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Qual crise?

Estas são conversas de um país que, estando em crise, vive apesar dela. Neste espaço fala-se de um Portugal que ainda consegue ser belo, de um GoCar feito playboy e de uma viagem que sempre quis fazer.



Sexta-feira, 23.11.12

De Marco de Canavezes a Lamego

Miradouro - Gove

Socalcos - Santa Cruz do Douro

 

Ontem não cheguei a ir ver o Bond. A fita estava estragada de forma que tive de arranjar alternativa na outra sessão, a única que sobrava. Estava a rodar aquele filme em que os vampiros têm penteados de Cascais e os lobisomens vão ao ginásio para poderem usar camisas de algodão muito justas. Tinha tantas saudades de me sentar hora e meia no escuro só para ver malta a fingir-se passar por outra pessoa que até desculpei o facto do filme ser fraquito. 

Voltei ao Douro hoje, desta vez andei sempre com ele pela mão, de Santa Cruz do Douro até à Régua. Estes gigantes degraus escavados nas serras que apertam o rio são um trabalho de mestre, que nem certos oleiros conseguiriam fazer a moldar o barro. Aqui podemos ver o que significam realmente estes socalcos, um dos melhores casos que o mundo tem para dar de como o homem consegue mudar a paisagem, e, às vezes, como aqui, para melhor. Estas formas resultam quase sempre de uma necessidade humana, sendo este exemplo uma tentativa muito bem sucedida de tornar funcional um terreno que na origem não tinha nada mais para dar que não miradouros. Olhar para a escadaria imensa do Douro vinhateiro mostra como se pode forçar a terra a ser outra coisa que não o que a mandaram ser. Mostra uma vontade inesgotável do Homem em contrariar uma força que, à partida, seria maior que ele, a da natureza. E mostra, sobretudo, uma teimosia de criança em querer arar solos que os deuses quiseram áridos. 

O fascinante é que se conseguiu. Será difícil pensar no Douro na sua versão original e achar que ele seria mais belo antes do que é agora.

 

Vista para o Douro - Vila Jusã

Vista para o Douro - Barqueiros

 

Que curiosos são estes espigueiros em pedra, que sobressaem nos declives suicidas das serranias do vinho, feitos estátuas de gente célebre, a estenderem-se como túmulos, na horizontal, muitas vezes em grupos de dezenas, em eiras comunitárias. Estão a cada curva sinuosa, se nos dermos à atenção de os procurar. Hoje tidos como uma etiqueta do que é a pontuação paisagística do norte, já foram antes apenas um meio para um fim: pôr o milho a seco e livre de ser destruído. Sendo este solo húmido a estrada de muitos animais roedores, houve necessidade de se levantar este armário do chão - sobre pequenos pilares que o sustentam no ar -, cortar-lhe umas fissuras laterais, ora na pedra, ora na madeira, e deixá-lo parado a fazer esse serviço de armazenamento e de secagem. São quase sempre colocados em lugares de fortes bafejos, desabrigados a grande altitude, para acelerar o processo de enxugar o cereal.

Assim que passo a ponte na Régua deixo-os quase todos para trás.

A chula está a acabar.

 

Espigueiro - Pinheiro

Taberna - Lamego

 

Em Lamego aconteceu-me, pela primeira vez, ver recusada uma dormida num quartel de bombeiros que não por uma razão justificada. 

- As ordens que tenho é que não aceitamos ninguém - disse-me a mulher da secretaria -, desde que tivemos uma má experiência com um senhor que nos pediu o mesmo que o senhor está a pedir.

- A sério? Então?

- Então era um espanhol que roubou o carro ao comandante e foi até Espanha com ele. Tivemos de o ir lá buscar.

Comecei-me a rir.

- Mas ouça, por causa desse caso cortaram todos os outros? Também sei de muitos desconhecidos que me tentaram enganar e não é por isso que me deixo de dar com gente que não conheço. Já fiquei em dezenas de quartéis nesta viagem, pode telefonar para qualquer um deles e saber que não roubo nada a ninguém.

- Pois, desculpe, são as ordens que tenho.

Quando ouço esta frase, o meu ouvido faz soar o alarme mental que avisa para me ir embora. São as ordens que tenho, que numa linguagem futebolística corresponde a um, epá, tira a bola daqui pra fora, tem matéria suficiente para fazer um capítulo de portuguesismos. É semelhante àquelas empresas que invocam o sistema interno para não nos responderem às questões. Lá me sugeriram um albergue de peregrinos de Santiago, que estava fechado. Eu que hoje até fui bom samaritano e dei boleia a um senhor já de certa idade durante três ou quatro quilómetros e que ficou encantado com o GoCar. Caraças para esta treta de conversa sobre o karma.

Lamego, entretanto, continua como o conheci: bonito. Acho que disse que não voltava à província de Trás-os-Montes mas pelos vistos menti. O texto já vai grande. Amanhã falarei do que queria falar. Do altar da vila, o Santuário da Nossa Senhora dos Remédios. 

 

Moradia e Igreja de Santa Maria de Almacave - Lamego

Largo de Camões - Lamego

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por Ricardo Braz Frade às 20:37


2 comentários

De Diogo Martins a 23.11.2012 às 22:45

Essa mentalidade de generalizar tudo já chegou ao Norte? Aiiiii, que isto não me agrada.

De resto, acho que isto que te aconteceu hoje é mesmo castigo divino por teres ido ver o tal filme dos vampiros que brilham com o sol e dos lobisomens que são índios :P

Boa descrição de essas "maravilhas da arquitectura" que são os socalcos do Douro Vinhateiro.

Um abraço, espero que tenhas arranjado guarida, e que o dia de amanhã te corra melhor :)

De Ricardo Braz Frade a 24.11.2012 às 10:55

Arranjei, há sempre pensões.

Grande abraço.

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