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Qual crise?

Estas são conversas de um país que, estando em crise, vive apesar dela. Neste espaço fala-se de um Portugal que ainda consegue ser belo, de um GoCar feito playboy e de uma viagem que sempre quis fazer.



Sexta-feira, 26.10.12

De Portalegre a Castelo de Vide

Muro em pedra - Serra de São Mamede 

Dinis em esforço - Serra de São Mamede

 

Se Portalegre já é norte-alentejo, com o norte sublinhado, aqui alentejo é só mesmo referência geográfica e pouco mais que isso. As estradas fazem-se a subir, sempre a subir.

A flora foi mudando à medida que me guiava para norte, em direcção a Marvão, com os sobreiros a serem substituídos por árvores de outra envergadura: são pinheiros e castanheiros e carvalhos a mudarem tonalidades e a verdecer uma paisagem que se vai tornando mais atlântica que mediterrânea, com a bruma a esconder cumes inalcançáveis e o vento a trazer frio do norte. E então ele revela-se. Nada nos prepara para a primeira vez que vemos Marvão, autoritário e sem cerimónias, quase a novecentos metros de altitude, e nós uns duzentos abaixo. Aqui, manda ele. O que disse há cerca de uma semana sobre Monsaraz não chega. Adoro Monsaraz, que isso fique gravado em pedra. Monsaraz é poética, é um soneto de amor, uma princesa que inspira canções e a cor do Verão. Marvão não é nada disso. É escarpado, musculado, masculino. É uma prosa épica ou uma epopeia ou boa literatura de um género qualquer próximo do fantástico. Monsaraz pede vinho branco e Marvão obriga ao tinto. Uma cheira a esteva, o outro a pinha. Esqueçam tudo o que ouviram sobre Marvão. É mais bonito do que o que vos contaram. Esqueçam tudo o que estou para aqui a escrever também, é pouco e sabe a nada. Tem de se ver. Tem de se vir. Saramago escreveu que quem o pisa consegue ver o mundo. Se calhar foi o mais próximo que as palavras lhe fizeram justiça - pequena, mas ainda assim, justiça.

 

 Chegada a Marvão - Marvão

 

Vista para Marvão - Serra de São Mamede

Escadas da muralha - Marvão

 

Se sairmos das muralhas e começarmos a descer a única estrada que de lá sai, encontramos à direita o Convento de Nossa Senhora da Estrela. Diz a lenda que os Visigodos esconderam aqui objectos de devoção cristãos antes de se retirarem para as Astúrias, a franja ibérica que os sarracenos não conseguiram vencer. Mais tarde, com o reino de Portugal já formado, um pastor viu o brilho de uma estrela no monte e, quando a procurou e achou, percebeu que se tratava de um desses objectos, uma imagem de Nossa Senhora, que ficou assim Nossa Senhora da Estrela. O que é daqui verdade, sabe-se lá. Enigmática é a cruz que alçaram num penedo limite, a cerca de vinte metros do convento, onde em um passo vamos ao precipício. Mal olhei para ela pensei em antigos ritos religiosos que ali devem ter sido feitos, em religiões longínquas, e que agora também o são, com outras roupagens. Fui pesquisar e existe, obviamente, uma romaria que termina aqui. Não tem como enganar. Quando se se dá ao trabalho de se meter uma cruz em sítios que não lembram ao menino Jesus, é porque houve ali sinais de veneração a outros Deuses. E a verdade é que sentimos que ali conversamos com o céu. Se não acreditarmos em Deus, fazemos Deus de nós próprios, porque sim, porque aqui é válido sentirmo-nos reis do mundo.

 

Vista para a serra - Marvão

Cruz junto ao Convento de Nossa Senhora da Estrela - Marvão

 

Se houver escolha, é preferível ir primeiro a Castelo de Vide e depois a Marvão, para irmos em crescendo. Há muita beleza em Castelo de Vide mas não é o apogeu. Como apanhei a serra pela encosta virada a sul, acabei por fazer o inverso. É bom na mesma, só não é o melhor.

