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Qual crise?

Estas são conversas de um país que, estando em crise, vive apesar dela. Neste espaço fala-se de um Portugal que ainda consegue ser belo, de um GoCar feito playboy e de uma viagem que sempre quis fazer.



Quinta-feira, 11.10.12

De Vila Nova de Milfontes a Aljezur

Pátio - Odemira


Vista de fora - Odeceixe

 

Milfontes deu-me o primeiro bar a sério. Já faz lembrar a marina de Vilamoura. Tem duas empregadas, uma portuguesa, de pele pálida e cabelo escuro, engraçada, e uma alemã, rosada e loira e onde cabiam dois de mim, não tão engraçada. Passavam o álbum "Wolfgang, Amadeus, Phoenix", que eu tanto gosto, com canções de dia azul e noite estrelada. 

Sentei-me ao balcão. Não há nada mais deprimente do que estar sozinho à mesa. Quem vem sem companhia, santa-se ao balcão, manda a norma, e daí tenta falar com alguém, ou com eremitas como nós que tenham escolhido a mesma coisa, ou com quem está em trabalho do outro lado da madeira. Eu, pessoalmente, prefiro chatear o segundo grupo, o que anda a servir copos. Os da minha laia, que estão do lado de cá, têm demasiado vagar e uma conversa num bar, para sair bem, tem de acompanhar o ritmo da pressa, a despachar. Aqui vai uma excelente experiência social que tive ontem com a menina do balcão:

- É a última se fazes favor, a abaladiça, para me ir embora. Hoje já fui até mais longe do que devia.

- Ok.

- Esta tem mesmo de ser a última, que amanhã abalo quando o galo começar a cantar. Isto cansa, viajar todos os dias. Ando a dar a volta ao país.

- Ok, sirvo-a já.

Enchem-me o copo, até três quartos, e sigo:

- Pois, é que não posso mesmo beber mais nenhuma senão fico aqui a noite inteira e ainda me dá para conversar. Depois amanhã deixo-me adormecer e não estou para pegar no carro às três da tarde.

- Ok, como quiser.

- O carro até é diferente. Não é bem carro. É híbrido, entre o carro e a mota. Todo amarelo, descapotável e tal…

- Ok.

- É que isto das cervejas vão fazendo um tipo ficar. E depois no dia seguinte quem é que ouve o despertador? Ninguém. Eu não ouço de certeza. Calo-o logo. Ainda por cima o caminho é longo, percebe?

- Sim. O melhor é ir-se deitar.

E saio dali com a sensação de que ela me achou piada. Os bares fazem isto, empolgam as coisas e convencem-nos com mentiras. Daí as bebidas e as tostas serem mais caras. Tudo se paga.

 

Praia da Amoreira - Aljezur


Enternecida homenagem de uma Mãe para um filho que aqui morreu - Aljezur


Castelo - Aljezur

 

Durante a tarde tive pouco a acontecer a não ser o facto de estar queimado em todo o lado da cara excepto na forma que os meus óculos tomam à volta dos meus olhos. É o chamado bronze de neve.

Mais tarde, em Aljezur, terra algarvia mas só como referência geográfica, os ventos entram serra abaixo, pela zona de Monchique, e são frios e trazem chuva. Está longe das areias quentes e secas de Monte Gordo e das directas de trinta graus até às sete de Albufeira. O Algarve vicentino é fresco. Tem maresia. Constipa. Faz assoar. Encontrei um grupo de sessentões a contar anedotas e a cantar populismos. Um deles, o Chico Mata-Burros - parece que ninguém matava burros como ele, e falo a sério, de uma só degolada, segundo testemunhos -, acompanhava na gaita de beiços, o que lhe valeu a alcunha posterior de Chico, o Poliglota da Gaita. Poderão achar que estou a inventar um argumento para documentário de esquina mas garanto-vos que não. Na parte séria, contaram-me de Angola, nos tempo da guerra, e da altura em que fizeram o 25 de Abril. Depois voltavam à música - chico, toca lá aquela da gaivota, e o chico tocava. A interromper a cantoria, um pastor deixou as vacas irem rio abaixo, enquanto ele, do lado de cima da ponte, via se elas iam para o sítio certo. Elas seguiam, com som de chocalhos a baterem-lhes ao pescoço, e o pastor juntou-se no fim, depois das duas pontes terem ficado para trás.

- Veja lá se tem disto em Lisboa… - disse um dos que estava comigo.

- Não tenho, não - e corri à procura de uma fotografia que mal consegui.

 

Cisterna do castelo - Aljezur

 

 

Transumâncias - Aljezur

 

Ia-me esquecendo da praia da Amoreira do outro lado da encosta. É bom estar lá, mas é melhor ir até lá. Vemos atrás, do lado direito e do lado esquerdo, as serras que separam e isolam o Algarve. Até tempos bem recentes, foram elas a fronteira natural do Reino de Portugal para o Reino dos Algarves, que sempre se fez questão de pôr de lado até acabarem com a monarquia e unificarem a República Portuguesa. É difícil distinguir, neste cruzamento de acentuação, o que é sotaque algarvio e o que é sotaque alentejano. O que vi e ouvi, do mesmo grupo com quem acabo agora o jantar, foi o troçar do sotaque da raia, ali para os lados de Fronteira e Barrancos.

- Aquela gente não sabe que língua fala - diz o Chico Mata-Burros -, eles até ao meio-dia falam português e à tarde falam espanhol.

Daqui em frente não haverá dúvida. O que ouvir em português é Algarve. O que não ouvir em português é turismo.

 

A canção da gaivota - Aljezur

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por Ricardo Braz Frade às 23:53


1 comentário

De Anónimo a 15.10.2012 às 11:45

Olá Campeão,

Não sei se o convivio com as pessoas mais velhas, do Portugal profundo são por nesses locais não haver bares com pessoal mais velho, se por opção. Aposto a minha orelha direita em como é por opção. Boa escolha, assim não ficas sem resposta (como no bar de Milfontes) e sempre tens umas boas histórias para contar.

Continuação de boa viagem.

Abraço

LL

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