Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Qual crise?

Estas são conversas de um país que, estando em crise, vive apesar dela. Neste espaço fala-se de um Portugal que ainda consegue ser belo, de um GoCar feito playboy e de uma viagem que sempre quis fazer.



Segunda-feira, 26.11.12

De Viseu a Santa Comba Dão

Praia fluvial - Caldas de Sangemil

Com o Dinis - Entre Dão e Mondego

 

Estamos entre Dão e Mondego, tão próximos que facilmente os confundimos. Passeei-me pelo primeiro, outro dos rios portugueses a emprestar o nome a uma região de vinhos, provavelmente a terceira que nos lembramos depois do Douro e do Alentejo. Vêem-se vinhas a esse propósito, a combinar padrões com esta forma de granito a que as bocas populares vulgarizaram no nome de dente de cavalo

É engraçado ver que, nestas cercanias, se nos desviarmos das auto-estradas de Viseu e corrermos a nacional para sul, damos com uma pequena coluna da história de Portugal numa recta de cerca de vinte quilómetros. Começa depois de Sangemil e Beijós, quando vemos Cabanas de Viriato a aparecer. Aqui nasceu Aristides de Sousa Mendes, futuro cônsul. Termina um pouco adiante, quando chegamos a Santa Comba Dão. Aqui, ou muito perto - em Vimieiro -, cresceu António de Oliveira Salazar, futuro Presidente do Conselho. Tinham quatro anos de diferença e nos finais do século XIX seria impossível imaginar que um dia se iriam encontrar e construir um episódio dramático em plena segunda guerra, que actualmente deu ideias para um filme agora em exibição. Não vou contar o que se passou porque já deverão saber. E se não souberem sempre podem ir ao cinema e gozar do factor surpresa.

Santa Comba Dão, presentemente, é mais conhecida por ter acompanhado a vida de Salazar do que propriamente pelo seu outro passado, que falava de uma terra apoiada numa paisagem à beira-rio, e que lhe deu a alcunha de Princesa do Dão. É pena, mas percebe-se - é impossível dar à luz um senhor que governa o país durante trinta e cinco anos a fio e não se ficar conhecida no mapa por isso. A verdade é que Santa Comba Dão está um brinco. Não lhe vi uma parede vandalizada, nem um papel no chão. A zona da ribeira das hortas é uma sala de tranquilidade, onde algumas mulheres iam, e mais raramente ainda vão, aproveitar as suas águas para a rega das hortas e a lavagem da roupa. Atravessamo-la por uma pequena ponte de origem medieval ou romana, ou outra feita em madeira, a terminar um passadiço quieto, decorado com bancos e canteiros. Muitas cidades portuguesas são mais bonitas que Santa Comba, mas estão mais feias que ela.

E já que comecei o texto por falar de Cabanas de Viriato e de Santa Comba, falarei de uma e de outra de seguida. Da primeira, do curioso ritual da dança dos cus. Da segunda, da trágica lenda que lhe deu nome.

 

Estátua de Viriato - Cabanas de Viriato

Centro histórico - Santa Comba Dão

 

A dança dos cus faz-se no carnaval de Cabanas de Viriato e envelheceu para bem mais de cem anos. A coreografia em si não tem grande saber: há duas filas, supostamente uma de rapazes e outra de raparigas, em que cada elemento de uma vai chocando o seu cu no elemento da outra sempre que a filarmónica muda o ritmo da valsa. Disse supostamente porque esta forma não é exactamente cumprida, já que é frequente ver-se um embate de cus apenas masculinos ou apenas femininos. A máscara usada não obedece a qualquer tipo de norma, isto é, cada pessoa tem autonomia para se vestir como bem entender. 

Não se pode dizer que haja aqui um código simbólico complexo, como acontece em Podence, por exemplo - muito embora o choque de cintura entre cus lembre os dos chocalheiros nas mulheres de Trás-os-Montes. Mas podemos fazer um paralelismo baseado naquilo que já escrevi: que o carnaval celebra a alvorada da natureza e entende-se que, nesta altura de tempo sem lei, a diabrura não é condenável. Nesse aspecto, uma atitude desta índole, que normalmente seria apelidada de grosseira, é tida como praticamente necessária. 

Quando há descanso da dança, vão às entrudadas, este sim um fenómeno transversal a todo o país, em que vários aldeões são visados com quadras e declamações de mal dizer. E o lesado tem de ouvir e calar, enquanto exibe o corar nas risadas dos restantes.

 

Casas típicas - Santa Comba Dão

Abrigo de patos na Ribeira das Hortas - Santa Comba Dão

 

Já em Santa Comba, na Avenida General Humberto Delgado - interessante escolha de nome, na antiga cidade de Salazar -, há mais um painel de azulejos que ilustra a lenda da cidade. Escorre tragédia por todo o lado. Assume até proporções de fita de terror gore

Diz-se que aqui existiu um convento onde viviam cinco dezenas de freiras, junto às margens do rio Om. Na altura em que os mouros vinham em frenética cadência conquistadora pela península acima, lá se soube da conquista de Coimbra, acontecimento que pôs as freiras a rezar de medo. Quando um dos sarracenos chegou finalmente à porta do convento, a madre Comba serenou ânimos e foi abrir a porta ao invasor. Alimentou uma longa conversa com ele e este confessou-lhe que os soldados que conquistaram aquelas terras tinham ordens do seu rei para ficarem com as freiras para si. A madre disse que preferia que eles as matassem a todas do que serem obrigadas a virar costas à sua fé. O árabe respondeu que não iria matar uma mulher que estava destinada a servi-lo e abandonou aquelas paragens para mais tarde voltar. Quando regressaram, os sarracenos prepararam-se para fazer as suas escolhas e ficaram surpreendidos com a beleza das freiras. Quando o primeiro soldado exprimiu a sua preferência de todo o leque que dispunha, Comba chamou a jovem freira que, após um beijo de despedida da sua madre, sacou de um punhal e cravou-o no coração. As restantes monjas fizeram o mesmo e caíram mortas no chão. Comba também. Os ecos do martírio duraram centenas de anos na memória deste povo, que baptizou a povoação com o nome de Santa Comba D'Om, mais tarde Santa Comba Dão. 

Existe, no Alentejo, uma Santa igualmente conhecida por Comba, com uma história de mártir semelhante, e onde se conta ter rebentado uma fonte de água pura do sítio onde o sofrimento se deu.

 

Igreja Matriz - Santa Comba Dão

A lenda de Santa Comba na Avenida Humberto Delgado - Santa Comba Dão

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Ricardo Braz Frade às 18:23


6 comentários

De helena a 27.11.2012 às 16:46

Não me canso de lhe agradecer o que aqui partilha connosco. Tem sido uma viagem fantástica.

Um abraço

De Ricardo Braz Frade a 27.11.2012 às 22:37

Mais uma vez obrigado Helena.

Já me dei conta que promovi o Aristides a embaixador. Emendei agora para Cônsul.

Um abraço.

De Dylan a 28.11.2012 às 00:18

Caro Ricardo,

O defunto nasceu em "Vimiero".

De Ricardo Braz Frade a 28.11.2012 às 19:39

Vimieiro. Nem sei por que raio estava escrito no plural.

Obrigado. Um abraço.

De RUI ARAUJO a 07.01.2013 às 16:31

Obrigou-me a ler vários textos. Parabéns pelo interessante trabalho.
Saudações cordiais.
Rui Araújo

De Ricardo Braz Frade a 13.01.2013 às 18:57

Obrigado rui. Darei novidades em breve. Um abraço.

Comentar post




Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.