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Qual crise?

Estas são conversas de um país que, estando em crise, vive apesar dela. Neste espaço fala-se de um Portugal que ainda consegue ser belo, de um GoCar feito playboy e de uma viagem que sempre quis fazer.



Quarta-feira, 24.10.12

De Estremoz a Elvas

A chuva perto de Estremoz - Glória

Castelo - Alandroal

 

Estes são os domínios de Endovélico, Deus da saúde e da terra, aparentemente celta, venerado em tempos pré-romanos. O roteiro megalítico faz-nos passar por várias obras milenares, já mal lembradas pela história, que picotam entre pequenas aldeias e vilas cujas gentes vivem abençoadas por estas pedras. Antes de mais, há que não cair na realidade de hoje, e perceber que elas, as pedras que hoje vemos como calhaus sem causa, foram antes as igrejas e conventos e catedrais de alguém. Têm vida e contam segredos. Claro que podemos meter as lentes da modernidade e vê-las como o que parecem ser, umas sequências de monólitos, apenas, mas quem o fizer corre o risco de se tornar mais empedrado do que aquilo que observa. 

Ir ao Alandroal e a Terena, vilas entroncadas e armadas de castelos da fronteira, ou à Aldeia das Pias, e ao Seixo, e aos Capelins, aldeias de gado e azinheiras e sobreiros em pastos ondulados, faz-me ainda não ter saudades da cidade e do barulho dos bares. Ou ao Rosário e a Ferreira, entre as quais há uma ponte que atravessa águas bentas chamadas de Ribeira do Lucefécit. E o Lucefécit, por si só, que vira albufeira mais a norte, e que continua carregado de mistério, a começar pelo nome ímpio que carrega. Lucefécit parece vir, e vem mesmo segundo alguns investigadores, de Lucifer, o portador da luz que mais tarde veio a ser satanizado por quem mandava no cristianismo até passar ao exacto contrário do seu real significado: o senhor das trevas. Se há perguntas quanto à heresia que estes campos representam para algumas almas mais beatas, o Lucefécit tira-nos as dúvidas.

Aqui, nestas paragens sagradas, o que era pagão transformou-se no que ficou cristão, mas ainda é muito de cada um. Fiquei a conhecer o alentejo do céu, por oposto ao alentejo da terra que andei a fisgar nos últimos dias.

 

Vista para o castelo - Terena

Ribeira do Lucefécit - Rosário


 

Túmulos Medievais - Rosário

 

E continuando nestas andanças fui ter à Pedra Alçada, junto à Aldeia das Pias, e que passarei a tratar por Pedra do Galo porque é assim que é conhecida nas imediações. Pedi explicações. Pelo que tinha lido, estava mal sinalizada e só com ajuda dos aldeões lá se parava. Disseram-me para voltar à direita depois da escola, seguir por um caminho de terra batida, e estar atento aos troncos das árvores nos montados, porque lá estão pintados os sinais até à Pedra. Duas barras paralelas, uma de cor amarela e outra encarnada, significam que o caminho está certo. Duas cruzadas, em forma de x, com as mesmas cores, que está errado. Tive de deixar o Dinis e seguir uns seis ou sete quilómetros a pé. E seguindo as tais indicações não há forma de um tipo se perder. 

A Pedra do Galo é um menir, ou poderá não ser. De uma só pedra, ou poderão ser duas. Não se sabe. Há quem diga uma coisa e há quem diga outra, o que dá jeito para alimentar o mistério. Passei por muito carneiro e muita ovelha até lá chegar. E quando parei, diante dela, e lhe topei o tamanho em metros, olhei para trás e pensei que faria o triplo da distância só para a ver novamente. 

É imponente, na largura e na altura. 

Se a olharmos como um bloco apenas, natural, caído do céu, não deixamos de a ver como imperial, muito acima da nossa condição. Dá cabo de nós tê-la por perto.

Se imaginarmos que estão ali dois blocos, bem encaixados por mão humana, feitos peças de puzzle, vamos acabar em mitos antigos associados a lendas de gigantes.

É preferível a incerteza.

 

Eu e a(s) Pedra(s) do Galo - Aldeia das Pias 

Perto da Pedra do Galo - Aldeia das Pias

 

Foi só pelas cinco da tarde que decidi ir para Elvas. Essa do Paco Bandeira cantar que Badajoz está à vista não é bem assim. Está aqui a roçar a periferia, e eu bem dei conta disso quando o telemóvel me fez ler uma mensagem que me dava boa viagem por ter chegado a Espanha, mas é preciso ter boa gradação para ir até Badajoz com ela. 

Conheci-a mal. Já cá tinha estado, das inúmeras vezes que aqui passei para rambóias no país vizinho, mas nunca a vivi, e temo que ainda não seja desta. Estou cansado e pelas pessoas que vejo na rua parece-me que Elvas se vai deitar cedo comigo. As muralhas, que se acham de bem longe, são de facto anormais, num sentido positivo qualquer que lhe queiram dar. Nem sei bem se tanta parede amuralhada significava que éramos de facto uma nação poderosa ou se estávamos mesmo com muito medo de Espanha. O centro histórico, que está de parabéns por ter virado património mundial da humanidade - já fez mais do que o de Lisboa, por exemplo -, enche o olho.

Talvez ainda vá dar uma volta. Talvez tenha mais para dizer sobre o que passei em Elvas. No dia depois de este.

 

Igreja da Nossa Senhora da Assunção - Elvas

À noite - Elvas

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por Ricardo Braz Frade às 22:20




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