Agora, Castelo de Vide. O actor principal é o castelo, no cume. Nisso, nada de novo. Mas a circulá-lo há novidades, quando começamos a notar qualquer coisa de Beira por aqui. A judiaria é boa comparação, com a sinagoga, modesta porque não podia ser mais que isso, e a fonte da vila, diferente, em mármore. Conhece-se a vinda de judeus de Espanha para Portugal, na altura em que o vizinho insistiu que eles eram mauzinhos e deveriam ser expulsos do país. Muitos fixaram-se na raia, sobretudo mais a norte, em Trás-os-Montes, Beira-Alta, Beira-Baixa e no Alto-Alentejo. Formaram-se bairros para eles, as tais judiarias, separados dos cristãos, e não raras vezes mal vistos pelo povo. São parte da história das vilas e cidades fronteiriças, mesmo depois de Espanha nos ter convencido a importar a Inquisição para cá. Alguns fugiram. Outros ficaram, obrigados a uma nova prática religiosa. O que é interessante ver em Castelo de Vide é que, não negando que tenha havido perseguições aos judeus - e acrescente-se que a zona judaica está na encosta menos banhada pelo sol, provavelmente arredores pouco apetecíveis, frios e nada acolhedores, onde ninguém queria ficar, e por isso cedidos aos mal amados judeus -, há indicadores de que as suas práticas foram, em parte, integradas nos costumes da vila. Isto é ainda mais notório no período da Páscoa, que segundo um dos bombeiros com quem falei, é a festa de Castelo de Vide, maior que o Natal. Ora, quem é que tem também a Páscoa como a primeira festividade do ano. Pois, voilá, os judeus. O Domingo Pascal em Castelo de Vide, sei-o agora, é um evento. Está fora do baralho e quem o vê, diz-se, não lhe acha grandes pistas de cristianismo. País curioso, este.

 

Vista para a vila - Castelo de Vide

Judiaria - Castelo de Vide

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por Ricardo Braz Frade às 20:45


6 comentários

De Gonçalo Gama a 27.10.2012 às 19:49

Caríssimo,
Um artigo extraordinário, que muito me orgulhou ler. Sendo de Portalegre e tendo passado grande parte da minha existência em Marvão peço-lhe o favor de alterar a forma como se refere ao dito cujo. Onde se lê ao Marvão deve ler-se a Marvão. Nós, os nativos, não percebemos essa experssão. Assim, na frase " flora foi mudando à medida que me guiava para norte, em direcção ao Marvão, com os sobreiros a serem substituídos por árvores de outra envergadura (...)", deve ler-se: "a flora foi mudando à medida que me guiava para norte, em direcção a Marvão, com os sobreiros a serem substituídos por árvores de outra envergadura (...)".
Da mesma forma que na frase "Nada nos prepara para a primeira vez que vemos o Marvão, autoritário e sem cerimónias, quase a novecentos metros de altitude, e nós uns duzentos abaixo." deve ler-se "Nada nos prepara para a primeira vez que vemos Marvão, autoritário e sem cerimónias, quase a novecentos metros de altitude, e nós uns duzentos abaixo."
É-nos profundamente irritante ouvir os nossos prezados visitantes referir-se dessa forma à vila.
Atente-se neste comentário o seu inerente sentido crítico profundamente saudável, sendo este um erro comum.

Agradeço-lhe mais uma vez o tempo e a atenção dispensada à nossa vila, bem como o regalo do pormenor. É sempre bem-vindo.

GG

De Ricardo Braz Frade a 27.10.2012 às 22:06

Caro Gonçalo,

Percebo perfeitamente o que diz e tome isto como um erro de leigo. A verdade é que, lendo o seu comentário, apercebo-me que nós, os de fora, dizemos Marvão como se fossemos ao norte, ou ao sul, ou ao céu. Nem consigo explicar bem tal coisa.

Tem toda a razão. Ficaria igualmente irritado se apanhasse alguém a dizer que ia ao Portugal.

Um abraço.

De mago a 28.10.2012 às 22:53

Pela amostra, em Castelo de Vide estava o chamado "tecto baixo"...
Abraco.

De helena a 29.10.2012 às 16:09

Não sou alentejana de nascimento mas sou de coração. Sou encantada pelo norte-alentejo e por Marvão em especial, "onde se vêem as águias pelas costas" e "se escuta o silêncio".

De cada vez que vou a Marvão, a frequência é uma duas vezes por ano, descubro sempre mais um recanto, uma foto, mais alguma coisa que não tinha prestado atenção, Marvão é para se descobrir calmamente, passeando sem pressas.

Belas fotos.

De Anónimo a 09.11.2012 às 15:59

Á ganda Dinis pá!!
Maquina infernal.

LL

De Ricardo Braz Frade a 09.11.2012 às 17:30

Porra, ainda vais aqui? Eu já ando por Trás-os-Montes pá.

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