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Qual crise?

Estas são conversas de um país que, estando em crise, vive apesar dela. Neste espaço fala-se de um Portugal que ainda consegue ser belo, de um GoCar feito playboy e de uma viagem que sempre quis fazer.



Domingo, 02.12.12

De Carnide à Terruja de Santo Estevão

À saída da vila - Carnide

Mosteiro da Batalha - Batalha

 

A Batalha roda à volta do mosteiro, que é pouco mais pequeno que ela. Li há relativamente pouco tempo, e infelizmente não tenho a certeza em que livro ao certo, que se poderia fazer uma espécie de trilogia dos mosteiros portugueses da zona centro: em Alcobaça, na Batalha, e nos Jerónimos, por esta ordem. O primeiro, onde andarei amanhã, se os planos não me falharem, estaria ligado ao nascimento da Nação. O terceiro, representaria a expansão, o Portugal do além-mar, das descobertas. Entre os dois estaria o Mosteiro da Batalha, o da consolidação nacional enquanto pátria, originalmente construído como uma consequência da batalha de Aljubarrota, mesmo aqui ao lado, à qual se associam bastantes lendas e outros tantos números, mas que a conclusão não é discutível: foi um dos marcos, talvez o mais significativo, que levou, ao contrário de outras províncias actualmente espanholas, este pequeno canto a ser independente das anexações castelhanas. A completar o monumento, para que não restasse qualquer dúvida, está lá o Condestável Nun'Álvares Pereira, a cavalo, gigante, a mandar na praça, homem que lutou e guiou os destinos vitoriosos de Aljubarrota. Outra razão que se pode apontar para o ter como símbolo de uma continuação dessa estranha ideia que foi Portugal, é o facto de ter sido construído ao longo de sete diferentes reinados, começando em D. João I e chegando a D. Manuel, que passou, a partir daí, a dedicar a sua atenção para um outro projecto situado na capital e que referi acima: os Jerónimos.

Um pouco a sul está a Pia do Urso, uma aldeia revitalizada e procurada pela miudagem pelo parque sensorial que exibe, com casas e produtos regionais, e mais adiante Porto de Mós, a pintar todo o quadro do que vem para a frente, o Parque Natural da Serra de Aire e Candeeiros. É bom lá chegar e conquistar o monte do castelo quadrangular do D. Fuas, com bonitas torres de telhados verdes, pouco habituais na arquitectura castelar portuguesa, e ter todas aquelas ondulações que eu tão bem conheço à nossa frente. D. Fuas Roupinho é uma figura emblemática do folclore nacional pelo milagre da Nazaré, ao qual me lanço amanhã.

 

Vista para o Parque Natural da Serra de Aire e Candeeiros - Porto de Mós

Castelo - Porto de Mós

Olveiras - Alvados

 

Vamos em frente. Voltamos à serra. Eu sei que daqui o que as pessoas guardam são as grutas, ainda por cima agora que uma delas virou sétima maravilha de Portugal, que é realmente enorme, e digna de ser vista. Mas vir apenas às Grutas de Mira d'Aire ou às de Santo António ou às de Alvados e não querer esforçar joelhos nos subires e desceres, é como ir a Lisboa, aterrar no castelo de São Jorge, e ir embora de seguida.

Mantêm-se bonitas Alcaria e Alvados, com casas típicas, construídas com a paciência da montagem da pedra sobre pedra, a aproveitar a inundação de rocha calcária que as envolve. São camas de descanso a alguns visitantes que procuram as elevações e as grutas de Aire e dos Candeeiros para percorrerem natureza serrana. Na primeira, Alcaria, existe um desvio para a direita, que pode parecer pouco perceptível a quem vá embalado em velocidade, e é muito bem feito que alguns não dêem com ele porque as coisas não se visitam com rapidez. Quem for atento, lê Fórnea na placa, e faz o que lhe compete, vira. Depois é continuar, à pata. Pode-se ver uma extensão de oliveiras que só termina porque os montes lhes param abruptamente a marcha. Há um pequeno riacho que nos vai fazendo companhia do nosso lado direito, e vai crescendo e crescendo, chegando a parecer um largo ribeiro conforme as chuvas, até terminar numa pequena cascata que cai de uma altura de três metros. E finalmente, após umas dezenas de passos em terra batida, vê-se a Fórnea, um enorme coliseu natural, uma magnífica bancada de calcário, a esntender-se em curva a cento e oitenta graus. Ali é para um tipo se sentar e deixar-se estar sentado, a ver a sombra a conquistar os metros à nossa frente à medida que o sol se vai pondo e escondendo no poente.

 

Entre serras - Alcaria

Cascata - Fórnea

Cá em baixo - Fórnea

 

Seguindo pelo Parque adentro surge depois, num dos cumes de maior altura, uma escarpa com dois grandes buracos lá cravados, que parecem olhos, e aos quais a imaginação do povo chamou de ventas do diabo. Esses negros olhos que a serra forma miram abaixo, no vale, a vila de Minde, a sul, e a de Mira d'Aire, a norte. O nome que dei ao título do texto de hoje é uma homenagem a esta bacia e a um pedaço cultural que ambas as vilas partilham: o calão minderico e as suas ligeiras derivações no mirense, ou, para o dizer com rigor, a piação dos charales do Ninhou. Não é uma língua, nem sequer um dialecto, mas conta com uma riqueza de vocábulos extensa e por isso quero elevá-lo a mais do que um calão. É um linguajar. Tem origem nas vendas de mantas que estas gentes faziam quando se deslocavam para sul, sobretudo para o Alentejo, tendo como objectivo a possibilidade de comunicarem entre si sem que os alentejanos os percebessem. Muitas destas palavras têm uma explicação. Como a Terruja de Santo Estevão, que segundo o dicionário do calão minderico, quer dizer Mira d'Aire: na vila há muitas pedras e baptizaram-na assim porque Santo Estevão foi morto à pedrada. Ou choradeiras, que é o mesmo que dizer cebolas, pelo efeito que causam quando são cortadas. Ou mamalhuda, que significa república, e acho que neste caso não é necessária uma justificação. E da combinação de determinadas palavras chegamos a outras, como arraiolos por cima da tosadeira, que somadas dão cabelo por cima da boca, ou antes, para ser breve, bigode.

Tenho uma detalhada memória dos meus avós falarem a piação para discutirem quanto dinheiro é que me iriam dar, e trocarem frases como, já jordaste neto ao charal?, ou seja, já deste dinheiro ao rapaz?. Certas pessoas mais velhas ainda vão buscar alguns destes termos quando querem conversar sobre alguma coisa que não deve ser percebida por mais ninguém. Prova disso é o meu Avô e a minha Avó, mas haverá mais com certeza. 

E agora, porque tenho cá família materna, vou-me aventurar. 

Em três planetas chego a Casal Grande e quero uma fusca com marinhas da mota. 

Até lá.

 

Ventas do diabo - Mira d'Aire

Vista da bacia, com Minde ao fundo - Mira d'Aire

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por Ricardo Braz Frade às 22:19


2 comentários

De helena a 03.12.2012 às 14:22

Cada relato seu é mais uma aula de história.

Eu sou do tempo em que na escola primária o passeio que se fazia anualmente tinha como único destino as Grutas de Santo António.

Um abraço

De Ricardo Braz Frade a 03.12.2012 às 20:11

Esta aula até foi dada pelos meus avós Helena.

Um abraço.

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