Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Qual crise?

Estas são conversas de um país que, estando em crise, vive apesar dela. Neste espaço fala-se de um Portugal que ainda consegue ser belo, de um GoCar feito playboy e de uma viagem que sempre quis fazer.



Sábado, 27.10.12

De Castelo de Vide a Nisa

Tanque de água e lavandeiras - Castelo de Vide 

Fonte - Castelo de Vide

 

As fontes são boas para tagarelar. Tenho reparado nisso. A que está já fora da vila de Castelo de Vide, mas bem próxima, tem costas largas e um tanque por trás. No tanque reúnem-se mulheres a lavar roupa da casa e a pôr a conversa em dia. Os homens mais facilmente os encontramos na parte da frente, junto às bicas, de onde recolhem a água para garrafões de plástico de cinco litros. Quando cheguei estava a abarrotar. Tinha fila. O aviso está lá, a encarnado, bem visível, a explicar que aquela água não é controlada. Ninguém faz caso disso.

- A Câmara antes fazia análises a esta água. Agora deixou-se disso e pôs esta placa para poupar dinheiro.

- Mas a água é potável? Pode-se beber?

- Se se pode beber? Eu moro em Portalegre e olhe que não bebo outra. É das melhores que há.

Virei-me para a bica, inclinei-me sobre ela, pus as mãos a formar uma concha e dei dois ou três tragos. 

- Então? É boa ou não é? - perguntou o homem, na expectativa.

- É boa sim senhor.

E era. Fresca, mesmo muito fresca. Parecia neve a entrar-me na boca.

- Pois claro que é. Então em Castelo de Vide onde é que há espaço para ela se estragar? 

E falou-me depois de como a vila tinha entrado na moda, recentemente, por causa de filmagens para a televisão. Disse que não sabia que filmagens eram essas e ele ficou espantado por eu não ir á bola com telenovelas. 

- Há uma que é gravada aqui - explicou ele.

Respondi que não fazia ideia, que mal ligo a televisão e que quando o faço é para uma de duas coisas: ou ver notícias, ou ver desporto. Que sou cinéfilo e isso já me consome tempo suficiente. Que não vejo novelas, nem séries americanas, nem reality shows. Que não tenho nada contra, só acho que cria uma dependência parva e eu não a quero ter. E que para isso bastam-me a bola, o rugby e os telejornais. Ele percebeu, com um encolher de ombros. 

 

Anta de Coureleiros - Castelo de Vide

Igreja da Misericórdia - Alpalhão

 

De mão dada com Castelo de Vide, passei por uma anta, de um total de quatro que há no parque. São as antas dos Coureleiros. Está virada para Este, o lado nascente, de onde o sol cresce para invadir o espaço interno de luz. Portugal tem molhos delas, e molhos de menires a acompanhar. E tenho a certeza que há outros mais por descobrir. Só nestas paragens do interior sulista, perdemos-lhes a conta. É engraçado entrar neste mundo, em que o feminino e o masculino são imaginados na pedra e partilhados com a natureza. Das antas temos a energia feminina, com a representação do órgão sexual da mulher. Dos menires a masculina, com a caracterização nitidamente fálica que apresentam. Daqui, acreditava-se criar uma harmonia espiritual entre o Homem e o que o envolvia. Dantes, passava-se assim.

Alpalhão é ali bem perto, já excluído da zona do Parque da Serra de São Mamede. É o que ainda sobra do alentejo. Tenho pena de já não poder ouvir-lhe o Descante dos Noivos que o Giacometti gravou nas suas vastas recolhas musicais que fez pelo país. Ainda por cima, sendo Sábado, seria dia provável para o ter à mão. O casamento de Alpalhão tinha uma versão alternativa. Não era como os outros. No dia em que os noivos ficavam oficialmente casados, os convidados dirigiam-se à casa onde pernoitavam, já depois do jantar, e cantavam-lhes versos de boa fortuna, primeiro à mulher, depois ao homem: era o Descante. Segundo o que li, as pessoas só davam de frosques quando ele, o recém-casado, lhes trazia carne e vinho. Seria este, portanto, o preço para a noite bem passada - grande eufemismo, este - com a mulher que desposou. Há tradições que se perdem porque não têm a carga simbólica necessária para que novas gerações lhes peguem. Outras que têm tanta força que nem a tecnologia e décadas e décadas de velocidade industrial conseguiram abater. E ainda outras que se esquecem e se relembram anos mais tarde, ressuscitando com novo folgo. Em que categoria é que o Descante dos Noivos está, não consegui perceber. Espero que fique. Mesmo mudado, que vá ficando.

