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Qual crise?

Estas são conversas de um país que, estando em crise, vive apesar dela. Neste espaço fala-se de um Portugal que ainda consegue ser belo, de um GoCar feito playboy e de uma viagem que sempre quis fazer.



Domingo, 18.11.12

De Vieira do Minho a Vilarinho das Furnas

Rio Gerês - Vila do Gerês

Igreja - Vila do Gerês

Dinis a atravessar ribeiro - Parque Nacional da Peneda Gerês

 

O Gerês serve bem como paradigma do que distingue Trás-os-Montes do Minho. Sendo breve e claro, temos dois rapazes, filhos dos mesmos pais: um que gosta de andar de barba rija, tem músculo de campo e não de ginásio, anda de cabelo desgrenhado, calça o que lhe vem primeiro à mão e que quer despachar o assunto do casamento o mais rápido possível; outro que é loirinho, tem penteado organizado para o lado, um amor adulto à sua terra, veste-se com toque, aprecia o galanteio e gosta da límpida elegância do vinho verde. Ao primeiro, deu-se o nome abrutalhado de Trás-os-Montes. Ao segundo, apelidámos com a inocência reservada e aristocrática de Minho. 

Voltando ao exemplo do Gerês, que está enfiado entre parte de uma e de outra província, reconhecemos-lhe estas duas caras - a virada para o interior, da qual falei por alto ontem, mais fechada e tradicional, e a que aponta binóculos ao Atlântico, bafejada por ares cosmopolitas vindos de Braga, Viana ou Guimarães. Nesta segunda, percorrida hoje pelo parque adentro, vemos vilas de comércio tradicional a aportarem produto junto ao movimento da estrada principal, como acontece na Vila do Gerês, parques de campismo com tecnologia a dar um empurrão às necessidades, áreas definidas por decreto turístico para desportos de aventura e montanha, hotéis e residenciais e casas para aluguer de quartos em quantidades de linhas de montagem. No Minho, o Gerês é mais fácil de se estar, mas se calhar com menos Gerês para dar. 

 

Ribeiros - Parque Nacional da Peneda Gerês

Trilhos da Geira - Parque Nacional da Peneda Gerês

 

Não lhe tiro mérito. Nenhum destes modernismos lhe condena o encanto serrano do norte. Os montes parecem vagas de marés vivas, com espuma de fresco granito, prontas a rebentar e engolir e levar com elas tudo o que há de vida cá por baixo, junto aos vales. Olhamos em volta e sabemos, sem os ver, que haverá corços e lobos e corujas a vigiarem cada passo nosso. Os carvalhos, essa árvore mágica que os antigos amavam mais que a Deus, dão tons que se querem repetir com pincel e tinta numa obra-prima em tela. As casas são da cor do monte e o monte é da cor do céu. O Gerês minhoto continua belo, tanto como o outro.

As vistas tiram-nos as mãos da electricidade. Qualquer ponto da estrada, sacado ao acaso, é um miradouro em potência. É tão verde e tão fecundo que não nos quebra a razão acreditar que de um bloco de argamassa pode nascer um pinheiro-bravo. As chuvas outonais fazem as encostas a pique jorrar lágrimas de água pura. Tornam-se cascatas quando perdem o suporte da pedra nos desfiladeiros, e caem em lagoas mais geladas que o gelo. Há rios e riachos e ribeiros a fazerem um barulhinho que podia entrar numa melodia celta.

Faz-me pensar por que raio nos vendem o céu depois da morte, se tudo o que é feérico esconderam aqui.

Ter este magnífico esplendor à nossa frente, como acontece quando vamos à antiga aldeia de Vilarinho das Furnas, é ver a Terra a dar um milagre a Deus. 

