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Qual crise?

Estas são conversas de um país que, estando em crise, vive apesar dela. Neste espaço fala-se de um Portugal que ainda consegue ser belo, de um GoCar feito playboy e de uma viagem que sempre quis fazer.



Segunda-feira, 03.12.12

Da Terruja de Santo Estevão à Nazaré

Estátua da Padeira - Aljubarrota

Painéis de azulejos - Aljubarrota

 

Alcobaça e Aljubarrota. Uma viu nascer um mosteiro nos primórdios da fundação do território nacional, quando ainda nem se sabia muito bem onde terminava Portugal. Outra foi palco da batalha mais popular da história do país  - o facto de a termos ganho, e em inferioridade numérica, adicionado à importância que ela teve na independência, contribuiu para lhe aumentar a fama. 

Quem vem da Serra de Aire passa primeiro em Aljubarrota, e lá vê um conjunto de painéis de azulejos que ilustram a lenda, bem como a estátua, com formas meio cubistas, de Brites de Almeida, a Padeira, que se diz ter ajudado o exército português. Conta-se que era Algarvia e órfã, e que toda a gente tremia só de a ver, por ser feia e briguenta, chegando a ser procurada pela justiça, o que a fez emigrar para Castela. Aí foi maltratada e usada como escrava. Tornou, por isso, a Portugal, e viveu disfarçada de homem para que não a reconhecessem, até aceitar por fim, ao final de décadas, o trabalho de padeira em Aljubarrota. Foi de lá que ouviu os sons de guerra e, lembrando-se dos seus tempos de pancadaria juvenil, decidiu juntar-se às fileiras de Nun'Álvares Pereira. É quando volta para casa, já depois da vitória portuguesa, que ouve vozes a vir do forno e lá encontrou sete castelhanos escondidos. Pegou na pá e com ela matou todos os soldados foragidos. Actualmente ainda se comemora, em Aljubarrota, o Dia da Padeira, onde é levantada uma pá que se diz ser a verdadeira.

Uns poucos quilómetros adiante fica então Alcobaça e o seu mosteiro, pioneiro no estilo gótico em Portugal, talvez a primeira grande obra religiosa do país, pouco mais de trinta anos depois de ter sido fundada a Nação, onde os monges se instalaram desde os primeiros tempos, vivificando uma zona que era espaço de ninguém, até pelo eminente perigo das terras conquistadas pelos cristãos poderem ser recuperadas pelos sarracenos novamente. Se voltássemos nove séculos atrás perceberíamos o quão delicada era a posição do Mosteiro de Alcobaça, numa altura em que a raia sul do país ora ia abaixo, ora vinha acima, consoante os avanços e recuos dos exércitos cristão. Foi a tomada de Santarém que deu alguma margem para que ele pudesse ser construído sem interferências bélicas, e assim se foi aguentando, com as óbvias remodelações e requalificações e recuperações, até à presente data. Lá dentro, há um casal que tem de ser visitado: D. Pedro e D. Inês de Castro, que deram momentos que poderiam ser textos para um Romeu e Julieta lusitano. Os comoventes túmulos de um e outro estavam colocados lado a lado, o que, à primeira vista, teria mais sentido, porque assim imaginamos os dois amantes deitados. Mudaram-lhes a sala e colocaram-nos frente a frente, para que a primeira coisa que vejam quando voltarem à vida seja o seu amor. Os túmulos são de uma beleza ímpar, duas obras-primas sem igual. A simbologia está lá toda, e se se prestar longa atenção ao de D. Pedro lá acompanhamos a Roda da Vida e a Roda da Fortuna, com episódios da tragédia de Pedro e Inês. Não contempla, infelizmente, uma parte que não é considerada história, mas que é sem dúvida parte da estória que o povo guardou na memória: a coroação de Inês depois de morta, em que o rei obriga toda a nobreza a beijar a mão da sua mulher.

Não há maior metáfora sobre a ligação proibida e, ao mesmo tempo, flamejante, entre Portugal (D. Pedro) e a Galiza (D. Inês). Por muitas mortes que contem, eles vivem na sabedoria popular. Sempre.