 

Outro mistério - Alpalhão

Casa e banco de jardim - Nisa

 

Entre Alpalhão e Nisa encontrei outra pedra que fala. Foi quase por engano. Fica numa propriedade privada, com acesso proibido, e que eu interpretei de outra forma. Passei por um muro de pedras soltas e saltei por cima de um arame farpado que me rasgou a camisa e feriu a barriga. Está a cerca de trinta metros da estrada principal, do lado esquerdo de quem se dirige para norte. A rocha tem uma forma arqueada, esquisita, e é bem larga. Está disposta na vertical, e tem uma cruz de ferro no topo. Não está cartografada, nem tem placas a indicar-lhe o caminho. Desconheço-lhe o nome e desconheço sequer se ela o tem. Mas há-de carregar alguma importância pelo crucifixo que lhe cravaram em cima. 

Despeço-me hoje do alentejo, em Nisa. À hora de jantar, lá irei ao queijo, que é da praxe. Vou aproveitar para respirar os últimos ares alentejanos, que aqui já têm brisas beirãs. Falando de Nisa, é bom notar que há castelos que não fogem às pessoas, ou vice-versa. Aqui, o que resta das muralhas e torres castelares dissolve-se no quotidiano. E mais que a Igreja Matriz, espevitada nas torres de telhado cónico, é a torre do relógio que se faz notar. Vejo-a daqui. À noite, se a iluminarem, fica o sítio para onde todos olham, de certeza. Ficarei atento ao mudar da hora, daqui a pouco.

Para o fim guardo uma notícia triste. A Árvore da Mentira, ícone da vila, assim chamada por lá se juntarem pares de namorados, que ali debaixo, na sua sombra, diziam as maiores mentiras de amor uns aos outros, foi cortada. Agora está envernizada, feita unidade de exposição de arte contemporânea. Dar cabo de símbolos já é mau que baste. Terminar com a vida de uma árvore que tinha o bem humorado desplante de ser conhecida pelos maus namoros que abrigava, é crime. Se havia solução para ela que não a morte, tenho um pequeno e construtivo comentário a fazer a quem se lembrou de acabar com ela: vão bardamerda.

 

Torre do Relógio e Igreja Matriz - Nisa

Árvore da Mentira - Nisa

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Ricardo Braz Frade às 18:54


5 comentários

De Diogo Martins a 27.10.2012 às 19:28

Pode ser que o queijo te resguarde dos dissabores da tal árvore que foi cortada.

Hoje se calhar ainda vou ao Tasco, bebo uma por ti.

Aquela abraço e continuação de boa viagem.

P.S: Dá uma palmada na "nalga" do Dinis!

De Ricardo Braz Frade a 28.10.2012 às 21:03

O queijo era óptimo. Melhor do que o de Nisa que como em Lisboa.

Palmada dada.

Um abraço.

De Diogo Martins a 28.10.2012 às 22:45

Sabes que em Nisa é Nisa, não é a mesma coisa que comer um daqueles de qualquer grande superfície comercial. Mas aproveita ai bem isso.

De Anónimo a 09.11.2012 às 17:06

Cuidado a entrar em proriedades privadas cercadas por arame farpado. Não vá aparecer um cão feroz, ou pior, um touro enraivecido.

Grande abraço

LL

De 3picuinhas a 19.09.2013 às 10:19

E eu que conheço tão bem estas paragens gostei de as ver descritas por um olhar diferente. E tem toda a razão: bardamerda a quem corta árvores que se enraizaram nos dias, manda calcetar praças e jardins onde o pó sempre foi companheiro de quem os usa, bardamerda à música ambiente quando o que se quer é o restolhar da folha e o cante do sotaque de quem por lá vive.

Comentar post




Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.