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Qual crise?

Estas são conversas de um país que, estando em crise, vive apesar dela. Neste espaço fala-se de um Portugal que ainda consegue ser belo, de um GoCar feito playboy e de uma viagem que sempre quis fazer.



Terça-feira, 16.10.12

De Loulé a Almodôvar

Fonte de água - Loulé

Pizzaria - Salir

 

Saber de antemão que para passar do Algarve para o Baixo-Alentejo, vindo de Loulé e atravessando a Serra do Caldeirão, sou levado até aos quinhentos e tal metros de altitude, quase seiscentos, fez-me dar uma palavrinha ao Dinis hoje de manhã. O Dinis hoje vai-se portar muito bem, não vai Dinis?. Foi assim que o acordei, com festinhas e em sussurro. Ele ouviu, tenho a certeza que ouviu, e não fraquejou. 

Até Salir faz-se bem, sem suores e sem esganar o punho ao carro. É uma aldeia típica já encaixada na encosta sul da serra, mas resolvi virar costas à tradição e entrar numa pizzaria singular: não vende pizzas até dia 18. Nem sei há quanto tempo está sem as vender. Se calhar desde o início do mês, não faço ideia. Isto porque quem as faz foi de férias e agora não há chef que trate delas. Que o cozinheiro adoeça pouco, espero eu, a bem da facturação. O rapaz do balcão era filho de portugueses a viver em Toulouse de forma que, à falta de comida italiana, falei de rugby francês, que é um produto substituto directo. Acabei por simpatizar com o espaço. Primeiro porque tinha um pequeno póster do "Laranja Mecânica" do Kubrick na parede à esquerda de quem entra. Segundo porque é preciso ter muita coragem para fazer uma pizzaria que não vende pizzas durante dias a fio, e eu admiro muito homens de coragem.

Começava a subida.

 

Rocha da Pena - Alcaria 

Vista para Oeste - Malhão

 

Sobe-se e sobe-se e de vez em quando desce-se só para preparar uma subida maior ainda. Lá em cima está a fronteira que deixa o Algarve ao qual já não volto para trás. Depois de Salir, olhando para Oeste, vemos um pico rochoso, a Rocha da Pena, a elevar-se nos ombros de outras colinas. Há sobreiros e oliveiras e medronheiros, alguns já na languidez do Outono. Houve alturas em que me senti na primeira carruagem que sobe a uma montanha-russa, daquelas que há em parques de entretenimento mais modernos que a nossa antiga feira popular, e de onde ouvimos o tec-tec-tec dos cabos inferiores a puxarem-nos até lá acima. De lá do topo, na vila do Malhão, despedi-me de ter sido algarvio por cinco dias. O palanque parece feito de propósito para isso. Ainda se trepa mais um pouco, uns metros adiante, até ao Pico do Mú, mas o aceno de adeus tem de ser feito antes, quando percebemos na paisagem que não há mais que aquilo.

Um parêntesis. Neste sítios existe normalmente uma ermida ou uma igreja a cristianizar um ponto de encontro religioso e normalmente pré-Cristão. Desta vez há um centro budista tibetano chamado Humkara Dzong. A entrada era livre, só não o visitei com medo do ataque de riso. Há uma tendência para acontecer quando sei que não o posso ter. O placar de informação, por si só, já me fez soltar uma gargalhada, e eu raramente me rio quando estou sozinho. Tinha dois sites errados, um número de telefone igualmente errado, e um e-mail com world peace no nome.

 

O cume do Caldeirão - Pico do Mú 

Canto - Curvatos

 

O serpentear pelos cerros abaixo a dar uma vista de cima sobre a planura do concelho de Almodôvar foi um repouso. Vai-se devagar, com vagar, que isto é Alentejo. Não há pressa e o sol parece não descer e ficar no ponto máximo durante rodadas de horas. As azinheiras, com aquele recorte de bonsai à escala natural, picotam os campos. Alisam-se os montes e nem o vento se quer dar ao incómodo de aparecer. Não admira que a dimensão do tempo seja outra. Perto da vila, num café de estrada, cantou-se. E Almodôvar chegou sem esforço algum. Vou descansar que hoje há noventa minutos de selecção. O futebol importa. O futebol importa tanto ou mais que a política porque pode trazer alegria e surpresa e a outra não. Portugal joga daqui a bocado e a Rússia ganhou a ferros. Entrei num restaurante que passa a bola enquanto de fundo se ouve o "Sei de uma camponesa", do Rui Veloso. Tem significado ouvi-la aqui, no alentejo mais alentejano. Enfeitada de tomilho, canta com a expressão, de quem vai ter um filho, mesmo pelo coração. Está feito. É aqui que me sento.

 

Planura - Almodôvar

Ponte medieval - Almodôvar

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por Ricardo Braz Frade às 18:00


2 comentários

De mago a 17.10.2012 às 03:56

O futebol nao comento. Ja' em relacao ao Humkara Dzong, apesar de achar que devias ter entrado `a mesma, a tua opcao foi claramente a opcao responsavel - fazendo uma pesquisa rapida no google, aparecem os seguintes resultados:

1) um video intitulado "Os budistas do Malhão";
2) esta foto: http://www.flickr.com/photos/pestanarui/4405336314/

Abraco. Ou entao um cumprimento budista: http://www.flickr.com/photos/pestanarui/4405369720/

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