque, ao contrário do que muita gente pensa, eu tenho-a como folclore, e folclore de Portugal. 

Aquele que para alguns - talvez a maioria - é olhado com desdém e tem o nome de Halloween é uma tradição europeia, genericamente, e portuguesa, em particular. Já lá chego. Antes de mais, faço a ressalva de que as festividades da passagem de Outubro para Novembro podem ser, actualmente, uma americanice, mas há que não esquecer que o dito foi levado em bagagem irlandesa e escocesa da europa para a américa. Por lá sofreu alterações que o tornaram num fenómeno de vendas, e agora está a voltar da américa para a europa num formato que pode ser comercial, é certo, mas que não perde o rasto das origens. 

Se o embrião do Halloween é cristão ou pagão, podemos pôr em discussão. Na minha opinião, é pagão. Mas mesmo que, repito, mesmo que, se admita a hipótese de ser cristão, isso não invalida o facto de ter na europa ocidental as suas mais antigas comemorações. 

Uma coisa é certa: o nome halloween vem da cristianização da data - all hallow's eve, a véspera de todos os santos, que corresponde preto no branco ao dia anterior a 1 de Novembro, o dia em que os católicos comemoram, lá está, todos os santos. Outra coisa é igualmente certa: nesta noite os povos pré-cristãos da europa ocidental comemoravam a passagem de ano - acabava a estação quente, iniciava-se a fria. Entre o pôr do sol e o seu nascer no dia seguinte, acreditava-se viver uma época de ninguém, sem marcas temporais, onde imperava o caos e tudo era permitido. Uma espécie de carnaval invernal. E infernal. O registo era esse e assim se mantém, na actualidade.

Agora vamos às afinidades com o que anda por cá, na mesma altura do ano.

Na origem das máscaras do Halloween reside a crença de que nesta noite os mortos desciam à terra. Por aqui, dois dias depois, na tradição religiosa portuguesa, celebra-se o dia de Finados ou dos Fiéis Defuntos, em que se presta o culto aos mortos. 

Também no dia 1 de Novembro, e isto presenciei eu, diversas vezes, em casa dos meus avós, os miúdos batiam às portas das aldeias pedindo o chamado pão por Deus, e caso os adultos não dessem comida às crianças, estas lançavam-lhes uma praga em cima. Se formos ao Halloween, e podemos ver isso em centenas de filmes, há bandos de gaiatos que andam a correr pelas ruas das cidades e perguntam, batendo nas portadas das moradias, trick or treat?, doce ou travessura?, sendo também lançada uma maldição a quem não os brinda com rebuçados e afins.

Mas há mais. Se nos concentrarmos nos repositórios de ancestralidade em Portugal, vulgo Trás-os-Montes e Beira-Alta, achamos festas, algumas delas ainda celebradas, onde as semelhanças com o carácter desregrado do Halloween são evidentes. Li recentemente, numa transcrição de um texto do Leite de Vasconcellos, que em Mondim da Beira havia uma crença de que as almas fazem na noite de todos os santos uma procissão. Há pouco tempo fez-se também uma reportagem - é só procurar, ela anda no mundo on-line -, na aldeia de Cidões, que acompanhava a festa do canhoto, onde a desordem e o tempo caótico que se vive é em tudo similar ao que é celebrado do outro lado do atlântico.

São coincidências demasiado coincidentes para fazer vista grossa.

Isto como nota para alguns puristas que vêem no festejo do Halloween uma aparente importação de uma tradição que nos é estrangeira - e que a meu ver, como expliquei, não é. Eu vou festejá-lo. Não vem mal algum ao país. Pelo contrário. Só lhe faz é bem.

 

Rochedo na muralha - Penamacor

Torre de Menagem - Penamacor

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por Ricardo Braz Frade às 18:43


3 comentários

De mago a 31.10.2012 às 12:48

E' sempre importante virar as costas a Castela.

Em relacao a Idanha-a-Velha, e' de facto pena que se tenha tornado velha ao ponto que descreves... Mas e' para la' de belissima. Pode ser que aproveite efeitos colaterais positivos da excelente iniciativa da sua "irma" a-Nova (http://www.cm-idanhanova.pt/conteudos/default.asp?ID=174&IDP=172&P=62).

De resto, esse caminho ate' Constanza cheirou-me a desafio, e sendo esse o caso: challenge accepted.

Abraco, e agora que venha Monsanto.

De helena a 31.10.2012 às 17:49

Tenha, então, uma boa noite de Halloween.

Um abraço

De Ricardo Braz Frade a 01.11.2012 às 14:55

Tive-a sim. Obrigado. Um abraço.

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