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Qual crise?

Estas são conversas de um país que, estando em crise, vive apesar dela. Neste espaço fala-se de um Portugal que ainda consegue ser belo, de um GoCar feito playboy e de uma viagem que sempre quis fazer.



Segunda-feira, 22.10.12

De Évora a Arraiolos

Igreja - Ilhas

 

A dois quilómetros de Arraiolos há uma aldeia modesta, sem cremes nem botox, chamada Ilhas. Segue o declive moderado do monte até ao vale, o Vale Bom, proveitoso em águas. É bom espreitar porque mantém a tradição campestre do alentejo, com as pregas à mostra e sem vergonha disso. A igreja não está num largo, a commumente chamada praça central das vilarejas portuguesas, mas sim meio perdida no final de uma estrada que termina a poucos passos da planície. Até lá há cafés, fechados, e homens de idade acompanhados de cães a dizerem-me adeus. Acredita-se que foi povoada por gentes das ilhas, no caso, dos Açores, daí o nome. É conhecida a colonização que o arquipélago açoriano teve, sendo uma quota-parte dela de origem alentejana. Aqui está uma retribuição, em jeito de karma, com os Açores a exportarem mercadoria humana para o continente.

 

Vinha - Monte da Ravasqueira

Um branco em preparação - Monte da Ravasqueira

 

Provavelmente à mesma distância mas para o lado de lá da vila, há o Monte da Ravasqueira, terra de vinha e de vinho. A estrada de terra batida não foi simpática para o Dinis mas a flanqueá-la um tipo entretém-se com a paisagem, numa lagoa avizinhada de sobreiros, verde como o alentejo normalmente não chega a ser, e marcada por desenhos geométricos da parra a pautar distâncias. A adega está no piso térreo, depois de descermos quase tudo. À medida que se alcança, vem o cheiro. É terra e é uva e é mosto e é fermento. Experimentei vinhos em catadupa. Eles, o Pedro e o Vasco, enólogos, bebiam e cuspiam; eu, Ricardo, consumidor, bebia e engolia. Gosto muito de cerveja mas à cerveja falta-lhe a liturgia. É muito toma-lá-dá-cá. O vinho não. Tem rito. É religião. Dá gosto ver os pormenores corporais, ritualísticos, que antecedem o beijo que damos a um tinto. Na cerveja não damos beijos, damos linguados. Só o vinho merece o chocho.

Julgar um vinho é tão válido para um ignorante como eu, como para o homem que o fez. E houve um deles que me ficou, mais do que os outros, bons também. A cor tinha sex appeal, e isto importa. Nunca vi nenhuma crítica de vinhos falar em luxúria e espero ser pioneiro: garanto-vos que aquele era erótico. Tinha uma cor que deslizava no vidro feita pele de modelo. Era um vinho para homens porque tinha a volúpia de uma mulher. Sai para o ano que vem. Posso dizer que vi o trailer e promete. A fixar.

 

Igreja de Santo António - Arraiolos

Castelo - Arraiolos

 

Arraiolos e tapetes. Cá está a causa-consequência. Visitei lojas, e na "Arte em Casa" fui especialmente bem tratado. Houve conversa para encher e depois fui onde queria:

- O negócio vai bem?

- Não me posso queixar.

Apresentou-me às tapeçarias maiores e completou:

- Já há pouca gente a comprar destes - deixou cair o braço direito e com o esquerdo apontou para o outro lado -, agora vão para tapetes mais pequenos, como estes, e para outros produtos que fui fazendo.

Olhei à volta. Ali estava um excelente exemplo de diversificação de produto que qualquer académico de gestão ouviu falar na universidade. Com o exigente ponto de Arraiolos, que obedece a determinada aritmética, começou a fabricar, com os mesmos novelos de lã coloridos e o mesmo tipo de bordado, pequenas amostras, quadros, sacos e até pufes. É de gabar quem usa a imaginação para adaptar uma tradição aos objectos de uso comum, trazendo-os para um contexto cultural facilmente reconhecível. 

- E há cada vez mais turistas - acrescentou.

- Estrangeiros?

- Estrangeiros, sim, brasileiros. E portugueses. Agora com o preço das auto-estradas, muitos voltaram às estradas nacionais. Poupa-se dinheiro. Isso é que é preciso. Que voltem às nacionais para passarem por Arraiolos. Por mim que aumentem ainda mais as portagens.

É o lado de lá da crise, que tem benefícios mas que não fazem notícias de jornal.

 

Tapetes e pufes de Arraiolos - Arraiolos

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por Ricardo Braz Frade às 23:29


7 comentários

De mago a 23.10.2012 às 05:45

Desde que entraste no Alentejo que os comentarios... secaram. E' a maneira da malta que acompanha isto fazer parte do lado "pacato" da viagem?

Guarda a referencia desse vinho, que se sai para o ano sai bem a tempo de eu o provar quando ai' for.

E a ironia da ultima foto nao passou despercebida, todos aqueles tapetes e objectos variados e... um casaco da "United Colors". Touche'.

Abraco.

De PC a 23.10.2012 às 11:09

Grande Frade, apesar do silêncio nos comentários por essa tua aventura no Alentejo profundo, cá te vamos acompanhando. Um abraço. Vais dando cada vez mais motivos para se conhecer o Portugal que não se conhece.

De grasshopper a 23.10.2012 às 21:46

Olá Ricardo, encontrei o teu blog ao acaso no Sapo e espreitei para conhecer. Tá porreiro, dá-me vontade de sair por aí e dar a volta ao país também, que nem conheço assim tão bem... Mas tens passado pela zona que conheço melhor, alentejo (costa vicentina e interior). Muito bonito! Confirmo o teu cometário sobre o Tarro, muito bom bar! Boa sorte para o resto da viagem, abraço

De Ricardo Braz Frade a 23.10.2012 às 23:12

Caros, como disse no início deste post, estou com pouco sinal de net e já é a quarta vez que respondo sem efeito. A ver se é desta. Obrigado e um abraço.

De Anónimo a 24.10.2012 às 13:17

A igreja de "Santo António" - Propriedade da Sociedade Agricola D. Dinis (Monte da Ravasqueira é outra herdade também da Sociedade Agricola D. Dinis)

De Ricardo Braz Frade a 24.10.2012 às 22:18

Obrigado pela informação. Coloquei Arraiolos por ser o mais aproximado.

Abraço.

De Dylan a 24.10.2012 às 14:06

Gostei muito da descrição e da origem do nome da aldeia de Ilhas. Mande mais.:)

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