 

Vista para o Parque - Barragem de Vilarinho das Furnas

Fronteira com a Galiza - Portela do Homem

 

E a propósito de Vilarinho das Furnas. Repararam com certeza no título. Vilarinho das Furnas não é exactamente onde hoje durmo porque Vilarinho das Furnas já não existe. Mas estava aqui perto, e dei-lhe o nome como homenagem a essa aldeia submersa, à qual nunca cheguei a apertar a mão, mas que prova como uma coisa que nunca vi se pode tornar inesquecível. Era um dos outros pólos de vida comunitária portuguesa. Esta dinâmica colectiva de organizar o trabalho deve remontar a alturas em que os romanos ainda nem sonhavam sair de Roma, à ibéria tribal, talvez anterior à própria invasão celta da península. É giro ver que depois da Reconquista, em plena época medieval, muitas povoações retornaram à organização social comunitária, o que parece indicar a existência de uma imortal semente regeneradora que, regada, pode germinar a qualquer hora, independente dos sinais dos tempos. Vilarinho das Furnas funcionava assim, num compadrio da labora, em que se lavrava para o todo. Caso uma cabeça de gado morresse do infortúnio, os aldeões chegavam-se à frente, pagando cada um a sua parte da carne ao pastor, e comiam-na em conjunto. Organizavam-se segundo uma Junta, onde participavam os Vizinhos, os Seis e o Zelador. Os Vizinhos, de quem faziam parte os chefes de família da aldeia - homens, quase sempre, e mulheres, quando os homens estavam mortos ou emigrados -, elegiam o Zelador por um período não superior a seis meses. Escolhiam ainda os Seis, outros representantes que aprovavam determinadas soluções apresentadas pelo Zelador. Às Quintas-Feiras, pelo toque grave de um búzio ou de um corno, o Zelador despertava a aldeia e anunciava a reunião da Junta, onde todos deveriam garantir presença, sob pena de sanções aplicadas pelos Seis e pelo Zelador. Neste dia, tratavam-se dos assuntos da terra, ouviam-se os aldeões, discutiam-se conclusões, enumeravam-se queixas, desfaziam-se inimizades, acabavam-se confusões, aplicavam-se castigos. Calendarizavam os acertos de caminhos, a construção de muros, o arranjo de telhados. Os vizinhos falavam, o Zelador propunha, os Seis votavam. O molde era este. Diz-se que eram congressos de acesa zaragata, no limite da agressão, que no final nunca chegava a acontecer. Quem passasse o limite do aceitável era punido severamente, desde que os Seis votassem a esse favor, ou sendo expulso de Vizinho, ou ficando de fora do trabalho comunitário deixando de ter proveito deste, ou excluindo o gado do infractor de pastar nos terrenos do burgo. O castigo da comunidade era deixar um homem entregue a si próprio. Acontecia, por vezes, o rebelde ter de abandonar a gente que o viu crescer e procurar abrigo noutro lado, num caminho da vergonha que nenhuma prisão de hoje consegue replicar.

Em 1968, a evolução destruiu a aldeia de Vilarinho das Furnas. Converteu-a em lago. Uma enorme onda de lucro tapou-a com água. É agora uma barragem, de cimento imperial. Apagaram-na com o desprazer de quem usa uma borracha. Calaram o seu povo com uma saqueta de indemnizações que seriam ofensivas até para um mendigo. Talvez acreditassem que o progresso deveria acabar com Vilarinho das Furnas porque Vilarinho das Furnas já não era progresso. Esta marcha para o tempo moderno tem qualquer coisa de rebanho de ovelhas guiadas por pastor cego. O nome ficou, agora dado à gigante parede que a derrotou, a Barragem de Vilarinho das Furnas. Há ironias do caraças.

 

Porta de casa - Assento

Cascata de Leonte - Parque Nacional da Peneda Gerês

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por Ricardo Braz Frade às 22:32


1 comentário

De helena a 19.11.2012 às 15:26

Está, então, já por terras do verde, seja o da natureza ou do vinho.

Continuação de bons passeios.

Um abraço

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