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Qual crise?

Estas são conversas de um país que, estando em crise, vive apesar dela. Neste espaço fala-se de um Portugal que ainda consegue ser belo, de um GoCar feito playboy e de uma viagem que sempre quis fazer.



Quinta-feira, 25.10.12

De Elvas a Portalegre

Aqueduto - Elvas

 

O mau tempo não me deu descanso. A chuva era grossa e recorrente. Não era aquele chuvisco que areja. Foi dilúvio mesmo, impetuoso. O céu nunca deixou de estar carregado, sempre da cor do cimento, e fez-me mudar de roupa duas vezes em cinquenta quilómetros, uma em que aproveitei uma das paragens de autocarro com a cal do alentejo, outra em que tive do o fazer debaixo de uma oliveira, uma péssima árvore para alguém se abrigar, devo dizer. Quando passou estava inundado e a cinco minutos de Portalegre. Vi a vila de Arronches com um manto de chuva à frente, e pareceu bonita, para lá da cascata que estava entre mim e ela. Santa Eulália já foi melhor porque a pisei. Com muita chuva, é certo, mas calcar a terra é mais do que espreitá-la ao longe. O que fiquei a saber de Santa Eulália, e que vos posso dar de graça, é que a bomba de gasolina, já quase no final da vila, protege da chuva e tem restaurante e tem minis. Não é muito, mas ajuda caso apanhem umas horas bruscas e de má vontade como as que me vieram à sorte. Avisaram-me aí que as nuvens mais escuras estavam a caminho de Portalegre e já deu para perceber que estes opinanços do campo relativamente ao tempo estão quase sempre certos, tanto que já deixei de consultar o site de meteorologia e, em substituição, passei a ir ao jardim da terra para perguntar aos homens de boina e casaco de lã com losangos como é que acham que o dia vai estar. 

- Olhe que se se mete pela estrada de Portalegre vai levar com uma carga de água…

Certeiro. Na mouche.

 

Abrigo - Elvas

Praça da República - Portalegre

 

Já dá para ver que este alentejo é mais nortenho. Deixámos o âmago da província. Aquilo que um lisboeta imagina quando fala do sentir alentejano são migalhas em Portalegre. As casas com molduras nas janelas de cores garridas e rodapés berrantes são menos frequentes. A paisagem da planície é arrematada por serras verdejantes. O horizonte deixa de ir até tão longe e interrompe-se em silhuetas de colinas altas. O reinado do sobreiro está para terminar. As pessoas têm menos amor à lentidão e ao compasso. O vagar passa gradualmente de feitio para defeito. 

Estamos ainda além-tejo mas já acima de Lisboa - convém lembrar que o Tejo, tal como o Mondego, vai seguindo para norte à medida que andamos para montante, o que faz com que quanto mais para o interior, mais a norte tenhamos de estar para o atravessar. Daí a geografia nos dar aldrabices como a que muitas vezes é pensada e dita, ao se classificar, por senso comum, Portalegre como sul de Portugal e Lisboa como Centro, quando a primeira está bem mais a norte que a segunda.

Aliás, há um elo antigo entre as duas margens do rio, que acaba por ligar o distrito com as serranias lá de cima. São as transumâncias dos pastores oriundos de zonas setentrionais, como o Marão, a Estrela, ou a Gardunha, que vinham aqui parar, à serra de São Mamede, conforme a época e a constante procura de climas mais favoráveis indicava. Se calhar não é arriscado dizer que este alentejo vira costas ao outro alentejo, e começa a olhar para o norte, porque lá encontra uma imagem mais próxima de si.

 

Portas da Deveza - Portalegre

Sé - Portalegre

 

E Portalegre é mesmo cidade, sem falsas promessas. Já lhe vejo os tiques todos. Os carros encostam-se uns aos outros, parados, mesmo em praças e largos de história, e estão nas tintas para quem esteja de visita. Os rapazes e raparigas entre os vinte e os quarenta atestam imperiais até à hora de jantar, que é uma introdução à noite que chega depois, pelo que sei junto à Praça da República. O trânsito tem direito a buzina, e a táxi, e a insulto. A polícia tenta educar e ganhar dinheiro ao mesmo tempo, quando passa multas de uma ponta à outra, nas ruas em que os passeios são estacionamento. É o folclore citadino, tão relevante quanto o campestre, às vezes até desenjoativo da pasmaceira bucólica, em que a pressa de chegar e sair de um trabalho e a necessidade de fazer uma carreira se sente no pulso.

À margem desta desordem, da qual até já sentia alguma falta, fui às tapeçarias, que têm museu, junto à Sé. Esta arte de Portalegre sabe mais que as outras. Tal como em Arraiolos, aqui há o chamado ponto de Portalegre, que lhe dá uma marca de água que, vi eu, transforma a tapeçaria num quadro que parece, sem exagero, uma pintura. A passagem do retrato para o desenho a lã, se esquecermos o pormenor do aumento da escala, por vezes nem é perceptível. Consta-se que, por snobismo típico de quem não percebe patavina do assunto, esta forma artesanal, no seu início, nem convencia muita gente, que continuava a achar a francesa como a melhor - claro, sempre a francesa, esse bastião cultural não pode ser contrariado. Foi preciso qualquer coisa parecida com um blind test mas que não o é no próprio sentido literal das palavras, caso contrário ninguém via nada, para que a tapeçaria portalegrense fosse reconhecida mundialmente. 

 

Blind test da Tapeçaria de Portalegre (o da direita é o da cidade) - Portalegre

"A Bela Aurora", a minha favorita, no Museu da Tapeçaria - Portalegre

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por Ricardo Braz Frade às 19:27




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