 

Mosteiro de Alcobaça - Alcobaça

Taberna - Pederneira

Praia da Nazaré - Nazaré

 

E depois é não parar até se ver o mar. Ele aparece, ao longe, junto às grossas areias da Nazaré. Esqueça-se este canto nos meses de Julho e Agosto, que lhe tiram qualquer centímetro dos quilómetros de encanto que há para ver. É agora e é assim que devemos conhecer a Nazaré, no silêncio desolador do final de Outono, em que o Atlântico nos berra com ondas e nos atira maresia de sal. 

Aliás, para lhe pegarmos a história como deve ser, até devemos começar pela Pederneira, um bairro nazareno que está na sua origem, quando o oceano ocupava quase todo o espaço da zona baixa da vila. Lá viviam, antes, os homens do mar. Foi só depois que, com o recuo do mar, estas gentes começaram a descer e a fixarem-se mais abaixo, a que se juntou uma migração de pescadores de Ílhavo, vinda de perto de Aveiro. Daí, sim, podemos pisar-lhe a areia branca e ver a cadeia de sete ondas a formar-se lá para trás. À nossa direita, a acompanhar a vila e a praia e o mar, está esse paredão gigante, que separa a praia central da praia do norte, a tal onde foi surfada uma vaga impossível, que nem a natureza deve ter acreditado quando a fez. Subimos essa falésia a pé, se quisermos, ou no elevador, ícone da terra, usado por turistas e locais em doses iguais. Lá em cima, num sítio chamado Sítio, avançamos até ao fim do cabo, um cabo do mundo, uma finisterra, terminada com um farol amuralhado. E por fim, seguindo pelo lado direito do farol, descemos até à pedra do Guelhim, uma rocha que serve de guia para muito pescador que nela vê a altura das marés e a bravura do mar. Tomamos umas escadas perigosas, em ferro. Ficamos a uns poucos passos de uma morte certa se os pés nos falham. Mas vale o risco. Fincamos os pés na pedra e deixamo-nos banhar pela fúria de Neptuno a tentar conquistar a costa. É aqui, nesta palco irrealizável, que um tipo se apercebe do pequeno que é.

 

Santuário de Nossa Senhora da Nazaré - Nazaré

Elevador a subir ao sítio - Nazaré

Sítio do milagre - Nazaré

 

Não é de espantar que tenham feito da Nazaré um promontório sagrado, destino final de muitas romarias, os famosos círios, como são conhecidos na província da Estremadura. Aqui lhe espetaram a lenda de Dom Fuas Roupinho, que caçava nesta zona, e que certo dia, galopando atrás de um veado que não era mais que a encarnação do diabo, ficou a um metro de cair falésia abaixo, apenas travado milagrosamente pelo aparecimento da Virgem, neste caso, da Nossa Senhora da Nazaré. Lá estão a capela e o santuário, a quererem dar prova do milagre. Vou-me repetir mas trata-se, outra vez, de uma cristianização de mais um ponto extremo, de um fim de um mundo e de um começo de outro, tal como acontece em Sagres, ou no Cabo da Roca, ou no Cabo de São Vicente, ou no Cabo Espichel, ou em muitos outros que acompanham a nossa costa ocidental, qualquer um deles recheado de lendas com vocabulário cristão a tapar um conteúdo nitidamente pagão. 

Houve sempre uma necessidade humana em prestar culto à beleza. É esta a origem elementar de qualquer procissão, e procissões até finisterras são coisa que não falta ao país. De Viana do Castelo, na ponta norte ocidental, até Vila Real de Santo António, na ponta sul oriental, multiplicam-se os rituais que alimentam esta relação do homem com o mar que lhe alimenta os dias. Por muito que a religião mude, ou por muito que se sinta ameaçada, eles continuarão a existir, noutras formas e noutros termos. Estarão sempre cá para as curvas. Basta que haja homem. E basta que haja mar.

 

Mar bravo junto ao Guelhim - Nazaré 

Onda - Nazaré

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por Ricardo Braz Frade às 20:43


2 comentários

De helena a 04.12.2012 às 14:44

Em Alcobaça há o "António Padeiro", um restaurante onde a comida é um "monumento".

Também estive na Nazaré de Inverno e sim, é uma beleza.

Para quem tiver interesse no ténis, tanto em Alcobaça como na Nazaré existem campos de ténis muito bonitos.

Um abraço

De Marta a 04.12.2012 às 20:37

Ainda bem q passaste pela nazaré. Para mim continua a ser mais do q uma praia..é um sítio a visitar fora da época alta sem dúvida!

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