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Qual crise?

Estas são conversas de um país que, estando em crise, vive apesar dela. Neste espaço fala-se de um Portugal que ainda consegue ser belo, de um GoCar feito playboy e de uma viagem que sempre quis fazer.



Quinta-feira, 08.11.12

Da Guarda a Almeida

Junto ao adro - Pínzio

Com o Dinis - Arrifana

 

Já percebi que não consigo sair à noite. Não há timing. O corpo cansa-se mais rápido do que a noite e pelas onze começo a pensar em lençóis e almofadas. Andei por bares da Rua Dom Dinis, duas paralelas abaixo da Sé. A ideia era ver o jogo numa taverna e depois ir beber um copo a qualquer lado. A chuva era tanta que não saí dali. A Guarda não morre quando fica escura. O politécnico dá-lhe gente nova que espicaça as ruelas que circundam, de dentro para fora, o largo da Sé. Mas ali, naquela taverna com um par de metros quadrados, era só eu e o dono. Ele pôs a rodar um álbum qualquer dos Dire Straits ao vivo, para puxar ainda mais à solidão. Pedi-lhe um papel e uma caneta e comecei a escrever. Ainda lhe disse que se ele queria meter o ambiente ainda mais em baixo podia escolher um Tom Waits, que é melhor e sempre não tenta disfarçar a amargura. Ele não ligou. Pela cara pareceu-me não conhecer, o que é de lamentar, porque as vezes em que sinto que escrevo bem é quando ouço Tom Waits. Acho que o texto se esticou tanto como o tal disco-concerto que saía das colunas. Não sei por que raio, mas a seguir aos Dire Straits o homem resolveu puxar de uma obra dos Scorpions com uma orquestra qualquer e foi aí, quando chegou o refrão do "You & I", que percebi a caricatura de toda a situação e decidi sair. Deixar um bar ao som de Scorpions é muito kitsch. Ainda bem que a água caía que nem cascata lá fora e ninguém me viu. 

Queria parar por algumas aldeias e vilas, hoje, e se calhar foi melhor assim. 

 

Cruzeiro - Rio Côa

Ponte Grande - Rio Côa

 

Por aqui a televisão é dividida entre canais nacionais e espanhóis. Apanhei, no barbeiro, dois homens a discutir onde era melhor ver a meteorologia. Um dizia guiar-se pelos telejornais de cá, e alinha-se sempre pelo tempo da Guarda. O outro atirava que isso é um disparate, que o ideal é ouvir o que Espanha prevê para Cáceres porque a Guarda é muito lá em cima do monte.

- Nem sequer é Salamanca, é Cáceres. Salamanca falha muita vez. 

Os cafés só nos servem quando uma novela qualquer pára para intervalo. Um tipo bem tenta fazer mímica de quem está à espera. As mulheres olham, percebem, e não dão troco.

- Queria uma tosta de presunto e queijo - insisto eu.

- Já lha faço - e torna a virar-se para o ecrã. 

São terras diferentes. A Arrifana, que me fez o corte à gadelha - e ainda sinto os meus cabelos salpicados com os do homem que foi à tesoura antes de mim -, enfia-se logo depois da Gare da Guarda, e já tem o desvio rústico e independente de aldeola. Granja e Gonçalo Bocas lembraram-me Monsanto no aproveitar da pedra bruta para desenrascar paredes e telhados de casas. E Pínzio, com casas de uma velhice terna e bucólica. Tudo antes de Almeida.

 

Baluarte de Santo António - Almeida

Entrada pelo Revelim da Cruz - Almeida

 

Os árabes chamavam-lhe A Mesa, Al-Mêda, presumo que pela natural plataforma que lhe oferece uma vantajosa vista sobre o que gira à sua volta. Qualquer planalto faz as delícias da estratégia militar e de quem procura uma torre de vigia. Sejamos claros, Almeida existe porque os conflitos existem. É uma parada militar, uma máquina de guerra, um circuito fortificado segundo as melhores engenharias de defesa do século XVII. Já era um fortificado antes, mas foi depois dos três Filipes de Espanha, os tais que cá governaram durante sessenta anos, que se sentiu necessidade de o engordar em muralha e actualizá-lo em design. Foram buscar os esboços de Antoine DeVille, onde as paredes defensivas têm, vistas de cima, uma forma estrelar. Imagine-se um hexágono em que cada vértice anexa uma espécie de losango. E agora volte-se a imaginar que cada aresta da planta é seguida por um triângulo que sai para fora. Aos primeiros chamam-se baluartes, aos segundos revelins. Daí haver normalmente duas portas de entrada no forte: uma nos ditos triângulos exteriores, outra nas tais arestas do hexágono interior. Eu sei que em palavras não deve ser fácil pensá-lo mas vou complicar. Do lado de fora, seguindo o perímetro dos revelins, escava-se um fosso, que servia como protecção e como depósito de drenagens. Mais: para cada ângulo dos baluartes, junta-se uma guarita. É uma forma complexa mas aparentemente eficaz de acordo com os cânones da arquitectura bélica da altura.

Serviu para a guerra dos sete anos, contra Espanha, e para as invasões napoleónicas, contra França. Na primeira, foi tomada pelo país do lado, e recuperada mais tarde. Na segunda, foi parcialmente destruída, do lado de dentro, com a explosão de um dos revelins, o do Paiol.

Já não há infantaria, nem cavalaria, nem nada que meta espingarda e chumbo. Almeida é um quartel de coisa nenhuma e hoje guarda apenas a casa de poucas pessoas, prováveis descendentes dos resistentes de outros anos.

Parece tão só que apurou o sarcasmo de quem se deixou de importar. Lêem-se por cima dos portões de ferro do cemitério, junto à Torre do Relógio, versos dos mortos: ó tu quem quer que és, repara como eu estou, eu já fui como tu és, e tu serás como eu sou. Simpático.

 

Fechada de casa - Almeida

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por Ricardo Braz Frade às 20:46


1 comentário

De helena a 09.11.2012 às 17:15

As suas palavras acertaram-me em cheio, tenho ouvido algumas baladas dos Scorpions até à exaustão por serem as "nossas músicas", minhas e do meu marido, falecido recentemente. Nunca o verso dos mortos que transcreve me fez tanto sentido.

Bom fim de semana

Um abraço

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